Mundo homenageia vítimas de genocídio que Turquia continua a não reconhecer

A 24 de abril de 1915, em plena Primeira Guerra Mundial, o ministro do Interior do Império Otomano ordena a detenção de 250 intelectuais arménios. A apreensão deste grupo, constituído de religiosos, professores, deputados e jornalistas, marcava o início de um massacre que provocou a morte de milhão e meio de arménios. Começava assim aquele que o papa Francisco apelidou recentemente de “primeiro genocídio do século XX”.

Christopher Marques, RTP /
RIA Novosti/Reuters

O Império Otomano tentava acabar com as elites do povo arménio, na esperança de que assim seria mais fácil deportá-lo e, posteriormente, exterminá-lo. Um projeto trágico e dramático que representaria o fim de décadas de perseguições, motivadas pela crença de que o extermínio arménio era uma condição necessária ao sucesso do povo otomano. O império temia, em pleno conflito global, que os arménios se juntassem ao inimigo russo.

O massacre é um genocídio para muitos historiadores, para os arménios e para um número crescente de países. Para a Turquia, sucessora do império otomano, esta é uma definição sem sentido.
Turquia "de consciência tranquila"

Ancara reconhece que muitos arménios morreram neste período, mas nega que isso se tenha devido a um plano de extermínio por parte do Império Otomano. “De consciência tranquila”, a República da Turquia defende que estes foram vítimas da guerra civil e da fome que vitimou turcos e arménios neste período.

“Temos problemas com os que exploram estes incidentes. Temos problemas com a diáspora arménia que quer utilizar este assunto para lucros políticos”, afirma o Presidente turco, que garante estar disponível para falar com os representantes da Arménia.

Em entrevista à Euronews, o ministro turco dos Assuntos Europeus defende que seria incorreto resumir as “boas recordações da história” e da “relação milenar” entre os dois países à utilização da palavra “genocídio”.

“De certa forma, faz parte da nossa memória comum, mas essa memória comum também deve ser uma memória justa. Naqueles anos, milhões de pessoas morreram durante a Primeira Guerra Mundial”, afirma Volkan Bozkir. Recentemente, o Papa Francisco e a Áustria reconheceram recentemente o massacre como um genocídio. Este reconhecimento levou Ancara a chamar de volta os embaixadores turcos no Vaticano e em Viena.

“Não vimos, em parte alguma, uma intenção de cometer um genocídio. É por isso que somos contra essa terminologia. A nação turca está de consciência tranquila, porque não existe nenhum marco na história da Turquia ou do Império Otomano de que nos possamos envergonhar”, refere ainda o governante.

Os representantes da Turquia garantem, nas palavras do próprio Presidente Erdogan, que “partilham a dor” do povo arménio, sempre recusando a utilização da palavra genocídio. No entanto, há muitos turcos que contestam a posição oficial.

Yagiz Karahan, Reuters

Em Istambul, arménios e turcos marcharam esta sexta-feira para exigir que o executivo reconheça o genocídio. Uma marcha que motivou um outro protesto por parte de um grupo nacionalista que denuncia estas acusações.

Murad Sezer, Reuters

Apesar do Governo continuar a repudiar a expressão, o passar dos anos tem levado a um reconhecimento diferente deste massacre. O primeiro-ministro enviou condolências às famílias das vítimas e, pela primeira vez, um representante do executivo participou numa homenagem às vítimas do massacre que decorreu no Patriarcado arménio em Istambul.

“Respeitamos a dor sentida pelos nossos irmãos arménios”, afirmou o ministro turco dos Assuntos Europeus que participou na cerimónia. “Não nos opomos a qualquer celebração desta dor”.

Falar em genocídio é que continua a ser uma impossibilidade para Ancara. Precisamente aquilo que a Arménia e a França apelam a que seja feito.
Reconhecimento é "triunfo da consciência humana"

A Arménia homenageou esta sexta-feira as vítimas do que afirma ter sido um genocídio. Na capital do país, Erevan, o centenário do início do massacre não é apenas um momento de luto. Pretende ser a prova da resiliência deste povo.

“Sentimos hoje uma grande dor, uma dor histórica mas também uma grande força”, defende uma professora arménia. “Não devemos apenas sobreviver, temos de viver, ser fortes e construir o nosso Estado”.
Reportagem de Fátima Marques Faria e Guilherme Terra, RTP

“O reconhecimento do genocídio representa o triunfo da consciência humana e da justiça sobre a intolerância e o ódio”, defendeu o Presidente da Arménia.

Esta semana, em entrevista à Euronews, Serzh Sargsyan apelou a que Ancara reconheça o genocídio, afirmando que este “é o caminho para a reconciliação das duas nações”.
Na homenagem, participaram vários líderes internacionais, nomeadamente o Presidente francês e o seu homólogo russo.Vladimir Putin aproveitou a passagem por Erevan para apelar aos riscos dos nacionalismos e da “russofobia”, numa clara referência ao clima de tensão existente entre o ocidente e Moscovo motivado pelo conflito ucraniano.

Vladimir Putin declarou que "nada pode justificar os massacres em massa" e que o povo russo "se recolhe ao lado do povo arménio".

As palavras do Presidente russo ecoaram rapidamente em Ancara. Através de comunicado, a diplomacia “rejeita” e “condena” a declaração feita pelo Presidente russo em Erevan.
"Contributo para a reconciliação"
Por sua vez, o Presidente francês apelou à Turquia para que reconheça o massacre do povo arménio de 1915 e 1916.

“A França combate o revisionismo e a destruição de prova porque a negação contribui para a repetição dos massacres”, disse o chefe de Estado francês, classificando a sua presença em Erevan de “contributo para a reconciliação”.Em terras gaulesas, primeiro grande Estado europeu a reconhecer, em 2001, o genocídio arménio, vivem cerca de 450 mil arménios. O reconhecimento do genocídio, defende Paris, representa “um ato de verdade”.

Suíça, Itália, Grécia, Polónia, Suécia e os Estados Unidos já reconhecem o genocídio arménio de 1915-1916. Esta semana, Viena e Berlim juntaram-se a este lote de países, com a Alemanha a assumir mesmo a coresponsabilidade pelo massacre. O Império Otomano era aliado do império germânico no conflito que assolou o mundo entre 1914 e 1918.

“Não se trata de sentar a Alemanha no lugar dos acusados”, disse o Presidente alemão, “mas reconhecer a culpa, pois sem ela não haverá reconciliação entre povos”.
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