Palestinianos assassinados. Investigações sem fim ou sem início?

Palestinianos assassinados. Investigações sem fim ou sem início?

A BBC Verify identificou 254 incidentes em que as forças militares de Israel foram acusadas de matar ou ferir pessoas em Gaza, no Líbano, na Cisjordânia ocupada e em Israel. De acordo com as Forças de Defesa de Israel, estes casos estavam a ser investigados. No entanto, não são conhecidos quaisquer resultados dessas investigações. Alguns dos incidentes remontam ao final de 2023.

Cristina Santos - RTP / Adicionar como fonte informativa
arquivo (via AFP)

Das 254 situações analisadas, mais de metade (158) ocorreram em Gaza, 48 na Cisjordânia e 32 no Líbano. Outros 16 ocorreram em Israel ou em locais de detenção das Forças de Defesa de Israel (FDI). Em mais de 200 destes casos registou-se, pelo menos, uma morte. Todos decorreram entre 7 de outubro de 2023 e 19 de agosto de 2026.
A BBC Verify contactou várias vezes as IDF para saber em que ponto estavam as averiguações ou se já haveria conclusões. 

Só foi possível obter informações sobre dois incidentes que ainda estão em análise. 

"As IDF tratam com a máxima seriedade qualquer alegação ou relato que suscite preocupações sobre condutas que possam ser incompatíveis com a lei ou com as orientações das FDI", afirmou a instituição em comunicado.

Um dos episódios mais mortais envolveu um ataque a uma escola em Gaza. Aconteceu em agosto de 2024 e pelo menos 93 pessoas foram mortas, incluindo seis mulheres e 11 crianças. 

Vídeos das consequências do ataque, verificados pela BBC, mostram uma nuvem de pó enquanto as equipas de resgate tentam avançar por entre pequenos focos de incêndio, escombros e partes de corpos espalhadas pelo chão. Os especialistas afirmaram à BBC Verify que fragmentos de munições encontrados no local correspondem aos de uma GBU-39, uma bomba de precisão fornecida pelos Estados Unidos às forças militares de Israel.
Na altura, as Forças de Defesa de Israel (FDI) afirmaram que um centro de comando e controlo do Hamas estava instalado no edifício da escola e que os soldados das FDI mataram 31 combatentes. 

Acrescentaram que, de acordo com uma "análise inicial", o número de vítimas não correspondia com a informação de que as IDF dispunham, nem com o tipo de munições utilizadas e a precisão do ataque. Mais de dois anos depois, os militares de Israel dizem que o ataque à escola continua sob análise.
A BBC Verify lembra outros dois casos que suscitaram muita atenção pública. Um dos casos envolve a morte de uma menina, Hind Rajab, de cinco anos e a outra situação refere-se à morte de 15 profissionais de emergência do Crescente Vermelho Palestiniano. Os 15 foram atingidos, alegadamente a curta distância, por mais de 100 disparos.
O comando militar das IDF fez saber que os dois inquéritos foram elevados ao nível de investigações criminais. Resultado das investigações? Desconhece-se.

Um outro exemplo é destacado neste artigo da BBC Verify. Em dezembro de 2023, dois meses após o início da guerra, duas mulheres foram mortas pelas tropas israelitas na única igreja católica de Gaza. 

Mãe e filha foram mortas por disparos de um sniper dentro das instalações da Igreja da Sagrada Família, em Gaza, segundo o Patriarcado Latino de Jerusalém. As Forças de Defesa de Israel asseguraram então que o caso ia ser investigado. 

Em setembro de 2025, a BBC Verify solicitou uma atualização sobre a investigação e foi informada de que o “incidente ainda estava a ser analisado”. Agora, quase três anos após a morte de Nahida e Samar, as FDI voltaram a afirmar que o caso está sob análise.
"Os incidentes complexos podem exigir um tempo considerável para a recolha, o cruzamento de dados e a verificação das informações factuais relevantes", refere a resposta dos militares.

"As IDF não encurtam nem deixam de realizar procedimentos de exame ou investigação para cumprir prazos externos", acrescentam as Forças de Defesa de Israel.

