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Museu Britânico. Duas mil peças roubadas

O número de artefatos que desapareceram do Museu Britânico é estimado em dois mil, disse no sábado o presidente do conselho de administração, George Osborne. Admitiu que a coleção não tinha um catálogo completo e acrescenta que está um curso uma investigação da Polícia Metropolitana para recuperar as peças e detetar a rede de tráfico ilícito de antiguidades retiradas do museu londrino. O diretor do museu já deixou o cargo e reconheceu que a instituição não agiu "como deveria".

Carla Quirino - RTP /
Carla Quirino - RTP

O presidente do Museu Britânico George Osborne descreveu as peças desaparecidas como “pequenos itens de joalheria, pedras preciosas e fragmentos em ouro que não estavam em exibição pública”.

À BBC, Osborne sublinhou que ainda não está claro exatamente quantos bens culturais foram extraviados. “Vou dar-lhe uma estimativa de cerca de 2.000. Mas devo dizer que é um número muito provisório”, afirmou.

“Começamos a recuperar algumas das peças roubadas, o que é uma fresta de esperança numa nuvem negra”, acrescentou, sem detalhar o que tinha sido recuperado.

Osborne atribuiu a falha da administração em não agir quando surgiram avisos feitos ao grupo de trabalho dos coordenadores do museu porque “simplesmente não conseguia acreditar que alguém de dentro estivesse a roubar coisas, não conseguia acreditar que um dos membros da equipa estivesse a fazer isso”.  Já havia conhecimento desses alertas há pelo menos dois anos.

“Acreditamos que temos sido vítimas de roubos há um longo período de tempo e, francamente, poderia ter sido feito mais para evitar esses roubos”, observou Osborne, acrescentando que em curso está um “trabalho forense” para estabelecer com precisão o que está em falta. O presidente adiantou que a segurança no museu já estava a ser melhorada.
O presidente também avançou que uma rede de antiquários está a cooperar com o museu para ajudar a localizar algumas das peças desaparecidas.

A Polícia Metropolitana confirmou na quinta-feira que um homem alegadamente associado aos roubos foi interrogado mas ainda não foi feita nenhuma detenção. A polícia confirma que continuará no encalço das peças e prevaricadores.

O diretor do museu, Hartwig Fischer, deixou o cargo na sexta-feira, e admitiu que a instituição não agiu “como deveria” perante os avisos de que peças tinham desaparecido.
Catalogação imprecisa
A pressão sobre o Museu Britânico subiu de tom quando anunciou a meio do mês de agosto que tinha despedido um investigador/curador de coleções de época clássica. O motivo prendeu-se com a identificação de artefactos “desaparecidos, roubados ou danificados”.

Ao programa Today da BBC Radio 4, Osborne disse estar confiante de que “pessoas honestas” devolverão os itens que foram roubados, mas reconheceu que “outras talvez não”.

Osborne admitiu que nem todos os itens foram "devidamente catalogados e registados" e sugeriu que "alguém com conhecimento do que não está registado tem uma grande vantagem em removê-los".

De acordo com especialistas em património cultural,  os artefactos alegadamente roubados das colecções do Museu Britânico poderão nunca ser recuperados devido à má manutenção de registos.

Ittai Gradel, um negociante de antiguidades anglo-dinamarquês afirma que descobriu os supostos roubos de bens - jóias de ouro, pedras semipreciosas e artigos de vidro antigos. Em paralelo, Gradel revelou ter sido informado de que centenas de objetos desaparecidos nunca teriam sido devidamente catalogados pelo museu, o que tornará difícil provar que esse bens pertenciam às suas coleções.

Ao Guardian, Gradel acrescentou que alertou o museu pela primeira vez sobre os alegados roubos em 2020. Contou que a equipa do museu tinha descoberto que quase uma coleção inteira de 942 jóias não registadas estava desaparecida.
Os registos do museu descrevem apenas a coleção como um todo e não detalham as peças individuais.

“Pelo que entendi, esses bens individuais não foram descritos, apenas era uma soma total”, observou. “Então, faltam 935 pedras preciosas e o problema é que, se não conseguem ser identificadas, como podem voltar ao museu?", questiona Gradel.

“Estas peças estão lá sem qualquer registo há mais de 200 anos, o que as torna um convite aberto ao roubo" sublinha.

Osborne lamenta que estes acontecimentos tenham “certamente prejudicaram a reputação do Museu Britânico, - o que é uma afirmação do óbvio-, e é por isso que peço desculpas em seu nome”.
Insegurança num Museu histórico
Christos Tsirogiannis, arqueólogo forense que preside um grupo da Unesco dedicado ao tráfico ilícito de antiguidades, descreveu os roubos como os piores da história moderna.

O arqueólogo afirmou à BBC News que “é de longe o maior roubo que conheço em um museu, especialmente para um deste calibre. E defende: “É uma quantia enorme para qualquer museu, mas o que acontece no Museu Britânico torna tudo ainda pior.”

O Museu Britânico foi fundado em 1753. Ao longo de séculos acumulou uma coleção de cerca de oito milhões de bens culturais. Em 2019 apenas cerca de 80 mil estavam em exibição pública, sendo o restante mantido nas reservas.
Alguns dos frisos em mármore pertencentes ao edífício da Grécia clássica, o Partenon | Carla Quirino - RTP

A instituição defende ter o papel de guardião de bens arqueológicos e históricos globais para servir as gerações futuras.  Porém, estes incidentes relançam o pretexto para se debater a insegurança dos tesouros de que o Museu Britânico reclama ser fiel depositário.

O museu londrino é uma das maiores atrações turísticas da capital britânica. É conhecido por abrigar coleções que incluem a Pedra de Roseta e os Mármores do Partenon.



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