"Não temos medo". Multidão despediu-se de Alexei Navalny sob vigilância da polícia

por Joana Raposo Santos - RTP
Os únicos símbolos de homenagem foram as flores nas mãos dos participantes, já que cartazes foram proibidos. Reuters

Milhares de pessoas homenagearam esta sexta-feira o russo Alexei Navalny nas suas cerimónias fúnebres, segundo números avançados pelas agências internacionais. O opositor do presidente Vladimir Putin morreu há duas semanas na prisão do Ártico onde estava detido. O último adeus decorreu sob a vigilância cerrada das forças policiais destacadas no local, mas, ainda assim, muitos dos presentes disseram não ter medo.

Os únicos símbolos de homenagem foram as flores nas mãos dos participantes. Cartazes ou qualquer outro objeto que revelasse desobediência ao regime de Putin foram proibidos nas cerimónias, sob pena de detenção de quem os carregasse. Os apoiantes de Alexei Navalny foram cautelosos e cumpriram, mas disseram nada temer.

“Estamos aqui todos juntos. Não temos medo”, disse um dos presentes a um jornal local independente. “Estou aqui para apoiar a sua família e mostrar-lhes que não estão sozinhos”.


Segurando flores vermelhas, um outro homem, de 73 anos, disse ter sentido a morte de Navalny como uma perda pessoal e confessou a sua admiração pela faceta destemida do opositor. Já um jovem participante falou num “símbolo da resistência” e frisou que nem todos os russos apoiam as autoridades.

Horas antes de o funeral ter começado, já centenas de pessoas esperavam à porta da igreja pela chegada do corpo do célebre opositor, sob a vigilância das autoridades. Na longa fila de pessoas no local encontravam-se vários diplomatas ocidentais, segundo as agências noticiosas.

Quando a carrinha funerária finalmente chegou e o caixão foi retirado, a multidão aplaudiu e cantou o nome de Navalny, que foi enterrado em Moscovo, no cemitério de Borisovskoye, duas semanas após a sua polémica morte.
"Não à guerra", gritam participantes
Segundo a agência AFP, a multidão reunida perto do cemitério gritou "não à guerra", numa referência à invasão russa da Ucrânia, que dura há mais de dois anos.

Apesar da forte presença policial no local, alguns gritaram ainda "ele [Navalny] não tinha medo e nós não temos medo" e "não vamos perdoar".

Ao contrário dos pais de Alexei Navalny, a viúva Yulia Navalnaya não esteve presente nas cerimónias e não se encontra na Rússia. Na rede social X, deixou palavras de despedida ao marido e agradeceu-lhe por "26 anos de absoluta felicidade".

"Não sei como viver sem ti, mas vou tentar que aí em cima fiques feliz e orgulhoso de mim. Não sei se consigo lidar com isto ou não, mas vou tentar", acrescentou.

Alegadas ameaças dificultaram transporte do corpo

O funeral decorreu depois de vários incidentes relacionados com a entrega do corpo de Navalny à família. A mãe deste ex-prisioneiro disse ter sido alvo de chantagem por parte das autoridades russas, que a terão tentado forçar a realizar uma cerimónia fúnebre secreta, sem outros participantes.
Esta sexta-feira houve uma nova polémica, com alguns dos aliados deste homem a dizerem ter sido impedidos de contratar um carro funerário para transportar o corpo até ao local do serviço fúnebre.

Segundo Kira Yarmish, porta-voz de Navalny, indivíduos anónimos ameaçaram fornecedores de veículos funerários por telefone e, como resultado, houve dificuldades em encontrar uma empresa que aceitasse transportar o corpo do rival de Vladimir Putin.

Alexei Navalny tinha 47 anos. De acordo com os serviços prisionais, sucumbiu de doença súbita "após um passeio" numa prisão no Ártico onde cumpria pena, mas as circunstâncias da sua morte permanecem pouco claras.

Vários líderes ocidentais, incluindo em Portugal, responsabilizaram pela morte o presidente russo, Vladimir Putin, que disputa eleições presidenciais em meados de março.

c/ agências
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