As Forças de Defesa de Israel garantem ainda que, durante a guerra, adotaram medidas disciplinares em dezenas de casos contra soldados, incluindo o afastamento das posições de combate e do serviço na reserva.

Dados obtidos via Lei de Acesso à Informação pela Yesh Din, um grupo israelita de defesa dos direitos humanos, revelaram que, entre outubro de 2023 e agosto de 2024, pelo menos 1.456 incidentes relacionados com Gaza foram encaminhados para o Mecanismo de Averiguação de Factos (FFAM, na sigla em inglês). Doze destas análises foram concluídas e remetidas para o Gabinete do Procurador-Geral Militar (MAG Corps), sendo que duas delas resultaram em investigações criminais.
Um dos investigadores da Yesh Din (grupo israelita de defesa dos Direitos Humanos) afirmou à BBC Verify que as FDI tentam frequentemente "prolongar" as investigações. "Procuram estender estes processos ao ponto de as pessoas esquecerem o sucedido e perderem o interesse pelo assunto".
Por norma, os resultados das investigações militares das Forças de Defesa de Israel não são tornados públicos, incluindo os que levam à abertura de inquéritos criminais contra os seus soldados.

No entanto, em determinadas situações, os militares só anunciaram a abertura de investigações depois de terem sido contactados pela BBC Verify ou por outros órgãos de comunicação social.
O que é a BBC Verify?
É uma equipa especializada da BBC News (lançada em maio de 2023) dedicada ao combate à desinformação, à confirmação de factos e à análise de conteúdos digitais.
A equipa é composta por cerca de 60 jornalistas de investigação, analistas de dados e especialistas em verificar a veracidade de vídeos, fotografias ou declarações públicas.
A BBC Verify utiliza imagens de satélite, análise forense de vídeo, ferramentas de geolocalização e cruzamento de dados para separar factos de notícias falsas. 

São dois os objetivos da equipa: dizer se uma notícia é verdadeira ou falsa e mostrar ao público como chegou a essa conclusão (mostram e explicam o "como" dos bastidores da reportagem).
Os conteúdos são publicados em várias plataformas da BBC.
Como é que a BBC Verify chegou a estes 254 casos?
Foram reunidas 61 mil reportagens da BBC News e da Reuters que mencionavam Gaza, a Cisjordânia ou o Líbano, publicadas entre 7 de outubro de 2023 e 19 de agosto de 2026.

Com a ajuda de um motor de busca baseado em IA que desenvolveram foi possível identificar quase 5.000 reportagens. Cada uma delas foi verificada pelos repórteres da BBC Verify que excluíram as que não cumpriam os critérios mencionados. 

Após essa análise manual e com nova ajuda da IA, os relatos foram agrupados em incidentes distintos com base na data de publicação, na data do incidente, na localização e no número de pessoas feridas ou mortas. De seguida, houve nova verificação manual para perceber se cada relato tinha sido atribuído ao grupo correto, chegando a um total de 300 incidentes distintos.
Cada um destes incidentes foi verificado manualmente com os registos da BBC Verify e comparado com a reportagem original da BBC News ou da Reuters.

Os detalhes de cada caso foram partilhados com as Forças de Defesa de Israel (FDI) e foi solicitada informação sobre em que ponto estava a investigação de cada caso. As FDI não responderam se alguma destas investigações tinha sido concluída.

Para cada incidente foi também procurada informação no site das Forças de Defesa de Israel e “encontrámos evidências de que 28 casos foram encerrados, com base em declarações que detalhavam as conclusões ou indicavam que não seriam tomadas mais medidas”.

“Em relação a outros 18 incidentes não ficou claro se a investigação tinha sido concluída.”

Desta forma, restaram pelo menos 254 incidentes que as FDI afirmaram estar a investigar. No entanto, a BBC Verify não encontrou qualquer conclusão das Forças de Defesa de Israel.

A BBC Verify admite que “é provável que existam outras investigações sobre incidentes envolvendo danos que não foram captadas na nossa pesquisa.”
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