ONU rejeita associar-se a "deslocamento forçado" de palestinianos em Rafah (Gaza)

por Lusa

A Organização das Nações Unidas (ONU) rejeita "fazer parte do deslocamento forçado da população" em Rafah, indicou hoje o porta-voz do secretário-geral, repetindo que "não há nenhum lugar seguro" na Faixa de Gaza.

O primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, ordenou recentemente ao exército que preparasse uma ofensiva nesta cidade no sul de Gaza, onde, segundo a ONU, estão cerca de 1,4 milhões de palestinianos que fugiram da guerra entre Israel e o grupo islamita Hamas, que dura há quatro meses.

Netanyahu disse no domingo que Israel forneceria "passagem segura" para a população deixar a cidade, sem especificar onde poderiam refugiar-se no território devastado.

Questionado sobre a possível participação da ONU numa evacuação deste tipo, o porta-voz do secretário-geral da ONU, António Guterres, rejeitou fazer parte desse movimento forçado e insistiu no "total respeito pelo direito internacional e na proteção dos civis".

"Não faremos parte de um deslocamento forçado da população", disse Stéphane Dujarric, frisando que, "no estado atual das coisas, não há lugar seguro em Gaza".

"Há grandes desafios, a maioria das pessoas está no sul. (...) Não se pode mandar as pessoas de volta para zonas repletas de engenhos não detonados, já para não falar da falta de abrigo", declarou o porta-voz, na sua conferência de imprensa diária em Nova Iorque, referindo-se às zonas norte e centro deste território palestiniano.

Dujarric voltou a denunciar a insuficiência da ajuda humanitária que entra no enclave, alertando que os stocks atuais "poderão durar apenas alguns dias".

Na conferência de imprensa, o porta-voz reafirmou ainda a confiança de Guterres no líder da Agência das Nações Unidas para os Refugiados Palestinianos (UNRWA), Philippe Lazzarini, depois de Israel ter indicado que vários combatentes do Hamas usaram as instalações da agência no norte de Gaza.

"Lazzarini mantém o total apoio do secretário-geral", declarou Dujarric, após ter sido questionado sobre o pedido das autoridades israelitas para que o líder da UNRWA se demitisse.

O Exército israelita denunciou ainda que um túnel de 700 metros de comprimento e 18 metros de profundidade que passava por baixo da sede da UNRWA tinha a sua infraestrutura elétrica ligada às instalações da agência.

Numa mensagem publicada no sábado nas suas redes sociais, Lazzarini negou ter conhecimento desse túnel e disse que a organização inspecionou as instalações um mês antes dos ataques do Hamas em 07 de outubro.

Lazzarini deixou ainda claro que não recebeu qualquer comunicação oficial sobre as alegações das autoridades israelitas, acrescentando que não pode "confirmar ou comentar" a informação, uma vez que o pessoal da UNRWA deixou a sede em Gaza no dia 12 de outubro.

O conflito em curso entre Israel e o Hamas, que desde 2007 governa na Faixa de Gaza, foi desencadeado pelo ataque do movimento islamita em território israelita em 07 de outubro.

Nesse dia, 1.139 pessoas foram mortas, na sua maioria civis mas também perto de 400 militares, segundo os últimos números oficiais israelitas. Cerca de 240 civis e militares foram sequestrados, com Israel a indicar que 134 permanecem na Faixa de Gaza.

Em retaliação, Israel, que prometeu destruir o movimento islamita palestiniano, bombardeia desde então a Faixa de Gaza, onde, segundo o governo local liderado pelo Hamas, já foram mortas pelo menos 29.000 pessoas -- na maioria mulheres, crianças e adolescentes -- e feridas mais de 67.000, também maioritariamente civis.

As agências da ONU indicam ainda que 156 funcionários foram mortos em Gaza desde 07 de outubro.

A ofensiva israelita também tem destruído a maioria das infraestruturas de Gaza e perto de dois milhões de pessoas foram forçadas a abandonar as suas casas, a quase totalidade dos 2,3 milhões de habitantes do enclave.

A população da Faixa de Gaza também se confronta com uma crise humanitária sem precedentes, devido ao colapso dos hospitais, o surto de epidemias e escassez de água potável, alimentos, medicamentos e eletricidade.

Desde 07 de outubro, pelo menos 392 palestinianos também já foram mortos pelo Exército israelita e por ataques de colonos na Cisjordânia e Jerusalém Leste, territórios ocupados pelo Estado judaico, para além de se terem registado 6.650 detenções e mais de 3.000 feridos.

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