Países em desenvolvimento precisam de dois triliões de dólares por ano para enfrentar crise climática

por Inês Moreira Santos - RTP
Bruno Kelly - Reuters

No âmbito da Conferência das Nações Unidas para as Alterações Climáticas (COP27), a ONU advertiu que para o mundo abrandar o aquecimento global e a emissão de gases de efeito de estufa, os países em desenvolvimento precisam de dois triliões de dólares por ano, até 2030. Para que os países menos desenvolvidos enfrentem a crise climática, deixem os combustíveis fósseis e invistam em energias renováveis, os mais ricos terão de contribuir com pelo menos um trilião anualmente, aponta a organização num relatório.

"O nosso mundo está em perigo: a crise climática está a acelerar. A ação atual é muito fraca e muito lenta e continuar a atrasar é perigoso", começam por alertar os especialistas no relatório, divulgado pela ONU.

Agir pelas alterações climáticas "é transformar as nossas economias, particularmente os nossos sistemas de energia, através do investimento em carbono zero, adaptação, resiliência e capital natural". Mas essa transição, segundo as Nações Unidas, requer "forte investimento e inovação" depois do "fracasso" das metas estabelecidas até 2020.

Por isso, o "mundo precisa de um avanço e de um novo roteiro para o financiamento climático que possa mobilizar um trilião de dólares por ano em financiamento externo, que será necessário até 2030 para mercados e países em desenvolvimento (EMDCs), excetuando a China".

Este é o investimento necessário, frisam no documeto, para que os países pobres possam abandonar os combustíveis fósseis, investir em energia renovável e noutras tecnologias de baixo carbono, para além de poderem enfrentar os impactos e consequências das alterações climáticas. Mas como indica o relatório divulgado na COP27, a decorrer no Egito esta semana, o valor deste financiamento é muito superior do que o investido em anos anteriores.

“Prevê-se que cerca de metade do financiamento necessário venha de fontes locais, do fortalecimento das finanças públicas internas e dos mercados de capitais, incluindo o acesso a grandes financiamentos que bancos nacionais podem mobilizar”, esclarece.

No entanto, é necessária ajuda externa e os países mais ricos, nomeadamento do hemisfério Norte, terão de contribuir com metade desse valor, todos os anos, até 2030.

Os países ricos devem reconhecer que é do seu interesse vital, bem como uma questão de justiça - devido aos graves impactos causados pelos altos níveis de emissões atuais e passadas - investir em ação climática em mercados emergentes e em países em desenvolvimento", escreveu no relatório Nicholas Stern, economista especialista em questões climáticas.
Ações urgentes

Os novos dados apresentados pela ONU na COP27, visam propor uma forma de financiamento para a ação climática, de maneira a garantir que "cobre as necessidades gerais da abordagem do Acordo de Paris e na UNFCCC".

"A maioria das ações deve começar agora", frisam as Nações Unidas. "É a ciência e a condição perigosa do mundo que define a urgência e o momento".

Segundo as conclusões do relatório, a maior parte do crescimento em infraestrutura e do consumo de energia projetado para a próxima década será em mercados emergentes e em países em desenvolvimento. E , se estes continuarem dependentes de combustíveis fósseis e não abrandarem as emissões poluentes, "o mundo não será capaz de evitar alterações climáticas perigosas", que vão afetar milhares de milhões de vidas e "meios de subsistência tanto em países ricos como em países pobres".

A ONU relembra que financiar o crescimento económico em baixo carbono em países pobres pode ajudar também a tirar milhões de pessoas da pobreza, a criar empregos e a reduzir as emissões de gases de efeito estufa.

E, para ajudar os países mais vulneráveis a enfrentar os efeitos da crise climática, este valor pode contribuir para o investimento na construçõ de "infraestruturas mais robustas, proteções como diques e sistemas de alerta". Em casos de danos e perdas mais graves, este dinheiro pode ajudar a resgatar pessoas em perigo, recuperar algumas infraestruturas civis essenciais e a "reparar o tecido social", através da reconstrução de serviços de saúde ou escolas.

"É necessário um grande investimento para impulsionar uma recuperação forte e sustentável das crises atuais e recentes, transformar o crescimento económico e cumprir metas compartilhadas de desenvolvimento e clima, em particular as acordadas nas COP 21 e 26".

Esta análise de 100 páginas, "Finance for Climate Action", foi apresentada como um plano de investimento para tornar a economia global mais verde com rapidez suficiente para atender às metas do Acordo de Paris.

O relatório está, aliás, entre os primeiros a mapear o investimento necessário nas três grandes áreas das negociações climáticas da ONU: a redução das emissões de gases de efeito estufa; a adaptação aos efeitos climáticos futuro; e a compensação dos países pobres e vulneráveis pelos danos inevitáveis já registados.

“Isso significa que os países devem ter acesso a financiamento acessível e sustentável de baixo custo dos bancos multilaterais de desenvolvimento para ajudar a atrair investimentos do setor privado e para apoiar a transformação energética, garantir resiliência e proteger o capital natural”, disse Vera Songwe, uma das co-autoras do estudo.

“O financiamento por si só não é suficiente e deve ser combinado com os instrumentos certos e boas políticas para acelerar e ampliar o impacto".
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