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Marcelo alerta para unilateralismo como "multiplicador de riscos"
O chefe de Estado português defendeu o papel das organizações internacionais em vez das "visões de curto prazo" veiculadas pelo patriotismo e unilateralismo. Em contraste com a posição defendida pelo Presidente norte-americano naquele mesmo púlpito na última terça-feira, mas sem referir quaisquer nomes, o chefe de Estado criticou a "tentação unilateralista" e o desinvestimento nas organizações internacionais, fatores que poderão conduzir à "repetição dos erros de há quase 100 anos".
Num discurso de cerca de 15 minutos proferido na 73ª Assembleia Geral das Nações Unidas, o Presidente português mostrou-se alinhado com a posição e as palavras proferidas pelo secretário-geral, António Guterres, elogiando o dirigente pelo “lúcido, dinâmico e excecional” mandato à frente da ONU.
Nesse âmbito, o chefe de Estado considerou que a organização é fundamental e que as derivas patrióticas são um caminho errado e de curto prazo. “Não compreendemos a tentação unilateralista, bem como o desinvestimento nas organizações internacionais”, apontou,
Marcelo Rebelo de Sousa considera que este tipo de posicionamento “representa uma falta de visão política” como “uma forma de multiplicar riscos” que se arrisca “a repetir os erros de há quase 100 anos”.
“Há duas visões diferentes: uma de curto prazo que é unilateralista, protecionista, com um discurso eleitoralista interno que minimiza o multilateralismo”, disse ainda o Presidente.
Esta visão “nega as alterações climáticas” e “os pactos globais dos refugados”, estando apenas atenta “ao que lhe interessa”, considerou.
Por oposição, está uma visão “multilateral, aberta, favorável a uma crescente governação global”.
“Esta visão vencerá, como venceu na União Europeia”, que deu há Europa “o mais longo período de paz”, frisou Marcelo Rebelo de Sousa.
“Esta visão vencerá, como venceu na União Europeia”, que deu há Europa “o mais longo período de paz”, frisou Marcelo Rebelo de Sousa.
O discurso, que iníciou em português e terminou em inglês, começou pouco depois das 18h00 locais (23h00 em Lisboa), e serviu para o Presidente português lembrar as palavras ontem proferidas pelo secretário-geral: "O verdadeiro patriotismo é o que se completa com o cosmopolitismo. A ação multilateral, diálogo político e consenso diplomático são o único caminho possível", apontou.
O Presidente da República referiu-se também em particular ao combate às alterações climáticas, considerando que "é uma justíssima luta do secretário-geral" porque é "uma justíssima luta de todos".
"Para nós, uma questão estrutural, em que não mudamos com modas e protagonistas de curto prazo", afirmou.
"Para nós, uma questão estrutural, em que não mudamos com modas e protagonistas de curto prazo", afirmou.
As palavras de Marcelo corresponderam à posição assumida logo na
terça-feira, quando o chefe de Estado português reconheceu que não aplaudiu o discurso de Donald
Trump naquela assembleia, demarcando-se da posição isolacionista assumida pelo homólogo norte-americano.
Reforma do Conselho de Segurança
Marcelo Rebelo de Sousa apontou ainda como "questões estruturais" para Portugal a reforma das Nações Unidas, nomeadamente do Conselho de Segurança. Propôs, em particular, a inclusão do Brasil, da Índia, e de um país africano neste órgão de extrema relevância no seio da ONU.
"Manter a situação atual é uma forma de esvaziar o multilateralismo, multiplicar riscos, conflitos, subdesenvolvimento e violação dos direitos humanos e da dignidade humana", considerou.
Apelou ao respeito pelo pacto global para as migrações e para os refugiados. "Portugal apoia sem reservas estes pactos. Recebe e continuará a receber migrantes, refugiados e outros deslocados", frisou o Presidente da República. Nesse sentido, elogiou a Plataforma Global de Assistência Académica de Emergência a Estudantes Sírios, criada pelo ex-Presidente Jorge Sampaio.
Marcelo lembrou também a participação de Portugal em várias operações de prevenção de conflitos e manutenção de paz e também nos contributos no combate ao terrorismo. Defendeu o papel do Tribunal Penal Internacional, ao contrário do Presidente norte-americano, que ontem disse tratar-se de um órgão “sem legitimidade e autoridade".
No discurso esteve uma referência ao envolvimento de Portugal na preparação da conferência dos oceanos das Nações Unidas e ainda as várias questões atuais que preocupam Portugal.
Saudou os recentes acordos entre Timor-Leste e a Austrália, o reforço da CPLP e da União Africana e ainda os esforços para a desnuclearização da Península Coreana, elogiando o "empenho e coragem das partes envolvidas" e a importância do "papel da diplomacia para a paz e segurança mundiais".
Recordou, no entanto, a "permanente instabilidade económica e social" vivida no Médio Oriente e Magrebe, sobretudo as situações dramáticas na Síria e no Iémen, apelando ainda à resolução e ao "bom senso" no conflito israelo-palestiniano, com a retoma do processo negocial para a "solução viável assente na coexistência em paz e em segurança" dos dois Estados.
A grande ausência no discurso de Marcelo Rebelo de Sousa foi mesmo a questão venezuelana. Com Nicolás Maduro na plateia a ouvir atentamente, o Presidente português optou por não referir a situação social e económica vivida em Caracas, no mesmo dia em que foi anunciada a libertação de 13 portugueses e lusodescendentes gerentes de supermercados, que se encontravam detidos há vários dias, depois de terem sido acusados de boicotes e violação de preços.