Observador diz que missão é "uma farsa", jornalista francês morto em Homs

A televisão Al Jazeera diz que vários observadores da missão enviada pela Liga Árabe à Síria se demitiram e que os outros estão sob ameaça no país. A televisão entrevistou Anwar Malek, um dos observadores demissionários que afirma que a missão "é uma farsa" e que a situação é um desastre humanitário. Entretanto morreu esta quarta-feira um jornalista francês na cidade de Homs onde estava em reportagem. Gilles Jacquier era correspondente da Televisão France 2 e é o primeiro jornalista ocidental a morrer na Síria desde o início da revolta contra al-Assad.

Graça Andrade Ramos /
Gilles Jacquier é o primeiro jornalista ocidental a morrer na Síria desde o início da revolta, em Março. O francês foi um dos oito mortos em Homs na queda de um obus. RTP

A France 2 não divulgou detalhes mas um fotógrafo que assistiu a tudo diz que Gilles morreu quando um obus de morteiro caiu sobre um grupo de jornalistas, onde ele se encontrava. O francês foi um dos oito mortos.

A empresa noticiou a morte do seu correspondente "com tristeza", acrescentando que Gilles estava a trabalhar no Iraque e no Afeganistão e tinha sido convidado para ir à Síria pelo regime de Damasco.

Os Estados Unidos lamentaram a morte do jornalista francês, denunciando a "incapacidade" do governo sírio em proporcionar um "ambiente favorável" aos jornalistas.

"Cenas de horror"

Já a televisão Al Jazeera publicou em primeira mão as declarações do observador da Liga Árabe demissionário. Anwar Malek, argelino, afirma que se demitiu por sentir que estava a "servir o regime" e não se sentia parte "de um corpo independente". Critica ainda a ação do líder da missão de 165 observadores, um general sudanês.

Perante as câmaras da Al Jazeera, Malek acusa o regime de Damasco de orquestrar tudo o que lhes foi mostrado. O ex-observador não hesita em classificar a missão como "uma farsa" e pior ainda.

"O que eu vi é um desastre humanitário. O regime não está a cometer apenas crimes de guerra mas uma série de crimes contra o seu povo", afirma Malek, acrescentando que viu "cenas de horror".

"Passei mais de 15 dias em Homs. Vi cenas de horror, corpos queimados. E não posso deixar a minha humanidade para trás nesse tipo de situação", afirma Malek na longa entrevista.

"Os snipers [atiradores furtivos] estão em todo o lado, a disparar contra civis. As pessoas estão a ser raptadas. Os prisoneiros são torturados e nenhum foi libertado", acrescenta, dizendo que os detidos alegadamente libertados nos dias seguintes à chegada da missão, foram pessoas reunidas à pressa nas ruas poucas horas antes.

Anwar Malek diz ainda que os carros armados permanecem nas ruas, tendo sido apenas camuflados e escondidos durante as visitas dos observadores e depois de novo reposicionados quando estes se foram embora.

Esta terça-feira soube-se que onze observadores foram atacados por uma multidão a semana passada, na cidade portuária de Latakia, e a reportagem da Al Jazeera mostra os estragos feitos aos veículos. Os observadores ficaram feridos "sem gravidade", afirmou a Liga Árabe.

400 mortos, Assad desafiador

 

Esta manhã o Presidente Bashar al-Assad apareceu de surpresa numa manifestação em seu apoio, em Damasco. As imagens foram transmitidas pela televisão pública.

Perante dezenas de milhares de pessoas, que o aplaudiram entusiasticamente, Al-Assad afirmou que o seu país "triunfará sem nenhuma dúvida da conspiração. A conspiração deles está próxima do fim, que será também o deles".

Al-Assad acusou esta terça-feira num discurso à nação "conspiradores internacionais" de "desestabilizar" a Síria.

No mesmo dia, horas depois, o Conselho de Segurança da ONU reuniu e fez um novo balanço da repressão de Damasco contra os manifestantes pró-democracia.

Segundo Susan Rice, embaixadora dos Estados Unidos na ONU, o sub-secretario geral da organização Lynn Pascoe, afirmou aos 15 membros do Conselho que, desde a chegada da missão dos observadores à Síria, já foram mortas mais de 400 pessoas, numa média de 40 por dia, um ritmo muito mais elevado do que o registado antes da presença dos observadores.

"É uma indicação clara que o governo da Síria, em vez de usar a oportunidade... para por fim à violência e cumprir todos os seus compromissos [com a Liga Árabe] está em vez disso a aumentar a violência", afirmou Rice.

A revolta contra o regime de Bashar al-Assad dura desde março de 2011 e já fez, segundo a ONU, mais de cinco mil mortos. O próprio regime de Damasco afirma que mais de dois mil homens das forças de segurança foram mortos na violência.

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