"La Tigresa", a mulher que agora lidera a Venezuela

Delcy Rodríguez é apelidada de "tigresa" por Nicolás Maduro, que a considera "uma das vozes mais influentes" do regime de Hugo Chávez.

RTP /
Foto: Marcelo Garcia - AFP

Delcy Eloína Rodríguez Gómez, de 56 anos, tornou-se nos últimos dias a figura central do poder na Venezuela. Não chegou ao cargo por eleição popular, mas pela sucessão prevista na Constituição e pela confiança de Nicolás Maduro, de quem foi vice-presidente desde 2018 até à sua captura pelos Estados Unidos. A sua ascensão à presidência interina acontece num dos momentos mais voláteis da história da Venezuela.


Nascida em Caracas, cresceu num ambiente onde a política não era uma opção, mas um destino. É filha de Jorge António Rodríguez, dirigente do movimento de Esquerda Revolucionária e fundador da Liga Socialista na década de 1970, que ganhou notoriedade ao participar no sequestro de um empresário norte-americano e que acabou por morrer sob tortura em 1976. A figura do pai passou a ser evocada dentro do chavismo- ideologia política surgida na Venezuela em torno do culto à figura do ex-presidente Hugo Chávez, que governou entre 1999 e 2013- como um "mártir da esquerda". Delcy Rodriguez tinha apenas sete anos quando perdeu o pai.


A história do pai tornou-se uma herança que moldou os percursos de Rodriguez e do irmão, Jorge Rodríguez, hoje presidente da Assembleia Nacional da Venezuela e o seu aliado político mais próximo.


Do chavismo à fidelidade a Maduro

Formada em Direito pela Universidade Central da Venezuela, a atual presidente interina da Venezuela, aprofundou estudos em Paris e Londres, especializando-se em direito laboral e sindical. Antes de se tornar um rosto conhecido na política, foi professora universitária e esteve ligada a associações de juristas, construindo uma base intelectual que marcaria o seu percurso político. Ocupa cargos no Governo venezuelano desde 2003, na gestão de Hugo Chavéz, e foi após a morte deste- em 2013- que Nicolas Maduro a convidou para integrar o seu Governo, primeiro como Ministra da Comunicação e Informação e, mais tarde, como Ministra das Relações Exteriores, tornando-se assim, na primeira mulher a ocupar esse cargo na história da Venezuela.


Ao longo de mais de uma década, ocupou cargos como Presidente da Assembleia Nacional Constituinte, em 2017, Vice-Presidente executiva em 2018, e, até à captura de Maduro, responsável por áreas estratégicas como o Petróleo, setor vital para a economia venezuelana.


Alguns observadores internacionais passaram a descrevê-la como "uma das vozes mais influentes do chavismo", conhecida pela defesa firme do regime dentro e fora do país. O próprio Maduro chamou-lhe, em público, uma "tigresa", elogiando a sua combatividade e lealdade ideológica.


No juramento na tomada de posse à presidência interina da Venezuela, falou "com dor pelo sofrimento causado ao povo venezuelano" e denunciou a captura do antigo presidente como uma "agressão militar ilegítima".


Pouco se sabe sobre a vida pessoal da atual presidente venezuelana. Segundo o jornal espanhol El Debate, Rodriguez nunca se casou nem teve filhos. Esteve associada ao ator Fernando Carrillo nos anos 1990 e, mais recentemente, mantém uma relação com Yussef Abou Nassif, um empresário de origem libanesa, 16 ano mais novo.


A reserva da sua vida privada contrasta com um traço evidente: o gosto pela moda e pela imagem. Óculos grossos, roupas cuidadas e malas de marcas de luxo tornaram-se parte da sua assinatura visual. A imprensa internacional descreve-a como alguém que não abdica da estética, mesmo em cenários de crise- um detalhe que, para críticos, simboliza contradição, e para apoiantes, afirmação num universo político dominado por homens.


"As máscaras caíram"

No âmbito da política, Rodriguez combina linha-dura e pragmatismo. Foi uma das vozes mais firmes contra os Estados Unidos, acusando Washington de querer controlar os recursos naturais da Venezuela. " As máscaras caíram", afirmou após a captura de Maduro. Pouco depois, ajustou o tom e falou numa possível "agenda de cooperação orientada para o desenvolvimento", sinalizando abertura ao diálogo. Ao longo dos últimos anos, manteve contatos com grandes empresas energéticas e com potências como a China, Rússia e Turquia, revelando uma capacidade de adaptação que vai além da retórica revolucionária.


Atualmente, na posição de primeira mulher a liderar a Venezuela- ainda que de forma interina- Delcy Rodríguez governa sob enorme pressão interna e externa. Ao seu lado, o irmão controla o Parlamento; à sua frente, um país exausto, polarizado e observado de perto pelas grandes potências. O futuro mostra-se incerto e dependerá tanto da fidelidade das Forças Armadas como da sua capacidade de negociar num tabuleiro internacional hostil.

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