Passagem de vasos de guerra da China por Taiwan ensombra reunião de Tsai e McCarthy

O presidente da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos, Kevin McCarthy, reuniu-se na quarta-feira com a presidente de Taiwan, Tsai Ing-Wen. Horas antes do encontro em Los Angeles, uma frota da marinha chinesa, liderada pelo porta-aviões Shandong, passou perto da ilha reivindicada por Pequim.

Cristina Sambado - RTP /
As manobras chinesas continuam perto de Taiwan Ministro da Defesa do Japão via Reuters

A passagem dos navios foi registada a cerca de 400 quilómetros a sul da ilha. A China considera qualquer contacto oficial entre líderes de Taiwan e autoridades estrangeiras como uma violação da soberania.

Em comunicado, o Ministério da Defesa de Taiwan indicou que o porta-aviões Shandong foi detetado a passar pelo canal Bashi, entre Taiwan e as Filipinas, em trânsito para o Pacífico oriental, onde deve iniciar as primeiras manobras de longo alcance.

Além do porta-aviões, o Ministério da Defesa de Taiwan revelou que foram também detetados “um helicóptero antissubmarino do Exército Popular da Libertação (EPL) e três navios”. O Shandong é o segundo porta-aviões da China, o primeiro fabricado internamente, e entrou o ano passado em serviço.

"As Forças Armadas monitorizaram a situação e encarregaram um avião da Patrulha de Combate Aéreo, navios da marinha e sistemas de mísseis terrestres de responder a estas atividades", acrescenta o comunicado.

As autoridades de Taipé denunciaram também uma “operação especial de patrulha”, anunciada esta semana pelo exército chinês, nas águas do estreito de Taiwan.
A China considera que a ilha democrática e autónoma de Taiwan é uma das suas províncias a ser retomada, favorecendo a "reunificação pacífica", mas não excluindo o uso da força.


Taipé descreveu as ações chinesas como um “comportamento impróprio de um país moderno e responsável”, adiantou a agência de notícias oficial taiwanesa CNA.

O Taipei Mainland Affairs Council (MAC), principal órgão de decisão política da ilha autónoma em relação à China, acusou Pequim na quarta-feira de "obstruir o comércio" no estreito de Taiwan através da realização de inspeções no local a navios de carga e de passageiros.

"A ação do lado chinês agrava deliberadamente as tensões entre os dois lados do estreito", frisou o MAC.


"Trata-se de uma violação flagrante do acordo de navegação entre os dois lados do estreito e das práticas marítimas, que terá um impacto negativo significativo no tráfego normal entre os dois lados do estreito", considerou Taiwan.Pequim prometera resposta determinada
Na manhã de quarta-feira, a China já tinha prometido uma resposta determinada à reunião nos Estados Unidos entre a Presidente de Taiwan, Tsai Ing-wen, e o presidente da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos, Kevin McCarthy.

"Em resposta aos atos de conluio seriamente erróneos entre os Estados Unidos e Taiwan, a China tomará medidas determinadas e eficazes para salvaguardar a soberania nacional e a integridade territorial", revelou o Ministério das Relações Exteriores da China, em comunicado divulgado pela agência Xinhua.

O anúncio das autoridades chinesas chegou na altura em que o presidente francês, Emmanuel Macron, se encontra em Pequim para um encontro com o seu homólogo Xi Jinping. O Governo chinês, através do Ministério, pediu a Washington que "pare de seguir um caminho errado e perigoso".

A China considera qualquer reunião entre líderes taiwaneses e estrangeiros como uma violação da soberania, que reivindica, sobre a ilha.

Em agosto de 2022, a China lançou manobras militares sem precedentes em torno de Taiwan, quando a antecessora de McCarthy, na Câmara dos Representantes, a democrata Nancy Pelosi, visitou a ilha.

O Ministério chinês dos Negócios Estrangeiros comparou a reunião entre Tsai e McCarthy em solo norte-americano a "atos de conluio gravemente equivocados" entre Washington e Taipé, de acordo com uma declaração.

China e Taiwan vivem como dois territórios autónomos desde 1949, altura em que o antigo governo nacionalista chinês se refugiou na ilha, após a derrota na guerra civil frente aos comunistas. Pequim considera a ilha parte do seu território e ameaça a reunificação através da força, caso Taipé declare formalmente a independência.

Em nome do princípio "uma só China", nenhum país deve ter laços oficiais com Pequim e Taipé ao mesmo tempo.Apoio “inabalável” e mais cooperação com Taiwan
O líder da maioria republicana na Câmara dos Representantes disse na quarta-feira que o Congresso norte-americano está comprometido com um apoio “inabalável” a Taiwan e com o reforço da cooperação económica e venda de armas à ilha reclamada pela China.

