Mueller demite-se sem nada a acrescentar a relatório

O procurador especial Robert Mueller veio a público, pela primeira vez em dois anos, para dizer em poucos minutos que nada tem a acrescentar ao relatório publicado em abril passado sobre a investigação à ingerência russa nas presidenciais norte-americanas de 2016, em alegado conluio com a equipa do atual Presidente dos Estados Unidos.

Graça Andrade Ramos - RTP /
O procurador especial Robert Mueller, que liderou a investigação à influência russa nas eleições americanas de 2016 e às ações do Presidente Trump nesse processo. Reuters

Numa audiência no Departamento de Justiça em Washington, Mueller leu uma declaração e não aceitou quaisquer perguntas. "Espero e tenho a expectativa de que esta seja a única ocasião em que eu me irei referir a este assunto. Esta decisão é minha", referiu.

"Para além do que disse hoje aqui e está incluído no nosso relatório escrito, não creio ser apropriado para mim falar mais sobre a investigação ou comentar as ações do Departamento da Justiça ou do Congresso", acrescentou.

João Ricardo de Vasconcelos, correspondente da RTP em Washington

"Qualquer testemunho deste gabinete não irá além do nosso relatório. Este contém todos os resultados e análises e as razões para as decisões que tomámos. Escolhemos estas palavras cuidadosamente e as palavras falam por elas mesmas", explicou o procurador especial.

"O relatório é o meu testemunho. Não darei qualquer informação além da que já foi tornada pública em qualquer audiência perante o Congresso", garantiu Mueller.

"Não falei publicamente durante a nossa investigação. Falo hoje porque a nossa investigação está concluída", acrescentou o procurador.

"Encerramos formalmente o Gabinete do Procurador Especial. Além disso, demito-me do Departamento da Justiça e regresso à vida privada".
Campanha russa
Repetindo as principais conclusões do relatório, Mueller manteve que a Rússia fez "esforços múltiplos e sistemáticos" para influenciar a eleição presidencial de 2016.

"Membros das forças de informação russas, integrados nas forças militares russas, lançaram um ataque concertado ao nosso sistema político", sustentou.

"A indiciação alega que usaram técnicas cibernéticas sofisticadas para entrar em computadores e redes usadas pela campanha Clinton. Roubaram informação privada, e divulgaram essa informação através de identidades falsas online e através da organização WikiLeaks", especificou.

"As publicações foram planeadas e calendarizadas para interferir com a nossa eleição e prejudicarem um candidato presidencial", acusou. "Houve múltiplos e sistemáticos esforços para interferir na nossa eleição. Essa alegação merece a atenção de cada americano", sublinhou.

A investigação não permitiu também "reunir provas suficientes" de um conluio ou "conspiração" entre Moscovo e a equipa de Trump.
Acusar o Presidente
Quanto às suspeitas de entrave à justiça que pesam sobre Donald Trump, a bola está agora no Congresso, referiu.

"Se tivéssemos a convicção de que o Presidente não tinha claramente cometido delito algum, teríamos dito", garantiu Mueller, que liderou durante 22 meses o inquérito.

"Contudo, não conseguimos determinar se o Presidente cometeu realmente um crime", remetendo para o segundo volume do relatório a explicação da decisão de não indiciar Trump.

"Um Presidente não pode ser investigado judicialmente por uma infração federal enquanto em funções. É inconstitucional", lembrou Mueller.

"A Constituição prevê processos externos ao sistema judicial para acusar um Presidente em exercício", acrescentou, referindo-se ao procedimento de destituição instaurado pelo Congresso - o processo de impeachment.
Trump aplaude
O Presidente reagiu de imediato na rede Twitter.
"Nada mudou no que diz respeito ao relatório Mueller. Não havia provas suficientes e neste caso, no nosso país, uma pessoa é inocente".

"O assunto está encerrado! Obrigado", escreveu Trump.

"Cabe ao Congresso responder aos delitos e mentiras e outras transgressões do Presidente Trump e vamos fazê-lo", prometeu entretanto o deputado democrata Jerry Nadler, presidente da comissão judiciária da Câmara dos Representantes.

Os democratas no Congresso exigiram já o acesso integral ao relatório Mueller e convocaram testemunhas-chave. Devido à sua maioria na Câmara dos Representantes, os democratas poderiam iniciar um procedimento de destituição de Trump.

Os seus líderes não estão, contudo, convencidos desta opção, condenada à partida ao fracasso devido à maioria republicana no Senado, e ao risco de dominar a campanha presidencial de 2020.
PUB