Nações Unidas exigem "inquérito imparcial" à repressão no Egito

Ao quinto dia de protestos e confrontos no coração do Cairo, a alta comissária da ONU para os Direitos Humanos vem exigir um inquérito “rápido, imparcial e independente” à repressão movida pelo poder militar egípcio, com um saldo de mais de três dezenas de mortos. Imunes à promessa de um retorno ao poder civil proclamada pelo marechal Mohamed Hussein Tantaoui, à frente dos destinos do Egito desde a queda de Hosni Mubarak, milhares de manifestantes permaneciam esta quarta-feira mobilizados em defesa da democracia na Praça Tahrir.

RTP /
Milhares de manifestantes deixaram claro que as manifestações são para manter até à efetiva transição para a democracia Andre Pain, EPA

Foi com recurso a um comunicado que a alta comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos instou as autoridades egípcias “a porem fim à utilização manifestamente excessiva da força contra os manifestantes da Praça Tahrir” e noutras regiões do Egito.

Navi Pillay defende ainda a instauração de “um inquérito rápido, imparcial e independente” sobre as circunstâncias que deram lugar a mais de 30 mortes em cinco dias de protestos e confrontos entre manifestantes e forças de segurança do país – mais três pessoas foram abatidas a tiro esta quarta-feira no Cairo, segundo adiantou à France Presse o médico Chadi al-Naggar, a trabalhar num hospital de campanha montado na mesquita Omar Makram.

Em defesa de uma “prestação de contas” por parte dos “responsáveis pelos abusos”, a alta comissária das Nações Unidas condena o desfiar de imagens “profundamente chocantes” que continuam a ser recolhidas a partir da Praça Tahrir, onde despontou o movimento que obrigou Hosni Mubarak a abandonar o poder a 11 de fevereiro, ao cabo de 30 anos de governação autocrática.

Igualmente “chocantes”, na perspetiva de Navi Pillay, são “as informações sobre manifestantes desarmados que receberam uma bala na cabeça”.

“Mubarak em traje militar”
Os protestos dos últimos dias, que se estendem às cidades de Alexandria, Bur Said, Suez, Qena, Assiut e Assuão, assim como à província de Daqahliya, no delta do Rio Nilo, já levaram à demissão do Governo interino de Essam Charaf, nomeado em março pela cúpula militar.

O afastamento do primeiro-ministro foi confirmado na terça-feira depois de uma reunião do Supremo Conselho das Forças Armadas com diferentes forças políticas. Entre as quais a Irmandade Muçulmana: esta influente estrutura partidária tem vindo a manter-se ao largo das recentes manifestações e a desdobrar-se em apelos à contenção, tendo em vista as primeiras eleições legislativas pós-Mubarak, previstas para a próxima segunda-feira.

Numa rara intervenção pública, o marechal Mohamed Hussein Tantaoui, à cabeça das Forças Armadas e do poder político, comprometeu-se a realizar eleições presidenciais até final de junho de 2012. E declarou-se mesmo disposto a devolver as rédeas do país a autoridades civis, caso um eventual referendo dite esse desfecho. Todavia, se as chefias militares esperavam obter uma desmobilização, dezenas de milhares de manifestantes deixaram claro, durante a noite, que as manifestações são para manter até à efetiva transição para a democracia.

Numa nota entretanto divulgada pelas agências internacionais, o “Movimento dos Jovens de 6 de Abril” empregou a ironia para demolir a intervenção de Tantaoui, apelidando o marechal de “Mubarak em traje militar”: “É agora claro que aquele que escrevia os discursos do Presidente derrubado Mubarak é o mesmo que escreve os discursos do senhor marechal”.

“Situação problemática” inquieta Israel
Enquanto os Estados Unidos condenam “o uso excessivo da força” e apelam às autoridades egípcias para que salvaguardem o direito às manifestações, em Israel as esperanças recaem sobre a figura do marechal Tantaoui. Tanto para manter o Egito longe de um quadro de “caos geral” como para proteger a paz entre os dois países vizinhos.

“A situação é problemática, sensível e não é clara. Tantaoui tenta evitar o caos e transmitir o poder da forma o mais ordenada possível. Esperamos que ele tenha sucesso e os egípcios também o devem esperar, caso contrário será o caos geral e isso será muito mau para o Egito”, declarou à rádio militar do Estado hebraico o ministro israelita Matan Vilnai, responsável pela pasta da defesa civil.

Em “contacto permanente” com o Supremo Conselho das Forças Armadas, Vilnai conjeturou que Hussein Tantaoui “não tem nenhuma aspiração” a perpetuar-se no poder. E reconheceu que a principal fonte de “inquietação” do Governo israelita é o ascendente político da Irmandade Muçulmana, um partido conotado com o movimento palestiniano Hamas.
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