Tivemos hoje uma discussão muito produtiva com a Presidente de Taiwan”, afirmou Kevin McCarthy, numa conferência de imprensa à porta da Biblioteca Presidencial Ronald Reagan, perto de Los Angeles, rodeado de congressistas de ambos os partidos. Tsai Ing-wen foi recebida por Kevin McCarthy e uma comitiva bipartidária de congressistas que incluiu o democrata Pete Aguilar, o republicano Mike Gallagher e outros membros eleitos, numa reunião que enfureceu o regime chinês.

“Ficou claro que são necessárias várias ações”, acrescentou o líder republicano, enumerando os principais focos da reunião. “Temos de continuar as vendas de armamento e garantir que chega a Taiwan de forma atempada”, indicou.

Para o líder da Câmara dos Representantes a continuação de venda de armas a Taiwan é “a melhor maneira” de evitar uma invasão chinesa à ilha. “Esta é uma lição chave que aprendemos com a Ucrânia, que a ideia de meras sanções no futuro não irá deter ninguém”.


Kevin McCarthy defendeu ainda, “temos de fortalecer a nossa cooperação económica, em particular no comércio e tecnologia, e temos de continuar a promover os nossos valores partilhados no cenário mundial”.

Esses valores são o desejo de viver em “paz, liberdade e democracia”, partilhados pelos povos dos Estados Unidos e de Taiwan e fundamentais na ligação entre ambos.

“O apoio da América ao povo de Taiwan vai manter-se resoluto, inabalável e bipartidário”, sublinhou McCarthy.

Um dos pontos mais repetidos nas declarações à imprensa no rescaldo da reunião foi a natureza consensual e bipartidária deste encontro, numa altura em que a polarização política nos Estados Unidos está agudizada.

O congressista democrata Pete Aguilar frisou que a intenção é “trabalhar juntos para promover os interesses comuns” e referiu que disse à presidente Tsai Ing-wen que “os democratas nunca vão abandonar o relacionamento” próximo com Taiwan, sublinhando que o grupo representativo do Congresso não deseja acicatar um conflito com a China. Esta foi a primeira vez que um líder da Câmara dos Representantes recebeu oficialmente a presidente de Taiwan em solo norte-americano desde que as relações diplomáticas foram extintas, há 44 anos.

O presidente da Câmara dos Representantes sublinhou ainda que a intenção não é escalar a tensão entre os EUA e a China, defendendo que a reunião contribuiu para a paz.


“A minha primeira mensagem para a China é que não há necessidade de retaliação”, afirmou McCarthy disse o líder da Câmara dos Representantes, referindo que não há alteração na política que os Estados Unidos têm seguido nas últimas décadas.

A presidente de Taiwan, Tsai Ing-wen, já tinha agradecido o apoio dos Estados Unidos no seu “trânsito” pela Califórnia.


“Para preservar a paz devemos ser fortes. Somos mais fortes quando estamos juntos”, afirmou Ing-wen aos jornalistas, ao lado de Kevin McCarthy.

Tsai Ing-wen vem de um partido tradicionalmente defensor da independência de Taiwan, algo considerado uma linha vermelha para o regime chinês.


Ing-wen, cuja chegada a Los Angeles levou a manifestações no aeroporto e no hotel onde está alojada, disse também que o apoio dos Estados Unidos mostra que a ilha não está isolada, desafiando a política de “Uma Só China” do regime de Pequim.

“Não estamos isolados, não estamos sós”, considerou.

Apenas 13 Estados ainda reconhecem Taiwan, incluindo Belize e Guatemala, países latino-americanos que Tsai visitou nos últimos dias para cimentar a relação com os poucos aliados oficiais, após uma primeira paragem em Nova Iorque.Tensão entre Washington e Pequim
Nos últimos anos, a relação entre a China e os EUA tem-se deteriorado, face a uma prolongada guerra comercial e tecnológica e diferendos em questões de Direitos Humanos, a soberania do Mar da China Meridional ou o estatuto de Hong Kong.

Os encontros entre a presidente de Taiwan e responsáveis norte-americanos são muito relevantes numa altura de escalada da tensão entre os Estados Unidos e a China. Com Tsai, Taipé aproximou-se de Washington.

Os Estados Unidos são o maior fornecedor de armas de Taiwan e seriam o principal aliado no caso de uma invasão chinesa.

Os EUA mantêm há muito tempo uma "ambiguidade estratégica" sobre a questão de Taiwan. Washington reconheceu Pequim desde 1979, mas continua a ser o mais poderoso aliado de Taiwan e o principal fornecedor de armas.

c/ agências

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