O escândalo que está a abalar o Facebook

O gigante digital está no centro da polémica que implica uma brecha na segurança na rede, aproveitada por uma empresa que recorre a fake news para influenciar politicamente o público.

Sérgio Alexandre - RTP /
Reuters

Um antigo alto funcionário da Cambridge Analytica denunciou que a empresa a que pertenceu se apropriou ilegalmente da informação confidencial de pelo menos 50 milhões de utilizadores do Facebook, para gerar conteúdo direcionado (real e/ou falso) que influenciasse decisivamente as opiniões políticas dos visados, bem como o seu comportamento enquanto eleitores. As presidenciais norte-americanas e o referendo à permanência do Reino Unido na União Europeia terão sido objetivos estratégicos do esquema montado.

A Cambridge Analytica é um braço da SCL Group, uma empresa britânica especializada no fornecimento e análise de informação estratégica, com clientes em todo o mundo, desde governos a organizações militares. A SCL Group é liderada por Alexander Nix, oriundo do mundo da alta-finança e notório partidário do Brexit.
A denúncia
Segundo as polémicas revelações do canadiano Christopher Wylie ao The Guardian e ao New York Times, este fim-de-semana, a Cambridge Analytica surgiu como resposta às ambições políticas de Steve Bannon em 2014. Bannon, então editor-chefe do site da “alt-right” norte-americana Breitbart, tornar-se-ia em breve no conselheiro principal de Donald Trump durante a campanha eleitoral de 2016 e queria “mudar o pensamento dos EUA”.

Por detrás da Cambridge Analytica estão os milhões do magnata norte-americano Robert Mercer, amigo pessoal de Trump e de Nigel Farage, um dos rostos principais da campanha pelo Brexit no referendo de 2016.

Na entrevista em que confirma as suspeitas que já circulam nos media há pelo menos um ano, Christopher Wylie acusa a Cambrige Analytica de ter usado uma app que pagava aos seus utilizadores para ter acesso às suas informações pessoais no Facebook (atualizações de estado, likes, etc.). O criador do programa é Aleksandr Kogan, um russo-americano, investigador de neurociências na Universidade de Cambridge.

O problema é que a app thisisyourdigitallife recolhia também, secretamente e sem consentimento, as informações referentes a toda a rede de contactos no Facebook de cada um dos seus utilizadores . A empresa de Mark Zuckerberg garante que não tinha conhecimento do esquema, mas Christopher Wylie sugere que isso é inverosímil.
A política de privacidade do Facebook permite que uma aplicação recolha informação de perfil dos seus utilizadores apenas com duas finalidades: a pesquisa e a melhoria da experiência de utilização. A venda e a transmissão dessas informações a entidades terceiras são estritamente proibidas.
Desta forma, a Cambridge Analytica apossou-se ilegalmente de um gigantesco espólio de informação pessoal, que atingiu números astronómicos – os perfis de pelo menos 50 milhões de norte-americanos terão sido devassados sem conhecimento dos próprios. Essa informação poderá estar ainda a ser usada.

“Criámos a capacidade de influenciar e até de modificar a cultura e o pensamento de um país”, resume Wylie, pondo no centro da questão a cada vez mais debatida manipulação da informação nas redes sociais, cujo epítome são as fake news, as notícias falsas.


As réplicas
As revelações deste fim-de-semana disparam em várias direções: dão novo fôlego às suspeitas de manipulação nas eleições presidenciais norte-americanas e no referendo britânico sobre a União Europeia e causam um profundo rombo nas garantias de ”estanquicidade” do Facebook, no que diz respeito à segurança da informação privada alojada na plataforma pelos seus utilizadores.

Um dos resultados imediatos das declarações do ex-empregado da Cambridge Analytica foi a forte queda das ações do Facebook na bolsa de Nova Iorque, apesar da operação de contenção de danos posta imediatamente em marcha pelo gigante digital: garantia de desconhecimento do esquema, corte de relações com a empresa suspeita, juras de segurança da plataforma. Sintomático é o silêncio de Mark Zuckerberg sobre este escândalo que põe a sua multimilionária criação no olho da tempestade.

Por outro lado, as exigências de investigação desta polémica estão a subir de tom, tanto na Europa como nos EUA. O presidente do Parlamento Europeu instou o fundador e administrador executivo do Facebook a prestar contas aos eurodeputados sobre o uso de dados de cidadãos europeus na sequência do escândalo da Cambridge Analytica. Também o parlamento britânico requereu hoje as explicações de Mark Zuckerberg sobre o assunto no prazo de uma semana. Nos EUA, a Comissão Federal do Comércio está a investigar se o Facebook violou ou não as regras sobre a utilização de informação pessoal dos seus utilizadores.
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