Kremlin à procura de culpados após atentado no aeroporto de Domodedovo

O Kremlin defendeu hoje a adoção, na Rússia, de um sistema de segurança baseado nos modelos de Israel e dos Estados Unidos, depois do atentado da véspera no maior aeroporto de Moscovo. Em busca de responsáveis pela carnificina de Domodedovo, Dmitri Medvedev apontou culpas à administração daquela infraestrutura, abriu caminho a demissões no Ministério do Interior e prometeu a “eliminação” de terroristas.

RTP /
A capital da Rússia observa na quarta-feira um dia de luto pelas vítimas do atentado no aeroporto internacional de Domodedovo Sergei Chirikov, EPA

Introduzir as regras de vigilância de Israel e dos Estados Unidos nos sistemas de transportes da Rússia é agora uma das prioridades da Presidência de Dmitri Medvedev. Depois do atentado de segunda-feira no aeroporto de Domodedovo, que teve um saldo sangrento de 35 mortos e mais de uma centena de feridos, dos quais 43 em estado grave, o Kremlin afiança ao mundo que a ameaça do terrorismo é mais aguda na Rússia do que nos Estados Unidos. E continua a ser “a principal ameaça à segurança do Estado”. Foi com base nestas razões que o Presidente russo instruiu o Serviço Federal da Segurança (FSB), herdeiro do KGB, a dar “máxima atenção” a potenciais planos de ataques por parte de movimentos extremistas.

No imediato, o punho de ferro do Kremlin pende sobre a administração do maior aeroporto da capital russa, que, só no ano de 2010, movimentou 22 milhões de passageiros. As autoridades acreditam que o engenho detonado na área de chegadas internacionais comportava o equivalente a sete quilos de TNT. O sistema de vigilância, concluíram as investigações preliminares, “não foi o adequado”. Medvedev foi célere a criticar a gestão aeroportuária: “Alguém teria de se esforçar muito por carregar ou fazer passar uma quantidade tão vasta de explosivos. Aqueles que ali tomam decisões e a própria administração do aeroporto têm de responder por isto”.

A resposta dos responsáveis pelo aeroporto não tardou. A porta-voz Yelena Galanova afirmou que foram respeitados “todos os requisitos na esfera da segurança”: “Somos um aeroporto, lidamos com transportes aéreos e somos responsáveis pela segurança dos transportes aéreos. Todos os requisitos existentes foram cumpridos e agimos de acordo com a atual legislação”.

“Castigo”

O apuramento de responsabilidades está a cargo da Procuradoria-Geral, que já tem em marcha um inquérito por alegada violação de regras de segurança no aeroporto. Contudo, o Presidente não estará disposto a condicionar a distribuição de responsabilidades políticas e administrativas ao desfecho das investigações. Da Presidência saíram já diretivas para o Ministério do Interior – Medvedev quer uma lista de nomes a demitir e de cargos a redistribuir.

À medida que se avolumam as críticas da Oposição, diante da incapacidade das forças de segurança para travar ataques terroristas com o de Domodedovo, o poder político russo desdobra-se em promessas de punição. Enquanto Dmitri Medvedev condenava em público a aparente “anarquia” que se viveu no aeroporto, nas horas que se seguiram à explosão, o primeiro-ministro, Vladimir Putin, considerava “inevitável” o “castigo” dos autores morais do ataque.

Nas ruas de Moscovo, o reforço das medidas de segurança é visível. Dos 20 mil efetivos policiais destacados nas últimas horas para o patrulhamento da capital, oito mil têm como única missão vigiar as redes de transportes públicos, nomeadamente o metropolitano. Foi na estação de metro de Lubianka, nas imediações do quartel-general do FSB, que, em Março do ano passado, atentados suicidas reivindicados por rebeldes do Daguestão, no Cáucaso do Norte, mataram quatro dezenas de pessoas.

Indícios prévios
Uma vez mais, é sobre os grupos de extremistas islâmicos de repúblicas do Cáucaso do Norte – Chechénia, Daguestão e Inguchétia - que recaem as suspeitas das autoridades russas. De acordo com uma fonte dos serviços de segurança, citada pela agência RIA Novosti, a bomba terá sido acionada por uma militante suicida com a assistência de “um homem”, cuja “cabeça foi arrancada pela explosão”. Uma outra fonte policial adiantara, na segunda-feira, que as autoridades haviam encontrado, no terminal atingido pela detonação, a cabeça do presumível autor do atentado, “um homem de aspeto árabe com 30 a 35 anos de idade”.

Ainda segundo a RIA Novosti, as autoridades russas teriam recolhido indícios, há cerca de uma semana, de que um dos aeroportos de Moscovo poderia ser atingido por um “ato terrorista”. Esta não é a primeira vez que Domodedovo surge no mapa do terrorismo: em Agosto de 2004, duas mulheres originárias do Cáucaso fizeram explodir um par de aviões pouco depois de terem descolado do principal aeroporto de Moscovo, causando as mortes de 90 pessoas.

Entretanto, a Interpol colocou “todos os meios de investigação” à disposição das autoridades russas. Em comunicado, o secretário-geral daquela estrutura, Richard K. Noble, garantiu que “o gabinete de Moscovo e todas as forças da ordem russas podem contar com o total apoio da Interpol para levar os responsáveis à justiça”. Dada a existência de pelo menos oito cidadãos estrangeiros entre as vítimas mortais, a Interpol disponibilizou-se para montar uma célula de crise no terreno com especialistas em identificação de cadáveres.
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