Organização espera que se faça justiça em Timor-Leste para vítimas do Myanmar
O representante da Organização de Direitos Humanos do Estado de Chin, no noroeste do Myanmar, Salai Za Uk, afirmou hoje que tem a esperança de encontrar justiça em Timor-Leste para as vítimas da repressão naquele país.
"Viemos a Timor-Leste com esperança. Esperança de que, embora nos tenha sido negada justiça no nosso próprio país, possamos encontrar aqui algum sentido de recuperação", disse Salai Za Uk, numa declaração à imprensa, após um encontro com o Presidente timorense, José Ramos-Horta.
"Rezamos para que, tendo em conta a própria experiência de Timor-Leste e as profundas convicções cristãs deste país, este seja um lugar onde o nosso clamor por justiça seja ouvido e as nossas orações por responsabilização encontrem respostas", salientou o diretor da organização dos direitos humanos daquele estado do Myanmar.
A Organização dos Direitos Humanos do Estado de Chin e o Projeto de Responsabilização do Myanmar (MAP, sigla em inglês), associados a um escritório de advogados timorense, apresentou na terça-feira no Ministério Público, em Díli, uma queixa-crime contra os militares do Myanmar (antiga Birmânia) por crimes de guerra e contra a humanidade no estado de Chin, no Noroeste daquele país, com fronteira com a Índia e o Bangladesh.
Os dois organismos justificaram a escolha de Timor-Leste com base na jurisdição universal penal e pela confiança que têm no sistema de justiça timorense para de uma maneira isenta aplicar a lei.
"Hoje passámos mais de uma hora com o Presidente José Ramos-Horta, a informá-lo sobre as violações generalizadas e sistemáticas dos direitos humanos cometidas pela junta militar do Myanmar na minha terra natal, o estado de Chin, e em todo o país. As Nações Unidas descreveram esta situação como um reino de terror à escala nacional", afirmou Salai Za Uk.
Timor-Leste, nomeadamente o Presidente timorense, José Ramos-Horta, tem alertado sistematicamente para a violação dos direitos humanos naquele país membro da Associação das Nações do Sudeste Asiático (ASEAN), mas suspenso após o golpe.
Em outubro, mais de 30 organizações dos direitos humanos asiáticas e de outras regiões do mundo escreveram ao Presidente timorense a pedir para Timor-Leste usar a adesão à ASEAN, que se concretizou em outubro, para promover a responsabilização do Myanmar e encaminhar a situação para o Tribunal Penal Internacional, enquanto estado-parte daquela instituição.
Em fevereiro de 2021, os militares do Myanmar derrubaram o Governo eleito, dirigido por Aung San Suu Kyi, prémio Nobel da Paz, e mergulharam o país numa guerra civil.
Dados divulgados pela Organização dos Direitos Humanos do Estado de Chin referem que a Junta Militar realizou mais de mil ataques aéreos naquela região administrativa, que provocaram a morte a 478 civis, incluindo 91 mulheres e 79 crianças, e destruíram dezenas de unidades de saúde, escolas e edifícios religiosos.
Segundo a ONU, a violência no Myanmar já provocou milhares de mortos e provocou mais de 3,5 milhões de deslocados. Há cerca de 20 milhões de pessoas a necessitarem de ajuda humanitária.