Ministra da Educação da Finlândia. "Professores são segredo do modelo de educação"

Em permanência nos lugares cimeiros dos testes PISA, a Finlândia é apresentada como um modelo a seguir em matéria de ensino. Em entrevista à RTP, a ministra finlandesa da Educação aponta os professores como chave do sucesso finlandês e defende a aposta na formação de docentes. Sanni Grahn-Laasonen louva a autonomia escolar e insiste que a motivação dos alunos está relacionada com o sucesso escolar. Assume por isso o objetivo de tornar a escola "mais divertida" e sublinha que aprender passa também por deixar as crianças brincar e fazerem parte de um grupo.

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O sucesso da educação finlandesa está associado a um sistema de ensino inteiramente gratuito, onde a escolaridade obrigatória só começa aos sete anos e as crianças passam menos tempo na escola do que em Portugal. Os trabalhos de casa são quase inexistentes e não há exames nacionais. Os professores têm autonomia para definir os recursos utilizados e não são avaliados. Todos têm mestrado, formação específica e são muitos os que não conseguem entrar nos cursos que abrem as portas à docência.

A qualidade do ensino finlandês é sublinhada nos testes de avaliação internacional PISA: desde o seu surgimento, em 2000, que a Finlândia se mantém nos lugares cimeiros. Apesar da reputação internacional do modelo finlandês, Helsínquia avançou com uma reforma educativa. O objetivo é adaptar o ensino ao século XXI, tirando proveito das novas tecnologias e privilegiando as competências em detrimento das matérias.

Desde 2015, Sanni Grahn-Laasonen é o rosto da política de educação da Finlândia. Antes de liderar este ministério, Saani Grahn-Laasonen foi ministra do Ambiente e jornalista ao serviço do tabloide finlandês Iltalehti. É também vice-presidente do Partido da Coligação Nacional, movimento liberal-conservador filiado no Partido Popular Europeu que integra o atual Executivo finlandês.“Escola Cá e Lá”. Veja a reportagem do Linha da Frente que compara o ensino em Portugal e na Finlândia

Em entrevista à RTP, Sanni Grahn-Laasonen considera que os professores são o principal segredo do modelo finlandês e sublinha o respeito e a confiança que a sociedade deposita numa classe docente muito bem preparada.

Sanni Grahn-Laasonen considera que a formação de professores é fundamental para o sucesso de qualquer modelo educativo.

A governante mostra-se satisfeita com os resultados de Helsínquia nos testes PISA mas garante que este não é o seu grande objetivo. “Queremos olhar para o mundo e para o futuro e perceber como podemos preparar as nossas crianças e jovens para o mercado do trabalho de amanhã”, insiste.

Na missão de formar os adultos de amanhã, Helsínquia quer também apostar no pré-escolar, promovendo a aprendizagem mas respeitando a infância de cada criança. “A aprendizagem passa também por brincar, divertirem-se e fazerem parte de um grupo”, explica. Confiante que alunos motivados ficam mais perto do sucesso escolar, Sanni Grahn-Laasonen quer trabalhar por uma “escola mais divertida”.



RTP: Qual o segredo do modelo educativo finlandês?

Sanni Grahn-Laasonen:
Se tivesse que referir apenas um segredo do modelo de educação finlandês, diria que são os professores. Os professores finlandeses são muito respeitados pela sociedade finlandesa, estão muito motivados e bem formados, inclusive com mestrado. Damos-lhe uma grande autonomia pedagógica.

Como temos visto, o facto de termos professores com independência, tão motivados e bem formados e em quem podemos confiar traz ótimos resultados. Toda a sociedade finlandesa acredita na educação e confia nos professores.

Não há qualquer sistema de avaliação de professores. Vocês acreditam neles pela formação que lhes deram antes?


Sim. Não há exames estandardizados no sistema de ensino finlandês. Não queremos ter esse tipo de controlo feito pelo Governo ou pelo ministério. Os nossos professores são profissionais, escolhem os seus próprios materiais pedagógicos e sabemos que escolhem os melhores métodos. Este modelo tem dado muito bons resultados, como temos visto, por exemplo, nos testes PISA.

Apesar dos bons resultados avançaram recentemente com uma reforma do currículo. Quais as principais diferenças?

O mundo está a mudar muito rapidamente, o que significa que também nós temos de desenvolver a educação e trazer ideias novas. Há uma grande relação entre investigação e o desenvolvimento da educação na Finlândia.

