Israelita B’Tselem denuncia "limpeza étnica" na Cisjordânia ocupada

Israelita B’Tselem denuncia "limpeza étnica" na Cisjordânia ocupada

Uma organização israelita de defesa dos Direitos Humanos acusa Israel de "eliminar" as condições de vida dos palestinianos na Cisjordânia. O relatório do grupo B'Tselem denuncia o ataque sistemático a rotinas básicas para o funcionamento de uma sociedade.

Cristina Santos - RTP / Adicionar como fonte informativa
Raide israelita em Anata, na Cisjordânia ocupada por Israel. Foto: Ammar Awad - Reuters

O documento, partilhado pela organização israelita de defesa dos Direitos Humanos com o jornal The Guardian, acusa Telavive de “intensificar drasticamente os ataques”. Exemplos? Não poder “ir trabalhar, levar os filhos à escola ou à universidade, receber tratamento médico ou serviços municipais, encontrar familiares e amigos, cultivar a terra ou ir de férias... atividades rotineiras que compõem a vida humana”.

Elimination Project (“Projeto Eliminação”) é o título deste relatório, que acusa diretamente vários ramos do Estado de Israel liderados pelo ministro das Finanças de extrema-direita. Estão a "criar uma realidade na qual milhões de palestinianos vivam sob o medo constante da violência militar e civil israelita", escreve a B’Tselem.
Um dos aspetos mais evidentes desta “eliminação coletiva” é o encerramento de estradas e aldeias à passagem de palestinianos. 

Foi o que aconteceu recentemente com Haytham Adnan Murad, de 49 anos, que regressava de uma consulta médica em Hebron com a filha de 12 anos que não consegue andar devido a uma cirurgia recente. 

A passagem na estrada de acesso à aldeia, que estava aberta de manhã, tinha sido fechada pelo exército israelita. Haytham Murad foi obrigado a sair do táxi em que seguia e a transportar a filha em braços para contornar a barreira. “Quando saímos, o portão estava aberto. Agora está fechado, mas é assim o dia-a-dia”, disse. “De manhã, a situação é diferente da tarde. Não há dignidade nisso.”
"As comunidades palestinianas estão a ser expulsas num processo acelerado de limpeza étnica, enquanto uma presença israelita em constante expansão se estabelece no seu lugar, sob a forma de colonatos, postos avançados, quintas e infraestruturas civis exclusivas para judeus", lê-se no relatório. 

"Neste contexto, a eliminação significa danos contínuos nas condições que permitem aos palestinianos existir como um povo dotado de terra, instituições, língua, cultura, laços sociais, liderança, memória e história partilhadas, além de um horizonte social e político", denuncia a organização israelita de direitos humanos. O que está a acontecer na Cisjordânia é “um projeto político para reorganizar o espaço e as condições de vida de modo a que a presença judaica se torne contígua, institucionalizada e permanente, enquanto a existência palestiniana se torna fragmentada, vulnerável e dependente.”
Apesar da ofensiva israelita contra a vida palestiniana na Cisjordânia se ter intensificado depois do ataque do Hamas, a ideologia é anterior.

Os autores da publicação divulgada esta segunda-feira lembram um documento de 2017 que apresentava aos palestinianos três opções: “viver sob a supremacia judaica enquanto abdicam das suas reivindicações nacionais, abandonar o território ou enfrentar a repressão violenta das forças armadas israelitas caso resistam”. Assim, revela o relatório de hoje, a violência dos colonos deixou de ocorrer “apenas como violência privada ou violação da ordem pública” para passar a fazer parte de um “sistema de controlo mais vasto”.
“Por vezes, é perpetrada em conjunto com militares, com o apoio das forças de segurança, utilizando armas, equipamentos e infraestruturas fornecidos pelo Estado, e com uma impunidade quase total.”

A publicação deste relatório ocorre menos de uma semana depois de o ministro dos Negócios Estrangeiros britânico, Ed Miliband, ter acusado colonos, apoiados pelo Governo de Benjamin Netanyahu, de promoverem uma limpeza étnica na Cisjordânia.

Em resumo, a B’Tselem assegura que a ofensiva contra os palestinianos é “regida por uma lógica organizadora coerente” e abrange cinco “esferas de ação interligadas”: violência e intimidação, restrições de movimento, estrangulamento económico, destruição social e política, e limpeza étnica e tomada de território”.
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