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Novos riscos para a saúde dos europeus num mercado de drogas em rápida evolução

Novos riscos para a saúde dos europeus num mercado de drogas em rápida evolução

O relatório europeu sobre o consumo de drogas da Agência Europeia de drogas, sediada em Lisboa, aponta um aumento do consumo de cocaína e de substâncias sintéticas. O relatório deste ano, publicado esta manhã, mostra ainda que as rotas de abastecimento e os métodos de tráfico de canábis ilícita estão a evoluir.

Andrea Neves, RTP Antena 1, Bruxelas / Adicionar como fonte informativa
Apreensão de cocaína na Alemanha Foto: Rolf Vennenbernd - DPA / AFP

Os dados mostram que Portugal segue a tendência do resto da Europa e apontam pelo menos 7.600 mortes por overdose na Europa. Constata-se ainda que o tráfico de drogas deixou de ser uma área isolada do crime, financiando lavagem de dinheiro, corrupção, tráfico de pessoas, violência e todas as outras formas de crime organizado grave.

As drogas ilícitas, incluindo cocaína e drogas sintéticas, bem como novas substâncias psicoativas, estão amplamente disponíveis. Novos produtos à base de cannabis continuam a surgir, enquanto a variedade de opioides e estimulantes vendidos está em ascensão.

A canábis é a droga ilícita mais amplamente consumida na Europa, estimando-se que 24,9 milhões de adultos europeus (com idades compreendidas entre os 15 e os 64 anos) tenham consumido esta droga no último ano.

A EUDA estima que, em 2024, se tenham registado pelo menos 7 600 mortes por overdose na UE, na sua maioria envolvendo o consumo de várias substâncias.

O relatório destaca que os opioides, geralmente em combinação com outras substâncias, continuam sendo a principal causa de mortes relacionadas a drogas na Europa. A EUDA estima que houve pelo menos 7.600 mortes por overdose na UE em 2024, a maioria envolvendo múltiplas substâncias. 

Essas drogas representam sérios riscos à saúde, especialmente as novas substâncias, cujo conhecimento científico e público sobre os riscos ainda é limitado.

Opioides para além da heroína, incluindo opioides sintéticos muito potentes, medicamentos para terapias com agonistas opioides e medicamentos para alívio da dor, são detetados numa percentagem significativa de mortes por overdose em alguns países.

Com base em dados de 29 países (UE-27, Noruega e Turquia), o relatório mostra que as drogas têm um impacto cada vez mais negativo na saúde e segurança europeias, à medida que se tornam mais acessíveis, mais diversificadas e mais potentes – enquanto os grupos do crime organizado recorrem à violência com maior frequência.

Para além dos danos para a saúde e de vulnerabilidade social, o relatório sublinha o impacto contínuo dos mercados de drogas na segurança da Europa. A intimidação e a violência relacionadas com as drogas continuam a ser motivo de preocupação, incluindo a exploração e o recrutamento de jovens vulneráveis por grupos criminosos para o tráfico de drogas e a prática de atos de violência.A situação em Portugal
Portugal regista as mesmas tendência da Europa sobretudo com maior disponibilidade de canábis no país, a substância mais consumida a nível europeu e também de Portugal, e um aumento do consumo de cocaína como refere a Joana Teixeira, Presidente do Instituto para os Comportamentos Aditivos e as Dependências. “O Relatório Europeu sobre Drogas proporciona uma visão anual sobre o fenómeno das drogas na Europa e é seguramente uma base valiosa para orientar as políticas e as respostas dos países em relação à matéria das substâncias ilícitas.

Numa primeira fase, nós conseguimos perceber que há uma evolução com o aparecimento de novos riscos para a saúde dos europeus num mercado de drogas que tem tido aqui também uma evolução bastante rápida e com uma alteração do padrão de consumo e das principais substâncias que tem sido consumida”.