Com este currículo que estamos agora a implementar, queremos evidenciar não só o conhecimento mas também as competências futuras que serão necessárias. Por exemplo, usamos um modelo de ensino que se baseia no “acontecimento”. Não sei se esta é a palavra mais adequada para descrever este modelo mas o que queremos é que haja uma grande cooperação entre professores e diferentes disciplinas. Colocamos um acontecimento no centro e depois analisamo-lo através de diferentes perspetivas e disciplinas.

Além disto, trabalhamos as competências de que os alunos precisarão no futuro como o espírito crítico, as competências sociais e a comunicação.

Esta reforma curricular gera consenso na sociedade e entre partidos políticos ou é expectável que, no futuro, estas mudanças sejam revertidas?

Na Finlândia, toda a sociedade valoriza a educação. Quando desenvolvemos a educação, os profissionais, professores e investigadores estão no centro do debate. Não são os políticos. Nós, políticos, não mexemos nos currículos. São feitos por profissionais, nomeadamente professores. Damos depois uma grande autonomia aos professores e às escolas para escolherem como e quando ensinam e os materiais que utilizam.

Regem-se pelo princípio que deve haver a mínima intervenção da política na educação?

Sim. É claro que a legislação vem do ministério e do Governo. Mas, depois disto, os municípios é que são responsáveis por organizar as escolas e a educação. Os professores têm um papel muito importante.

Em Portugal estamos também a debater a autonomia das escolas. Por onde devemos começar para dar mais autonomia às escolas?


Nunca me sinto muito confortável para dar conselhos a outros países porque acredito que as decisões devem ser tomadas pelos próprios países. O que digo sempre é que é muito importante que a formação de professores seja de grande qualidade. Se a formação for boa, os próprios professores podem tomar as decisões e serem responsáveis pela aprendizagem.

Apesar da grande qualidade do ensino finlandês, o que ainda precisa de ser melhorado?

Atualmente, temos este novo currículo que ainda estamos a implementar. Estamos também a investir novamente na educação de professores. Há ainda várias reformas em curso, nomeadamente no ensino secundário e no ensino vocacional. Estamos também a trabalhar nos primeiros anos de escolaridade. É muito importante porque é o começo de tudo, onde se transmitem as bases.

Tem ideias concretas de medidas que quer implementar?

Sim. Por exemplo, estamos a aumentar a participação nos primeiros anos de escolaridade e a desenvolver um método pedagógico para a educação pré-escolar. Temos um sistema para o pré-escolar a que chamamos Educare, que é uma combinação entre educação (Edu) e cuidado/carinho (care).

Queremos estar muito centrados na criança e respeitar a sua infância. A aprendizagem passa também por brincar, divertirem-se e fazerem parte de um grupo.

Apesar de serem apontados como exemplo a nível mundial, têm descido ligeiramente nos resultados dos testes PISA. É algo que a preocupa?

É claro que me preocupa mas esta é também uma tendência em muitos países ocidentais. Por agora estamos a avançar com o novo currículo e quero ver as nossas crianças mais motivadas e a perceberem o quão importante para o seu futuro é aprender. Há uma forte relação entre motivação e bons resultados educativos e é por isso que temos de nos focar em tornar a escola mais divertida.

Para a Finlândia é muito importante ter bons resultados no PISA ou este é um mero resultado da política seguida?

É claro que é bom quando percebemos que o nosso sistema educativo funciona muito bem e nos dá bons resultados nos testes PISA. Mas não é algo em que estamos muito focados. Não estamos a treinar as nossas crianças para o PISA. Nunca gostei desta ideia.

Queremos olhar para o mundo e para o futuro e perceber como podemos preparar as nossas crianças e jovens para o mercado do trabalho de amanhã. Não estamos a trabalhar para os resultados do PISA, mas é claro que ficamos contentes pelo facto de a Finlândia continuar a ter resultados tão bons.

Na União Europeia falamos muito de economia, segurança, defesa mas não falamos tanto de educação. O que pode ser feito a nível europeu para melhorar a educação?


Talvez devêssemos falar mais sobre educação no âmbito da cooperação europeia. Acredito que este é um bom momento para falarmos do futuro da União Europeia e acho que é muito importante para a nossa competitividade que haja investimento em educação, como por exemplo nos programas Erasmus Mais e Horizon, que nos deram tanto valor acrescentado. Devemos investir nestes domínios: intercâmbio de estudantes, investigação, ciência e inovação.

Deveríamos trabalhar para tornar os sistemas educativos europeus mais semelhantes entre si ou deixar cada país ter as suas especificidades?

Devemos deixar que cada país tenha o seu modelo educativo. Mas podemos aumentar a cooperação, partilhar ideias e investir nos mecanismos de cooperação que já existem como o intercâmbio de estudantes e programas de investigação conjuntos. Devemos continuar isto e talvez aprofundar esta cooperação no futuro.

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