Mordomo do Papa e cúmplice vão ser julgados pelo roubo de documentos

Paolo Gabriele, detido em maio passado por suspeita de estar na origem da maior fuga de documentos do Vaticano até à data, vai ser julgado por "roubo agravado". A decisão foi do juiz instrutor do Tribunal do Estado do Vaticano, Piero Antonio Bonnet. O porta-voz da Santa Sé, padre Federico Lombardi, revelou ainda hoje, pela primeira vez, a existência de um cúmplice que vai ser igualmente julgado, um leigo especialista em informática. Lombardi afirmou ainda que o inquérito vai prosseguir "em relação a outras pessoas que parecem implicadas".

Graça Andrade Ramos, RTP /
Bento XVI abençoa os fiéis durante uma audiência em Castel Gandolfo - o Papa mostrou-se chocado e entristecido com a detenção de um dos seus homens de confiança Cladio Peri/EPA

Além de Gabriele foi revelado pela primeira vez o nome de um outro implicado no caso já conhecido por Vatikileaks.

Trata-se de Claudio Sciarpelletti, de 48 anos, um cidadão italiano, leigo e especialista informático, funcionário na Secretaria de Estado do Vaticano.

É acusado de "ter colaborado e favorecido o roubo agravado e a violação de sigilo". Lombardi disse que Sciarpelletti desempenhou um "papel marginal" e não pode ser verdadeiramente considerado um cúmplice.

Paolo Gabriele arrisca-se a cumprir até seis anos de prisão. O Vaticano disse que o julgamento não se realizará antes de outubro.

Os dois homens são até agora os únicos nomes conhecidos no caso Vatikileaks, que abalou a cúpula da Igreja Católica Romana durante os primeiros meses de 2012.
Vatikileaks
Entre janeiro e abril vários documentos privados do Papa, incluindo relatórios da Secretaria de Estado (o corpo diplomático) da Santa Sé, foram publicados na imprensa italiana.

Alguns dos documentos denunciavam acusações de corrupção ao mais alto nível na administração vaticana.

Duas investigações à fuga foram ordenadas pelo Santo Padre em março, tanto por parte do próprio Estado do Vaticano como da magistratura italiana e levaram à detenção de um dos principais responsáveis pela administração dos aposentos papais, um dos membros do círculo interno de Bento XVI e um dos colaboradores leigos mais próximos do Papa.

Paolo Gabriele, de 46 anos, foi detido a 23 de maio após terem sido descobertos vários documentos papais nos seus aposentos e da sua família no próprio Vaticano.

Gabriele é acusado de ter retirado estes documentos confidenciais do gabinete do seu superior hierárquico, o secretário pessoal do Papa, Georg Gänswein, de os ter copiado e entregue a um jornalista.
Ponta do icebergue
As 35 páginas das conclusões do inquérito preliminar ao caso foram hoje apresentadas pelo porta-voz da Santa Sé. O padre Federico Lombardi acrescentou que as investigações vão prosseguir, já que existem suspeitas sobre diversas outras pessoas implicadas na fuga dos documentos.

Lombardi citou o procurador Nicola Picardi, o qual sublinhou que a magistratura italiana "se deparou com uma realidade muito ampla e complexa".

"Nós não acreditamos que o nosso trabalho esteja concluído. A justiça prossegue o seu trabalho e o inquérito permanece aberto quanto a outras pessoas que parecem implicadas", afirmou Lombardi.
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