Papa defende solução de dois Estados para conflito israelo-palestiniano

O Papa Bento XVI marcou esta segunda-feira os primeiros momentos de uma visita de cinco dias a Israel e à Cisjordânia com a defesa da coexistência entre israelitas e palestinianos "nos seus respectivos países". O Sumo Pontífice da Igreja Católica falou depois aos anfitriões do Estado hebraico, a quem prometeu "honrar a memória" dos seis milhões de judeus vítimas do Holocausto.

RTP /
Bento XVI, com 82 anos, é o terceiro Papa a deslocar-se à Terra Santa depois de Paulo VI, em 1964, e João Paulo II, em 2000 Avi Ohayon, EPA

Sessenta mil efectivos das forças de segurança estão distribuídos pelo itinerário da comitiva papal em território israelita. Durante os próximos cinco dias, Bento XVI vai cumprir um trajecto de "oração pela paz" que o levará de Telavive a Jerusalém, com passagens por Nazaré e Belém, em território governado pela Autoridade Palestiniana. O memorial do Holocausto Yad Vashem, o Muro das Lamentações e a Esplanada das Mesquitas são alguns dos cenários reservados para a missão do Vaticano.

O dispositivo implementado pelas autoridades do Estado hebraico parece ilustrar o desconforto que a presença de Bento XVI está a alimentar entre os círculos mais ortodoxos. É o caso do partido Shass: os quatro ministros fornecidos pela formação ultra-ortodoxa ao Governo do "falcão" Benjamin Netanyahu recusaram-se a marcar presença na sessão de boas-vindas prevista para a residência oficial do Presidente israelita, evocando o passado de Joseph Ratzinger na Juventude Hitleriana.

Por sua vez, o presidente do Knesset (Parlamento israelita) optou por limitar o contacto com o Papa à cerimónia prevista para memorial Yad Vashem.

A "face repugnante" do anti-semitismo

À chegada ao Aeroporto Ben Gurion, nas proximidades de Telavive, o Papa procurou esvaziar os argumentos dos seus críticos, dedicando parte da primeira intervenção em solo israelita a uma condenação do anti-semitismo. Um fenómeno, sublinhou Bento XVI, que "continua a revelar a sua face repugnante em várias partes do Mundo" e que "é totalmente inaceitável".

"O povo judaico experimentou tragicamente as terríveis consequências ideológicas que negam a dignidade fundamental de toda a pessoa humana", afirmou Bento XVI.

"É justo e oportuno que, durante a minha estada em Israel, possa ter a possibilidade de honrar a memória dos seis milhões de judeus vítimas da Shoah e de orar para que a humanidade não volte a ser testemunha de um crime de tais dimensões", antecipou.

Dois Estados

Antes de abordar o helicóptero que o transportou a Jerusalém, o Sumo Pontífice não deixou de tocar na ferida aberta do conflito entre israelitas e palestinianos. Em rota de colisão com a via preconizada pelo novo Executivo de direita liderado pelo Likud, o Papa fez a apologia de uma fórmula de paz que passe pela instauração de um Estado palestiniano.

"Apelo, com todos os responsáveis, a um exame de cada uma das vias possíveis para uma resolução justa para as dificuldades consideráveis, de modo a que ambos os povos possam viver em paz nos seus respectivos países, em fronteiras seguras e internacionalmente reconhecidas", vincou Bento XVI perante o Presidente de Israel, Shimon Peres, e o primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu.

O processo de paz no Médio Oriente estivera já presente nas palavras deixadas pelo Papa na Jordânia, a primeira escala do périplo. Mas é em Israel que o titular do trono de Pedro arrisca mais.

"Não há lugar para entusiasmo"

A 12ª missão internacional do pontificado de Bento XVI acontece menos de cinco meses após a ofensiva militar israelita contra o Governo pária da Faixa de Gaza, que se saldou em mais de 1.400 mortos. Decorre, também, à sombra de um conflito político, ideológico e religioso entre a Santa Sé e Israel a propósito do recuo do Vaticano na excomunhão do bispo tradicionalista Richard Williamson, que negou o Holocausto.

Outro dos pontos de fricção é a eventual beatificação do Papa Pio XII - defendida por Bento XVI -, que boa parte da classe política israelita afirma premiar um rosto da omissão diante do genocídio de assinatura nazi. Aryeh Eldad, um deputado da União Nacional citado pela France Presse, resumiu o mal-estar: "Não há lugar para entusiasmo ou certamente para prostração perante este Papa, que relançou o processo de beatificação de Pio XII".

As críticas a Bento XVI são também lançadas a partir de Gaza, onde os islamistas do Hamas antevêem que o Papa acabe por "embelezar a imagem da ocupação" e "enfraquecer as hipóteses de ver os dirigentes [israelitas] julgados por crimes de guerra".

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