Leão XIV aplaude multilateralismo e pede à Europa para ver "complexidade" como bênção

Leão XIV aplaude multilateralismo e pede à Europa para ver "complexidade" como bênção

O Papa apelou hoje à Europa para abandonar discursos polarizadores com "simplificações estéreis" e a reconhecer "a complexidade" como uma bênção, num discurso em Madrid em que agradeceu a Espanha "a fidelidade ao direito internacional e ao multilateralismo".

Lusa /
Reuters

"Expresso o meu agradecimento ao vosso país pela fidelidade ao direito internacional e ao multilateralismo, que se traduz num compromisso ativo com a paz e a solidariedade entre os povos", disse Leão XIV, em castelhano, no primeiro discurso da visita de sete dias a Espanha, que começou hoje.

O Papa, que falava no Palácio Real de Madrid e se dirigia às máximas autoridades espanholas, referiu-se várias vezes à polarização que existe hoje em Espanha e no mundo e pediu para ser também cultivado "o diálogo e a amizade social", "a serem harmonizadas as reivindicações de autonomia e de unidade" e "ser impulsionado o processo de união europeia, não em oposição a outras potências, mas como um dom para toda a família humana".

"Convido todos, por amor à verdade, a abandonar as narrativas divisórias e polarizadoras da vossa realidade social e da história, para passar das simplificações estéreis à apreciação fecunda da complexidade. Vejo aqui uma vocação específica da Europa, de que Espanha é protagonista original e fundamental. É o presente que o Velho Continente pode fazer ao mundo se quer permanecer jovem, porque jovem é quem sente que tem um futuro e uma missão que ainda interpelam", afirmou.

Sem nunca referir em concreto a imigração, o Papa pediu por diversas vezes mais educação e diálogo, assim como novos discursos, para "apreciar e estudar a complexidade, aprender a não negá-la e a vivê-la como uma bênção, fugir das abordagens identitárias que parecem esclarecer tudo, mas que povoam o mundo de fantasmas e inimigos".

O Papa referiu-se também às novas tecnologias, que "se transformaram num contexto artificial" onde os "preconceitos se exacerbam, o pensamento crítico se enfraquece, os interesses prepotentes semeiam pulsões de morte".

Mas "o bem pode resistir e ser comunicado", defendeu o Papa, que pediu mais investimentos ao poderes públicos em educação, sublinhando a ilusão frequente de se considerar que a segurança "vem das armas e dos muros", quando "amadurece melhor" se resultar da aprendizagem de "avançar ao lado do outro, de crescer em conjunto, de braço dado".

A este propósito, Leão XIV lembrou a história da Península Ibérica e a presença do Islão ao longo de séculos, num momento que "constituiu uma realidade política, cultural e religiosa de longa duração" em que "não houve só confronto, mas se tentou criar um espaço de contacto, conversação e diálogo sobre o sentido da verdade entre cristãos, muçulmanos e judeus", com cidades como Córdoba ou Toledo a serem "lugares de mediação entre línguas, religiões e saberes".

"Hoje, a tentação de ganhar popularidade avivando o fogo das polarizações parece crescer, em vez de diminuir; a dignidade humana não deixa de ser violada. Por isso, precisamos de cultura, interioridade, uma educação livre e de qualidade, precisamos de transcendência", acrescentou.

O Papa defendeu também que "a mensagem de paz" é hoje "para alguns" ingénua ou provocadora, o que atribuiu a "ideologias pré-fabricadas, que não se abrem à verdade", insistindo por diversas vezes na necessidade de mais educação e diálogo.

Leão XIV iniciou hoje em Madrid uma viagem de sete dias a Espanha com uma agenda que inclui um discurso inédito no parlamento nacional e tem a imigração no centro das atenções.

Além de Madrid, a visita do Papa a Espanha inclui passagens por Barcelona e pelas Canárias, onde Leão XIV vai concretizar o desejo do antecessor Francisco de ir a estas ilhas, que lidam diariamente com a chegada de migrantes em embarcações precárias oriundas de África, conhecidas como `pateras` ou `cayucos`.

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