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Inundações na Líbia. Centenas em protesto contra as autoridades locais

por Andreia Martins - RTP
Manifestantes em protesto esta segunda-feira junto à mesquita Al-Sahaba, em Derna. Esam Omran Al-Fetori - Reuters

Centenas de pessoas protestaram esta segunda-feira na cidade de Derna, no leste da Líbia. Exigem a responsabilização das autoridades, quando passa exatamente uma semana desde as cheias que fizeram pelo menos 11 mil mortos e cerca de dez mil desaparecidos.

Neste protesto que decorreu junto à Mesquita Al-Sahaba, entre os destroços, as palavras de ordem dos manifestantes visaram os líderes da zona leste do país, em especial o porta-voz da Câmara dos Representantes da Líbia, Aguila Saleh.
Aguila Saleh é o porta-voz da Câmara dos Representantes, grupo político criado em 2014 que funciona em Tobrouck, afeto ao general Haftar, líder do Exército Nacional Líbio. Trata-se de uma força legislativa paralela ao governo de Tripoli, ou o Governo de Unidade Nacional, reconhecido pela ONU.
Na última semana, Saleh tentou desviar culpas, ao descrever a inundação como um “desastre natural sem precedentes”.

“Não digam: e se tivéssemos feito isto, e se ao menos tivéssemos feito aquilo”, pediu.

Um dos apelos mais ouvidos entre os protestos foi o de unidade nacional, num país politicamente fraturado há vários anos.

“Líbia, nem oriente nem ocidente, unidade nacional”, exigiram os manifestantes.

Num comunicado lido durante a manifestação desta segunda-feira em nome dos “habitantes de Derna” apelou-se a “uma investigação rápida e ações legais contra os responsáveis pelo desastre”.

Pediu-se também “o estabelecimento urgente de um gabinete de apoio da ONU em Derna” e o lançamento do “processo de reconstrução da cidade e compensação para os residentes afetados”.

A declaração exige ainda a dissolução da atual Câmara Municipal e uma investigação aos orçamentos anteriores da cidade.

De acordo com a agência France Presse, os manifestantes incendiaram uma casa identificada como propriedade do autarca de Derna, Abdulmonem al-Ghaithi.

A manifestação ocorre num momento em que as equipes de resgate ainda procuram os corpos de milhares de pessoas desaparecidas.
Infraestrutura negligenciada
O protesto desta segunda-feira é a primeira grande manifestação desde a inundação de há uma semana, quando uma forte tempestade – a tempestade Daniel - provocou o rebentamento das duas barragens.

No país, os analistas chamam à atenção para os avisos feitos antes do desastre, nomeadamente um artigo académico de Abdelwanees A. R. Ashoor, da Universidade de Omar Al-Mukhtar, na Líbia, publicado no ano passado, que alertava para a grande vulnerabilidade da cidade às cheias e para a necessidade urgente de manutenção das barragens.

“A situação actual na bacia do vale do Derna exige que os responsáveis tomem medidas imediatas, com a realização de manutenções regulares das barragens existentes, porque, em caso de grandes cheias, o resultado será desastroso para os moradores do vale e da cidade”, alertava.

Um relatório estatal de 2021 reconhecia que as duas barragens em causa não tinham sido alvo de manutenção, ainda que tenham sido alocados fundos para esse fim entre os anos de 2012 e 2013.

Na passada sexta-feira, o Procurador-Geral da Líbia, Al-Sediq al-Sour, anunciou a abertura de uma investigação sobre o colapso das duas barragens por suspeitas de negligência. As duas barragens foram ambas construídas durante a década de 70.
País fragmentado
A investigação será levada a cabo num país que tem, há vários anos, dois governos com diferentes líderes, áreas de influência e milícias.

Uma situação que se arrasta num país destroçado por 12 anos de conflito e divisão após a queda de Gadhafi com a intervenção da NATO em 2011, durante a Primavera Árabe.

A cidade de Derna fica no leste da Líbia, uma zona do país controlada pelo comandante militar Khalifa Haftar. Em Tripoli, governa um executivo paralelo reconhecido a nível internacional. O país está há vários anos dividido em várias zonas de influência, com duas principais administrações: o governo de Tripoli, reconhecido internacionalmente, e um governo rival a leste, onde fica a cidade de Derna.

Derna fica a 1.450 quilómetros da capital, Tripoli, mas a população da capital tem procurado mobilizar-se e ajudar a cidade no leste do país.

A catástrofe promoveu casos raros de cooperação entre administrações opostas para ajudar as pessoas afetadas, quando ainda em 2020 os dois lados estavam envolvidos numa guerra total.

“Vimos até alguns comandantes militares da coligação militar aliada de Tripoli a chegarem a Derna, em sinal de apoio”, afirmou Claudia Gazzini, analista senior da Líbia do International Crisis Group, citada pela agência France Presse.

Mas o governo da Tripoli, reconhecido pela ONU, não tem jurisdição sobre o local onde ocorreram as cheias. Para o analista político Anas El Gomati, esta situação advém dos “falhanços sistemáticos de governação” da última década na Líbia, com “dois governos rivais que estão perfeitamente felizes em governar sobre os escombros enquanto os seus cidadãos jazem em baixo”, refere em entrevista à Deutsche Welle.

A Líbia tem as maiores reservas de petróleo de África e é o nono país com mais reservas de petróleo de todo o mundo.Anas El Gomati, diretor do think-tank líbio Sadeq Institute, a catástrofe que atingiu a Líbia foi provocada por “negligência criminal” por parte das autoridades, já que havia tempo para avisar a população e evacuar a cidade antes da tempestade.

Considera por isso que as autoridades locais não são as pessoas certas para coordenar os esforços de apoio à população após as cheias. “Podem retirar-se, já fizeram o suficiente”.
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