A diretora do ICAD refere que “Portugal tem sentido aqui também as tendências da Europa, nomeadamente relativamente à maior disponibilidade de cannabis no nosso país. A cocaína é a segunda droga ilícita mais frequentemente retratada e que os nossos novos utentes para tratamento e nos últimos seis 60 anos". 

"Esta tendência de aumento de consumo de cocaína, entre os utentes que nos procuram, tem sido crescente. Também a cocaína é a principal substância responsável pelas mortes por overdose em Portugal e a cocaína, em particular, o crack, está a agravar as preocupações no nosso país. Há um consumo crescente de crack. O crack está a agravar as preocupações em Portugal, com um aumento crescente do consumo por causa das consequências negativas que tem para a saúde”, acrescenta.
A Canábis
A canábis é a droga ilícita mais amplamente consumida na Europa, estimando-se que 24,9 milhões de adultos europeus (com idades compreendidas entre os 15 e os 64 anos) tenham consumido esta droga no último ano.

A maior disponibilidade de produtos de canábis mais potentes e diversificados está a aumentar os riscos para a saúde, tornando as respostas mais complexas. A canábis é a causa de um terço (33 %) das pessoas iniciarem tratamento da toxicodependência na Europa, o que representa um número estimado de 104 mil utentes em 2024, 62 mil iniciaram tratamento pela primeira vez.

“A canábis, incluindo produtos de alta potência, extratos e produtos comestíveis, foi associada a admissões em urgências hospitalares. A adulteração de produtos de canábis com canabinoides sintéticos potentes e a ampla disponibilidade de canabinoides semissintéticos aumentam o risco de danos" refere o relatório. 

Ambos são comercializados em dispositivos de vaping e produtos comestíveis, o que suscita preocupações quanto ao seu consumo por novos utilizadores e, possivelmente, mais jovens” pode ler-se no relatório da Agência Europeia sobre drogas.
Mais substâncias, mais potentes e mais puras
O relatório hoje apresentado também realça o aumento do consumo de produtos sintéticos.

“Outra preocupação que se percebe neste relatório é o aumento das substâncias sintéticas, nomeadamente de opióides ou de canabinóides sintéticos, que têm riscos acrescidos para a saúde e, muitas vezes, são desconhecidos os efeitos que provocam. Portanto, isto é um risco acrescido em que muitas vezes os consumidores estão a utilizar substâncias produzidas quimicamente que não conhecem o seu efeito principal” refere Joana Teixeira, Presidente do Instituto para os Comportamentos Aditivos e as Dependências.

Com base em dados de 29 países (UE-27, Noruega e Turquia), a revisão anual destaca “os riscos para a saúde pública decorrentes da ampla disponibilidade e consumo de uma gama cada vez mais diversificada de substâncias, muitas vezes de elevada potência ou pureza. Continuam a surgir novos produtos de canábis, enquanto a variedade de opioides e estimulantes vendidos está a aumentar”.

Continuam a ser detetadas novas substâncias psicoativas a um ritmo de cerca de uma por semana.
 Em 2025, foram comunicadas pela primeira vez 50 novas substâncias psicoativas na Europa, elevando para 1050 o número total monitorizado pela EUDA. Entre estas substâncias encontram-se novos opioidessintéticos potentes, que representam um risco acrescido de intoxicação potencialmente fatal.


Lorraine Nolan, diretora executiva da EUDA, acrescenta que “os mercados de drogas estão a evoluir rapidamente e a variedade de substâncias nas ruas da Europa torna-se cada vez mais imprevisível, o que aumenta o risco: as pessoas podem estar a consumir drogas de alta potência, muitas vezes sem se aperceberem”

A utilização de dispositivos de vaping ou cigarros eletrónicos, envolvendo produtos que contêm nicotina, é agora uma característica comum do consumo de substâncias entre os adolescentes na Europa (ESPAD, 2024). Foram apreendidos nos Estados-Membros da UE dispositivos de vaping que contêm outras substâncias, como formas sintéticas e semissintéticas de canábis, o que suscita preocupações de que possam vir a servir de veículo para outras substâncias nocivas, incluindo, potencialmente, novos opiáceos sintéticos.

