Parlamento da Grécia aprova resgate com três frentes de batalha

Parlamento da Grécia aprova resgate com três frentes de batalha

Horas sem fim de guerrilha político-partidária em Atenas, um Eurogrupo sombrio e um credor, o FMI, a condicionar o seu envelope a um alívio de dívida de que Berlim nem quer ouvir falar. Graças à oposição, o Parlamento de Atenas aprovou esta sexta-feira o acordo técnico para o terceiro resgate da Grécia. Mas a vida do Governo de Alexis Tsipras está distante da paz.

Carlos Santos Neves - RTP /
As bancadas da oposição garantiram a Alexis Tsipras a fasquia de 151 votos para ver aprovado o terceiro resgate financeiro da Grécia Christian Hartmann - Reuters

Entre as paredes do Parlamento grego, foi das bancadas da oposição – os conservadores da Nova Democracia, os socialistas do PASOK e o To Potami, de centro-esquerda – que Alexis Tsipras colheu os votos necessários para ver aprovado o acordo técnico com os credores. Tal como no passado recente.O terceiro programa de resgate da Grécia compreenderia um empréstimo de 85 mil milhões de euros a três anos, com um primeiro envelope de 20 mil milhões a entrar a breve trecho nos depauperados cofres públicos de Atenas.

Em duas votações sobre o plano de resgate realizadas em julho, o primeiro-ministro vira já desmoronar-se a maioria parlamentar formada pelo Syriza e pelos parceiros de coligação, os Gregos Independentes.

As quatro centenas de páginas de duras medidas de austeridade e ambiciosas metas orçamentais foram viabilizadas com 222 votos a favor, 64 contra e 11 abstenções numa câmara de 300 assentos. O projeto de lei precisava de 151 votos para vingar.

Foi acionada a luz verde do braço legislativo grego para o novo programa de resgate financeiro. Mas ganha cada vez mais força o cenário de eleições legislativas antecipadas no outono.

Pouco depois da votação, fonte do Executivo grego, citada pela Reuters, revelava a intenção, por parte do primeiro-ministro, de submeter aos deputados uma moção de confiança após o dia 20 de agosto. É nessa data que a Grécia tem de reembolsar o BCE em 3,4 mil milhões de euros.

A Nova Democracia já se apressou a deixar vincado que não votará pela sobrevivência do atual Governo. O polegar da direita voltar-se-á para o chão.
O filme de uma maratona
Amanhecer em Atenas. Os deputados gregos aproximavam-se da 24ª hora de sucessivas discussões dos termos do acordo técnico obtido com as missões dos credores internacionais. Fraturada, a bancada do Syriza, o partido de Tsipras, era um campo de guerra civil.

Opositora declarada do plano desenhado pelas equipas técnicas do Banco Central Europeu, do Mecanismo Europeu de Estabilidade, da Comissão Europeia e do Fundo Monetário Internacional, a presidente do Parlamento, ela própria uma das vozes da esquerda dita radical, mostrara-se sempre apostada em prolongar o debate até aos limites da resistência.A reunião dos ministros das Finanças da Zona Euro está prevista para o início da tarde.

Depois de se ter ausentado do plenário por algumas horas, Zoe Konstantopoulou regressaria aos trabalhos cerca das 6h00. Para dar o projeto de lei em discussão como “anticonstitucional”.

“Não defenderei mais o primeiro-ministro, que se juntou à lista dos primeiros-ministros dos planos de resgate da Grécia, atirando os seus camaradas aos cães”, disparava, no tom bélico que preponderou ao longo do debate.

Alexis Tsipras, por sua vez, dramatizava. Com o Eurogrupo à vista e a minutos da votação no Parlamento, o chefe do Executivo grego saía à liça, advertindo os deputados para as consequências de uma rejeição do acordo técnico.

A alternativa ao resgate, afirmava o ainda líder do Syriza, passaria por um empréstimo-ponte. O que “seria o regresso a uma crise sem fim”.
Semáforo alemão
Todavia, um empréstimo-ponte é precisamente o que a Alemanha prefere. Na antecâmara da reunião do Eurogrupo, o ministro alemão das Finanças, Wolfgang Schäuble, quis deixar claro que subsistem “questões” a esclarecer.

Há também um aviso do FMI. Na noite de quinta-feira, a instituição sublinhava que, embora tivesse participado na redação do acordo, só tomaria uma decisão sobre a respetiva fatia no financiamento do Estado helénico nas próximas semanas.

O Fundo reclama “decisões” por parte dos países europeus no sentido de um alívio da dívida pública grega, cujo rácio sobre o PIB ameaça atingir os 200 por cento, contra os atuais e já demasiado elevados 170 por cento.

Uma posição que não deixará de embaraçar a linha mais dura do Eurogrupo, com a Alemanha na ponte de comando: firme adversária de qualquer forma de haircut, Berlim tem também feito finca-pé na necessidade de o FMI ter um papel no programa.
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