"Muito mais vil". A retaliação de Israel contra filme NAZA

"Muito mais vil". A retaliação de Israel contra filme NAZA

O produtor executivo do filme, Jonathan Glazer, classifica desta forma a resposta do Governo israelita contra os cineastas e as figuras militares entrevistadas no documentário. O filme, produzido pelo jornal The Guardian, detalha o massacre de civis em Gaza cometido por Israel.

Cristina Santos - RTP / Adicionar como fonte informativa
AFP

O documentário deve o nome ao acrónimo usado pelo serviço de inteligência israelita para estimar os "danos colaterais". Ou seja, o número de civis que morrerão num ataque aéreo, por exemplo, "20 NAZA".

Numa tentativa de contestar as revelações apresentadas no filme, o governo israelita promoveu um projeto audiovisual online que imita o estilo de NAZA. A isto juntam-se outras estratégias contra a obra e de perseguição dos envolvidos. Por exemplo, os realizadores Yuval Abraham e Rachel Szor foram acusados de traição. Foram também anunciados planos para retirar a cidadania a todos os que “difamaram” o exército israelita.
Foto: via AFP (Rachel Szor e Yuval Abraham)

Para além da ordem dada às autoridades de segurança e jurídica que encontrassem e processassem os soldados e oficiais entrevistados no documentário. O Governo de Netanyahu alega que causaram “danos aos interesses diplomáticos e de segurança de Israel”.
Enquanto isto, elementos de extrema-direita ameaçaram perseguir os realizadores. Para além de um mural que retrata os dois cineastas sob a mira de uma arma. Houve até uma manifestação à porta da casa dos pais de Rachel Szor a exigir que ela seja condenada à pena de morte. 
O filme/documentário conta com 24 entrevistas a fontes das forças militares israelitas. Estas denunciaram a utilização, durante a guerra em Gaza, de um sistema de vigilância em massa com auxílio de inteligência artificial. Este sistema foi usado para detetar e eliminar elementos do Hamas, mesmo sabendo que um grande número de civis palestinianos também morreria naquele momento.
Quando o filme estreou em Itália, em setembro, alcançou o primeiro lugar nas bilheteiras e superou a longa-metragem da Marvel Vingadores: Endgame. O documentário NAZA também recebeu o prémio especial do júri no Festival Internacional de Cinema de Veneza. O realizador Yuval Abraham já disse que o seu filme permite aos espectadores observar os “mecanismos que levam os seres humanos a fazer isto a outros seres humanos”.
Da mesma forma Rachel Szor, a outra realizadora de NAZA, explicou que a ideia de captar imagens do interior dos apartamentos dos residentes de Telavive era focar-se no “ritual” de pessoas reunidas em torno da TV para acompanhar o “noticiário e constatar a ausência ou a justificação” da devastação em Gaza.

Durante a estreia de NAZA no Reino Unido, na noite de ontem, o produtor executivo do filme afirmou ter ficado “paralisado pelo choque” quando assistiu ao filme pela primeira vez.

Em conversa com a editora-chefe do Guardian, Katharine Viner, Jonathan Glazer admitiu ter ficado surpreendido com a reação do Governo israelita. Embora parte fosse esperada, a reação “do meu ponto de vista, [foi] muito mais vil” do que se imaginava. O chefe do Estado-Maior das Forças de Defesa de Israel foi a voz dessa resposta. Ele garantiu que as autoridades utilizarão “todos os meios ao nosso dispor” contra o filme.
Durante uma sessão de perguntas e respostas após a estreia em Nova Iorque, os dois realizadores comentaram a reação negativa ao seu documentário.

“O nosso país faz um esforço enorme para ocultar estes sistemas”, “é um mundo que não é acessível nem sequer para o próprio público israelita”, afirmou Rachel Szor.

NAZA estreou em Portugal no dia 1 de outubro e será exibido em mais de 50 países.

No entanto, o filme vai estar disponível gratuitamente no site do jornal eletrónico The Guardian a partir do final de novembro.
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