O policonsumo de drogas também é comum, verificando-se que as pessoas combinam drogas e aumentam os riscos e a dificuldade nas respostas.

Os opioides: os novos opioides sintéticos ameaçam a saúde pública, enquanto o mercado da heroína continua a demonstrar resiliência

Os opioides, geralmente em combinação com outras substâncias, continuam a ser a principal causa de mortes induzidas pelo consumo de droga na Europa.

A EUDA estima que, em 2024, se tenham registado pelo menos 7 600 mortes por overdose na UE, na sua maioria envolvendo o consumo de várias substâncias. Opioides para além da heroína, incluindo opioides sintéticos muito potentes, medicamentos para terapias com agonistas opioides e medicamentos para alívio da dor, são detetados numa percentagem significativa de mortes por overdose em alguns países.

Os novos opioides sintéticos, muitas vezes altamente potentes, são motivo de especial preocupação, tendo 95 deles sido detetados na Europa desde 2009. Só em 2025, foram notificados sete novos opioides sintéticos ao Sistema de Alerta Rápido da EU.

A EUDA coordena uma rede de laboratórios forenses e toxicológicoscom o objetivo de aumentar a capacidade analítica e facultar informações de primeira linha. A agência está atualmente a elaborar uma avaliação de ameaças sobre novos opioides sintéticos emergentes na Europa, na sequência de uma avaliação dos opioidessintéticos muito potentes nos países bálticos, em 2025.

As mortes relacionadas com fentanil, um opioide sintético muito potente, sublinham a necessidade de vigilância.

Na Bulgária, foi associado a mais de 100 mortes relacionadas com a droga comunicadas entre 2024 e 2025.

Melhorar o acesso em grande escala a terapias com agonistasopioides, a programas de troca de agulhas e seringas e a naloxona para uso domiciliário, continua a ser fundamental para fazer face aos atuais problemas relacionados com os opioides, bem como para garantir a preparação e a resiliência face às mudanças do mercado dos opioides.

Um número crescente de países oferece programas de naloxona para uso domiciliário (19 países europeus em 2025).

Entretanto, o mercado europeu de heroína está a demonstrar resiliência.A cocaína: aumento dos danos e consumo de crack

O atual relatório revela que o consumo de cocaína continua elevado em toda a Europa, tendo cerca de 4,3 milhões de adultos europeus (com idades compreendidas entre os 15 e os 64 anos) consumido esta droga no último ano. O alcance geográfico da cocaína também está a aumentar, tal como os danos que causa.

As mais recentes análises de águas residuais municipais mostram que, das 85 cidades que dispõem de dados relativos a 2024 e 2025, 48 (57 %) comunicaram um aumento dos resíduos de cocaína

O número de pessoas que procuram tratamento para problemas relacionados com a cocaína continua a aumentar. A cocaína foi a segunda droga ilícita mais comum entre os utentes que iniciaram tratamento especializado da toxicodependência pela primeira vez em 2024, sendo citada por cerca de 37 000 dos utentes (um aumento de 39 % desde 2018).

No total, 74 000 utentes que iniciaram o tratamento referiram a cocaína como a sua droga principal.

Em 2024, os dados disponíveis de 20 países indicavam que a droga estava envolvida em mais de um quarto (27 %) das mortes induzidas pelo consumo de droga.

A cocaína crack está a agravar as preocupações. Trata-se de um problema visível e potencialmente crescente em diversas cidades europeias, particularmente entre grupos marginalizados, o que pode ser impulsionado pela elevada disponibilidade de cocaína e pela facilidade com que esta é transformada localmente a partir da cocaína em pó. Estima-se que, em 2024, 11 400 pessoas tenham iniciado tratamento por problemas relacionados com o crack.A cetamina: risos crescentes para a saúde, à medida que a droga é cada vez mais desviada para o mercado ilícito
A cetamina, um medicamento essencial utilizado para anestesia e alívio da dor, está atualmente a ser cada vez mais consumida de forma abusiva como substância psicoativa na Europa.

