Itália a votos. Cinco respostas para acompanhar as eleições transalpinas

Ainda a recuperar da crise económica e em plena crise social, Itália arrisca-se a viver também uma crise política a partir deste domingo. O país vai a votos sem perspetivas de encontrar uma solução governativa estável. Em cinco pontos, conheça os protagonistas, os cenários e as consequências destas eleições.

Christopher Marques (texto), Sara Piteira (grafismo) - RTP /
Alessandro Bianchi - Reuters

Num país perdido no debate sobre a segurança e imigração, proliferam os cenários, sem soluções de futuro à vista. Os italianos vão este domingo a votos, dia em que os resultados serão conhecidos. A solução que governará Itália poderá demorar mais tempo a cozinhar.

Em cinco questões, explicamos o essencial das eleições italianas. Quem está em jogo, como funcionam e mostramos o quão complexo se tornou o tabuleiro político transalpino.
Quais são os principais partidos?
O eleitorado italiano apresenta-se fragmentado em três grandes polos. O Movimento Cinco Estrelas apresenta-se como o partido mais votado nas sondagens. Foi fundado em 2009 pelo comediante Beppe Grillo em defesa da democracia direta, da proteção do ambiente e do combate à corrupção. Tem um discurso anti-euro que tem vindo a moderar nos últimos anos. É agora liderado por Luigi di Maio, um jovem político de 31 anos.

O Partido Democrático surge em segundo lugar. Este partido de centro-esquerda é agora novamente liderado por Matteo Renzi, jovem político que liderou Itália entre 2014 e 2016. Saiu do Executivo depois de os italianos terem chumbado em referendo a sua reforma constitucional.

À direita, o Força Itália aparece como partido com maiores intenções de voto. É o movimento político criado por Sílvio Berlusconi, magnata dos media que já chegou por três vezes à presidência do Governo transalpino.

Apesar de ser a figura central do partido, Berlusconi está impedido de exercer cargos públicos, pelo que não poderá ser primeiro-ministro. O magnata italiano foi condenado em 2013 por fraude fiscal. Escolheu António Tajani, atual presidente do Parlamento Europeu, para chefiar um eventual Governo conservador.



O Força Itália fechou já uma coligação pré-eleitoral com os radicais de direita da Liga do Norte, agora rebatizada Liga. A Liga é um partido eurocético e anti-imigração que defendeu que Itália adote um modelo federalista. A sua agenda política é agora muito próxima da adotada pela Frente Nacional em França.

Abaixo dos dez por cento das intenções de voto encontram-se dois outros partidos que poderão ter relevância no futuro político de Itália. Os Irmãos de Itália são um movimento de extrema-direita, considerados os herdeiros políticos dos neofascistas do Movimento Social Italiano. O partido Livres e Iguais aparece com seis por cento nas sondagens. É um movimento de esquerda criado por dissidentes do Partido Democrático de Matteo Renzi.

A força política fundada pelo comediante Beppe Grillo em 2009 mantém a trajetória de crescimento, depois de ter conseguido 25 por cento nas legislativas de 2013. É agora liderada por Luigi di Maio, um jovem político de 31 anos.
O que dizem as sondagens?

A lei italiana impede que sejam divulgadas sondagens nas últimas duas semanas antes do ato eleitoral. Os últimos números divulgados confirmam que o eleitorado italiano se encontra fortemente dividido em três polos: Movimento Cinco Estrelas, centro-direita e centro-esquerda. As estatísticas projetam que nenhum partido consiga a maioria absoluta nas duas câmaras do Parlamento italiano.

Os números permitem assim duas leituras: por partidos e por blocos. O Movimento Cinco Estrelas surge como partido mais votado, seguido do Partido Democrático e do Força Itália.

O partido de Berlusconi fechou já uma coligação pré-eleitoral com dois partidos de extrema-direita: a Liga e os Irmãos de Itália. Esta aliança de direita congrega 37 por cento dos votos, número que deverá ser insuficiente para conseguir a maioria dos lugares no Parlamento.


Que possível desfecho?
Os números revelados pelas sondagens deixam pouca margem para apostar no futuro político de Itália. As próprias sondagens são falíveis, até porque a lei eleitoral mudou e o sistema é altamente complexo.

O que predominam são cenários. Matematicamente falando, uma solução simples seria a coligação de direita conseguir a maioria de deputados e senadores. Itália teria um executivo apoiado pelo Força Itália de Berlusconi e por movimentos de extrema-direita como a Liga Norte e os Irmãos de Itália.

O cenário não é novo e o próprio Berlusconi já liderou uma solução semelhante. No entanto, os extremistas têm agora maior peso eleitoral e não é de excluir que a Liga Norte possa ter mais votos que a Força Itália. No caso de ser o maior partido da coligação, Matteo Salvini já disse que quer ser o primeiro-ministro.

