Movimentos anti-Islão e pró-integração medem forças na Alemanha

Movimentos anti-Islão e pró-integração medem forças na Alemanha

De um lado quase 30.000, do outro quase 100.000, de acordo com as autoridades. Em Dresden e em Leipzig, o movimento Pegida (patriotas europeus contra a islamização do Ocidente) conseguiu ontem um recorde de presenças nas suas marchas. A reação de repúdio ao Pegida, encabeçada pela chanceler Angela Merkel, juntou contudo quase 100.000 pessoas em várias cidades alemãs.

Graça Andrade Ramos, RTP /
A maior manifestação de sempre em Dresden contra a imigração e islamização da Alemanha juntou 25.000 pessoas segundo as autoridades e 30.000 a 40.000 de acordo com os organizadores. Fabrizio Bensch, Reuters

Os partidários de uma Alemanha aberta ao Islão têm ainda uma aliada de peso, a própria Angela Merkel. A chanceler reafirmou, como os seus antecessores, que "o Islão faz parte da Alemanha". Com 81 milhões de habitantes, a Alemanha possui uma comunidade de cerca de quatro milhões de muçulmanos, a maioria, três milhões, turcos ou de origem turca.

Merkel anunciou ainda que vai participar, ao lado do Presidente Joachim Gauck, numa comemoração silenciosa das organizações muçulmanas alemãs a partir das 17h00 GMT desta terça-feira em Berlim, na Porta de Brandeburgo.

Já no domingo, Angela Merkel esteve na primeira fila de um grupo de mais de 50 chefes de Estado e de Governo que participaram na marcha anti-terrorismo, em Paris, em reação aos atentados contra o jornal Charlie Hebdo e a polícia, que fizeram 17 mortos.
Cada vez mais
Para os fundadores do Pegida está em curso uma islamização da Alemanha, que rejeitam. Para eles, o Islão não é compatível com a democracia e consideram o multiculturalismo uma armadilha que coloca em risco a civilização ocidental. Querem por isso também restringir a imigração. Organizam as suas marchas através das redes sociais e não têm, para já, uma estrutura definida de liderança.

Desde outubro o Pegida manifestou-se 12 vezes em Dresden, sempre à segunda-feira. Eram 500 no primeiro desfile, 10.000 no início de dezembro, 18.000 há uma semana e pelo menos 25.000 ontem. Ontem também, pela primeira vez, manifestaram-se em Leipzig, onde juntaram dois a três mil partidários.Leipzig é, para a Alemanha, um símbolo de contestação. No fim da República Democrática Alemã, as manifestações na cidade, sob o lema "nós somos o povo", fizeram tremer o poder. Agora, o lema foi arrebatado pelo Pegida e as manifestações de segunda-feira rejeitam o que chamam a islamização da sociedade e os pedidos de asilo.

Também pela primeira vez desfilaram na segunda-feira em Oslo cerca de 200 pessoas, respondendo ao apelo de Pegida. Estão marcados os primeiros desfiles anti-islamização em Viena, em finais de janeiro, e na Suíça, a 16 de fevereiro. Foram também criadas páginas Facebook na Suécia.

O crescimento explosivo do Pegida levou os media e as autoridades alemãs a reagirem com repúdio.

Os pegidistas são acusados de ser nazis e racistas mas não se revêm nos epítetos. Assumem o seu patriotismo, mas a maioria afirma-se moderada e rejeita que sejam xenófobos.
"Fora Nazis!"
Em Desden, com um minuto de silêncio e bandas negras nos casacos, os manifestantes Pegida lembraram todas as vítimas dos extremismos, tanto as dos irmãos Kouachi em Paris, na semana passada, como as de Anders Breivik na Noruega, em 2011.

As autoridades dizem que eram 25.000, os organizadores 30.000 a 40.000. Alguns traziam cartazes "Je suis Charlie" outros "O Islão é cancerígeno", "Não ao Multiculturalismo" e até "Paz com a Rússia". Um manifestante de 70 anos disse disse à Agência France Presse que os ataques terroristas podem "suceder em qualquer lado".

Clamando "nós somos o povo", desfilaram pelas ruas da cidade, rodeados de um cordão policial e por gritos de "fora nazis!" lançados a coberto da noite. Atentos, os organizadores da marcha evitaram reações violentas de quem se sentia insultado, recomendando "deixem falar esses parvos". Uma centena de opositores tentou sentar-se na estrada para desviar o curso da manifestação mas a polícia interveio.

Manifestantes anti-Pegida em Dresden a 12 de janeiro de 2015, sob o olhar da polícia (foto: Reuters)

Quando uma das fundadoras do Pegida, Kathrin Oertel, pegou no microfone e contestou as críticas que o movimento tem recebido por parte da "casta política e dos media", perguntando "têm sentido que há liberdade de expressão?" obteve em resposta um enorme "não!" gritado por milhares de pessoas.
Pró-integração reagem
Em Dresden, a defesa de uma Alemanha aberta juntou 8.000 pessoas. Em Leipzig, pelo contrário, a manifestação de repúdio do Pegida juntou 30.000 pessoas, 10 vezes mais do que os anti-islamitas. Em Munique eram 20.000, 17.000 em Hanover, 9.000 em Sarrabruck e 4.000 em Berlim. Cidades onde o Pegida ainda não manifestou a sua presença."Iremos participar" na homenagem das comunidades muçulmanas aos mortos de Paris, anunciou Merkel, defendendo a "coabitação pacífica das diferentes religiões na Alemanha". "O Presidente Glauck vai fazer um breve discurso e eu também estarei presente como chanceler", revelou ao lado do seu homólogo turco, Ahmed Davutoglu, em Berlim.

No seu discurso de fim de ano, a chanceler apelou ainda os alemães a não participarem nas marchas no Pegida.

E o ministro da Justiça, Heiko Maas, mostrou-se no domingo firme contra a realização das marchas marcadas para segunda-feira, considerando-as "uma homenagem vergonhosa" às vítimas dos atentados de Paris. Numa entrevista ao jornal Bild, Maas apelava mesmo à anulação das manifestações, por uma questão de "decência".

Em Dresden, animado pela presença recorde de apoiantes após as palavras do ministro, um dos organizadores do movimento, Lutz Bachmann, felicitou os apoiantes e prometeu, num grito repetido pela multidão, "nós vamos regressar!".
PUB