“Embora o consumo global continue a ser relativamente reduzido, está a tornar-se mais comum em alguns meios juvenis e na vida noturna, onde é normalmente consumida por inalação, na forma de pó. Os riscos para a saúde vão desde intoxicação aguda a danos crónicos, tais como lesões graves na bexiga associadas ao consumo intensivo”.

Vários indicadores sugerem que a cetamina está a tornar-se cada vez mais presente no panorama das drogas na Europa. Em 2024, 14 % dos inquiridos no Inquérito Online Europeu sobre Drogas, que tinham consumido drogas no último ano, comunicaram o consumo de cetamina, normalmente em combinação com álcool ou outras drogas. A mais recente análise europeia de águas residuais municipais revelou que os resíduos de cetamina aumentaram em 40 das 66 cidades que dispõem de dados disponíveis para 2024 e 2025.

Os serviços de saúde estão a começar a sentir o impacto. Embora o número de pessoas que iniciam tratamento especializado para problemas relacionados com a cetamina continue a ser reduzido, quadruplicou nos últimos anos, passando de 413 casos em 2019 para 1 796 em 2024.O tráfico de droga
O documento sublinha que “as redes de tráfico estão a adaptar-se rapidamente aos esforços das autoridades”.

“Na sequência do reforço das operações policiais nos principais portos europeus, os criminosos diversificaram as suas rotas e métodos para evitar serem detetados. Recorrem cada vez mais a portos de menor dimensão, a transferências no mar que envolvem lanchas de alta velocidade e outras embarcações, bem como a semissubmergíveis, drones e técnicas sofisticadas de dissimulação. Estes desenvolvimentos estão a dificultar a deteção do tráfico e a impor maiores exigências às autoridades responsáveis pela aplicação da lei e às autoridades aduaneiras”.

O relatório destaca ainda o crime organizado com alto grau de eficiência no tráfico de drogas como referiu o Comissário para os Assuntos Internos.


“E vemos que o tráfico de drogas já não é uma área isolada do crime. Ele financia lavagem de dinheiro, corrupção, tráfico de pessoas, violência e todas as outras formas de crime organizado grave. E são precisamente essas redes criminosas altamente profissionais que estão por trás do mercado. Elas usam tecnologias de ponta. Usam comunicação criptografada. Usam também estruturas logísticas internacionais e possuem enormes recursos financeiros. E, ao mesmo tempo, exploram as vulnerabilidades sociais, a exclusão social, a falta de perspetivas, o estresse psicológico e outros desafios sociais que criam um ambiente no qual o uso e a dependência de drogas são, na verdade, incentivados” referiu o Comissário.

Magnus Brunner quer especial vigilância nos portos. É pela via marítima e nos portos mais pequenos que grande parte da droga chega à Europa.

O relatório destaca que “o volume de cocaína intercetada na Europa diminuiu em mais de 20% em 2024, passando de 419 toneladas em 2023. No entanto, o número de apreensões aumentou para 97.000 (contra 95.000 em 2023), sugerindo que os traficantes podem estar a optar por remessas menores e mais fragmentadas para evitar a deteção. Embora as remessas a granel através de portos marítimos continuem a apresentar uma elevada disponibilidade, há indícios de que as rotas e os métodos de tráfico estão a diversificar-se”.

Há cada vez mais relatos de exploração de portos de menor dimensão, a par de métodos de dissimulação mais sofisticados e de transferências no mar.

A intimidação e a violência relacionadas às drogas também continuam a ser uma preocupação, incluindo a exploração e o recrutamento de jovens vulneráveis por grupos criminosos.
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