Israel proíbe entrada de ajuda no norte de Gaza antes da votação do Conselho de Segurança da ONU

por Inês Moreira Santos - RTP
Mike Segar - Reuters

O Conselho de Segurança das Nações Unidas votou, esta segunda-feira, no novo projeto de resolução para um cessar-fogo "imediato" em Gaza, depois de a Rússia e a China terem vetado a proposta anterior dos Estados Unidos. Mas, a poucas horas da votação que pede agora um cessar-fogo, a Agência da ONU para os Refugiados Palestinianos (UNRWA) foi proibida por Israel de fazer qualquer entrega de ajuda humanitária no norte da Faixa de Gaza.

A votação no Conselho de Segurança da ONU de um projeto de texto que apela a um cessar-fogo imediato na Faixa de Gaza foi adiada para esta segunda-feira. A votação foi reagendada depois de, na sexta-feira, a Rússia, China e a Argélia terem vetado uma proposta de resolução apresentada pelos Estados Unidos de cessar-fogo no âmbito das negociações para a libertação dos reféns capturados durante o ataque sem precedentes do Hamas, a 7 de outubro, em solo israelita.

A proposta foi vetada por ser "ambígua" e, segundo os países que votaram contra, por não exigir diretamente que acabem os combates. A Rússia e a China classificaram-na mesmo como um "espetáculo hipócrita".

O Conselho, que há anos se encontra largamente dividido sobre a questão israelo-palestiniana, só conseguiu aprovar duas resoluções sobre o assunto desde 7 de outubro, essencialmente humanitárias. Os resultados são escassos: a ajuda a Gaza continua a ser largamente insuficiente e a fome é iminente.

Várias outras resoluções políticas foram rejeitadas por vetos norte-americanos, por um lado, e russos e chineses, por outro, ou por um número insuficiente de votos. Contudo, esta resolução, proposta após mais de cinco meses de guerra, marcou a primeira vez que os Estados Unidos pediram um cessar-fogo imediato em Gaza no Conselho de Segurança, após terem vetado vários projetos apresentados por outros países.

Entretanto, às primeiras horas desta segunda-feira, a China já havia anunciado que iria apoiar o novo projeto de resolução no Conselho de Segurança exigindo um cessar-fogo “imediato” em Gaza.

"A China apoia este projecto de resolução e elogia a Argélia e outros países árabes pelo seu trabalho árduo neste sentido"
, disse o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros, Lin Jian. “Esperamos que o Conselho de Segurança o aprove o mais rapidamente possível e envie um sinal forte para o fim das hostilidades”.
UNRWA proibida de levar ajuda ao norte de Gaza

No domingo, “as autoridades israelitas informaram a ONU que não aprovarão mais nenhum envio de comboios de ajuda alimentar pela Agência de Assistência aos Refugiados Palestinianos para o norte de Gaza”, anunciou a UNRWA em comunicado.

O comissário-geral desta entidade, Philippe Lazzarini, manifestou “indignação” e acusou Israel de “obstruiu intencionalmente” a entrega de ajuda humanitária, como alimentos e medicamentos.

“A partir de hoje, a UNRWA, a principal tábua de salvação dos refugiados da Palestina, está impedida de fornecer ajuda vital ao norte de Gaza”, denunciou Lazzarini na rede social X. “As autoridades israelitas informaram a ONU que não aprovarão mais nenhum comboio da UNRWA com alimentos para o norte [do território] ”.

Para o responsável da agência da ONU, esta medida “é ultrajante” e demonstra ser “intencional” a obstrução de “assistência para salvar vidas durante uma fome provocada pelo homem”.

“Estas restrições devem ser levantadas”, apelou ainda.

Estando a UNRWA impedida de cumprir a sua missão em Gaza, continuou, “o tempo acelerará em direção à fome e muitos morrerão de fome, desidratação e falta de abrigo”.



Também o secretário-geral da Organização Mundial da Saúde criticou esta nova medida, acusando Israel de “negar às pessoas em situação de fome a possibilidade de sobreviver”.

Tedros Ghebreyesus apelou, por isso, a que esta decisão israelita seja “revertida com urgência”.

Israel tem sido constantemente hostil em relação à UNRWA desde o início de 2024, após ter acusado vários trabalhadores da agência da ONU de estarem ligados ao Hamas e de terem ajudado nos preparativos dos ataques de 7 de outubro contra Israel. Por essa razão, muitos países suspenderam o financiamento à UNRWA. Posteriormente e considerando o contexto da grave crise humanitária em Gaza, retomaram o financiamento.

Segundo a ONU, a grande maioria dos 2,4 milhões de habitantes da Faixa de Gaza está ameaçada pela fome. A situação é particularmente grave para as pelo menos 300 mil pessoas que permanecem no norte do território, onde a entrega de ajuda é ainda mais difícil.
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