Na política de alianças, uma coligação entre o Partido Democrático de Matteo Renzi e a Força Itália de Sílvio Berlusconi aparece também com hipótese. Isto se os dois partidos conseguirem juntos a maioria dos deputados, cenário que as sondagens não preveem. Seria o equivalente ao “bloco central” português e à grande coligação da Alemanha.



Apesar de ter fechado uma coligação pré-eleitoral com a extrema-direita, o professor da Universidade Nova de Lisboa Marco Lisi acredita que Berlusconi tem mantido abertura para uma eventual parceria com Renzi. “Tem mantido aberto as duas hipóteses. Tem tido flexibilidade, mesmo a nível programático. Há uma certa ambiguidade para se estar disponível para qualquer eventualidade”, afirma.

No tabuleiro político italiano há ainda lugar para a antítese da grande coligação. Uma aliança entre movimentos populistas que se opõem à construção europeia: um Governo apoiado pelo Movimento Cinco Estrelas e por forças de extrema-direita como a Liga Norte e os Irmãos de Itália. Um cenário possível, admite Lisi, mas que “não será o mais plausível”.

“As posições antieuropeístas do Movimento Cinco Estrelas têm vindo a ser muito mais moderadas. É um euroceticismo mais soft”, assinala o investigador. Apesar do pé-atrás com que todos estes movimentos olham para a Europa, ostentam diferenças consideráveis entre si, dificultando esta aliança temida por Bruxelas.

Com um Parlamento fragmentado, um executivo minoritário que estabeleça acordos pontuais é uma forte possibilidade. O Chefe de Estado pode tentar um Governo de iniciativa presidencial e conduzir o país novamente para eleições.
Como funciona o sistema eleitoral?
O poder legislativo italiano reside num Parlamento dividido em duas câmaras, ambas com a mesma importância e função. Neste bicameralismo perfeito, uma maioria estável implica conquistar mais de metade dos lugares disponíveis quer na Câmara dos Deputados quer no Senado.

A lei eleitoral italiana não está inscrita na Constituição e tem sido alterada sucessivamente ao longo dos anos. A versão atual foi redigida em 2017 e resulta de um acordo entre o centro-direita e o centro-esquerda. O Movimento Cinco Estrelas votou contra e é, dizem os analistas, o principal prejudicado com este sistema.



A composição do Senado e da Câmara dos Deputados é escolhida numa eleição mista: 61 por cento dos parlamentares são eleitos pelo método proporcional e 37 por cento em círculos uninominais – círculos pequenos em que apenas uma pessoa é eleita.

“É uma lei que premeia as coligações e o Movimento Cinco Estrelas não coliga”, recorda o politólogo italiano Goffredo Adinolfi. Os círculos uninominais beneficiam os partidos tradicionais, que têm forte implantação regional, como é o caso do centro-esquerda e do centro-direita.
Que temas dominam a campanha?
A segurança tornou-se precisamente o tema central de uma campanha feita mais de casos do que de temas de futuro. A xenofobia e a imigração entraram de rompante ainda a campanha eleitoral não tinha oficialmente começado com o atentado de Macerata.

A 2 de fevereiro de 2018, um homem de cabeça rapada e que fora candidato autárquico da Liga Norte disparou a matar sobre transeuntes de origem africana. O ataque aconteceu dias depois de uma italiana ter sido assassinada por um requerente de asilo.

A campanha italiana fica ainda marcada por temas como a moralização da vida política e a regeneração da classe. A economia, de um país que ainda tenta recuperar da crise, não marca a corrida eleitoral.
Que consequências para a União?
Em 2017, Roma celebrou os 60 anos do tratado de Roma. Em 2018, o legado da capital italiana para o projeto europeu pode ser bem mais sombrio. As sondagens mostram que as forças populistas e eurocéticas continuam a crescer.

Os números confirmam a diminuição do apoio à União Europeia dos italianos, para o qual contribui a crise económica mas também a gestão comunitária da crise dos refugiados. A especialista em Assuntos Europeus Isabel Meirelles traça um quadro negro para o caso de as forças populistas chegarem ao poder.



“Pode, no limite, haver um referendo que pergunte aos italianos, tal como aconteceu no Reino Unido, se querem permanecer na União Europeia ou nem tanto”, avisa. A especialista, que é agora vice-presidente do PSD, considera que a vitória do Partido Democrático seria o melhor cenário para o projeto europeu.

Apesar de não ser a Alemanha ou a França, Itália apresenta-se como um dos pilares do projeto europeu. A República Italiana é um dos países fundadores da União Europeia, a sua quarta maior economia e um dos contribuintes líquidos do Orçamento comunitário.
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