Irão. Organização não-governamental aponta para mais de 50.200 detidos nos protestos
As autoridades iranianas detiveram mais de 50.200 pessoas no âmbito dos protestos contra o regime, segundo dados divulgados hoje por uma organização não-governamental (ONG), que denunciou que a repressão continuava a intensificar-se no país.
A República Islâmica esmagou com violência, no início do ano, um vasto movimento de contestação que começou no final de dezembro e atingiu o auge em 08 e 09 de janeiro.
As autoridades iranianas reconheceram a morte de milhares de pessoas, mas disseram que a grande maioria eram membros das forças de segurança ou transeuntes mortos por terroristas ao serviço dos Estados Unidos e de Israel.
A ONG Human Rights Activists News Agency (HRANA), que anteriormente tinha reportado mais de 42.000 detenções, reviu hoje o número em alta, registando agora pelo menos 50.235 detenções ligadas às manifestações.
A HRANA, fundada em 2005 e que afirma ter uma rede de informadores em todo o país, deu conta na segunda-feira de um balanço de 6.854 mortos no âmbito da repressão dos protestos, incluindo 152 jovens com menos de 18 anos.
O balanço inclui ainda a morte de 214 elementos das forças governamentais e de 58 civis que não participavam nos protestos, continuando pelo menos 11.280 casos sob investigação das autoridades e organizações de direitos humanos.
As detenções visaram "um vasto leque de cidadãos, nomeadamente estudantes, escritores e professores", segundo a organização registada nos Estados Unidos, citada pela agência de notícias France-Presse (AFP).
Nalguns casos, as detenções foram acompanhadas de "buscas domiciliárias e confisco de bens pessoais".
A HRANA assinalou ainda mais de 300 "confissões forçadas" transmitidas pela televisão.
A Amnistia Internacional também se manifestou preocupada na semana passada com a detenção de milhares de pessoas, incluindo crianças.
A ONG com sede em Londres alertou para o "grave risco de desaparecimento forçado, tortura e outros maus-tratos, morte em detenção e execuções arbitrárias após julgamentos manifestamente injustos".
O chefe do poder judicial no Irão, Gholamhossein Mohseni Ejei, advertiu que não haverá "qualquer indulgência" para com os envolvidos nas manifestações.
O Ministério Público iraniano esclareceu que alguns detidos enfrentam acusações passíveis de pena de morte.
Entre os detidos está o cineasta iraniano Mehdi Mahmoudian, coargumentista do filme "Foi Só Um Acidente", exibido em Portugal e Palma de Ouro em Cannes em 2025, por suspeita de ter ajudado a redigir uma declaração crítica do poder.
Mahmoudian foi interpelado no domingo juntamente com o líder estudantil Abdollah Momeni e a jornalista e ativista dos direitos das mulheres Vida Rabbani, segundo a agência de notícias iraniana Fars.
O texto em causa, assinado por mais de uma dezena de opositores, compara a repressão a um "crime de Estado contra a Humanidade", explicou a fundação da Nobel da Paz Narges Mohammadi.
Mohammadi está detida desde dezembro por ter participado num protesto anterior à recente vaga de contestação.