Pequim exige explicações para as mortes de turistas de Hong Kong
O desfecho do cerco policial de 12 horas, na capital das Filipinas, que redundou nas mortes de nove turistas oriundos de Hong Kong e do autor do sequestro do autocarro que os transportava está a acarretar danos para as relações diplomáticas entre os governos de Pequim e Manila. As autoridades chinesas mostram-se “chocadas” com a forma como as forças especiais filipinas actuaram e exigem uma “investigação completa ao incidente”.
O ministro chinês dos Negócios Estrangeiros, Yang Jiechi, já fez chegar o desagrado de Pequim, por telefone, ao homólogo filipino, Alberto Rómulo. O Governo chinês, refere uma nota do chefe da diplomacia de Pequim, "exige que o Governo filipino lance uma investigação completa ao incidente e informe a parte chinesa dos detalhes relacionados o mais depressa possível".
A posição de Pequim é sublinhada pela imprensa. Vários jornais de Hong Kong cobriram a negro as primeiras páginas das edições desta terça-feira. "Polícia filipina incompetente", lia-se esta manhã na primeira página do jornal Ming Pao Daily News. No Economic Journal, um editorial argumentava que, "claramente, se a polícia tivesse usado métodos de socorro mais decisivos e profissionais, talvez a tragédia sangrenta pudesse ter sido evitada".
Protestos em Hong Kong
Enquanto os jornais instam a uma revisão dos pressupostos de segurança na capital das Filipinas, o Consulado do país em Hong Kong transformou-se num ponto de convergência da ira. Numa manifestação pública pouco habitual na antiga colónia britânica, dezenas de manifestantes acusaram, em uníssono, o Governo das Filipinas de desrespeitar "a vida humana". As autoridades da Região Administrativa Especial emitiram mesmo um alerta destinado ao cancelamento de todas as deslocações às Filipinas.
Ao cabo de 12 horas de impasse, perante as câmaras de televisão, a Polícia filipina tomou o autocarro de assalto, abatendo Mendoza com um disparo na cabeça. Mas o antigo elemento das forças de segurança, que exigia ser reintegrado, havia já disparado contra os reféns. Oito deles morreram no interior do veículo. Uma turista ferida transportada para um hospital de Manila morreu esta terça-feira.
Em declarações à Associated Press, Agrimero Cruz, porta-voz da Polícia Nacional das Filipinas, garantiu que vai ser desencadeada uma "auditoria interna": "Vamos ver se o que fizemos foi o correcto. Claro que o que aconteceu esteve longe de ser o ideal. De todo o modo, estamos a felicitar os nossos efectivos porque, apesar da falta de equipamento, arriscaram as suas vidas".
Confrontado com a maior crise do seu curto consulado, que teve início em Junho, o Presidente filipino Benigno Aquino III admitiu que o sequestro acabou por comprovar a necessidade de melhorar o equipamento e a preparação das unidades policiais do país. "Como é que eu posso estar satisfeito quando há pessoas mortas?", desabafava ontem Aquino aos jornalistas.
Do optimismo ao descalabro
De acordo com a imprensa filipina, Rolando Mendoza fazia parte de um grupo de cinco operacionais da Polícia que haviam sido acusados de roubo, extorsão e ameaças gravosas, na sequência de uma queixa apresentada pelo gerente de um hotel de Manila. O autor da queixa alegou ter sido falsamente acusado de posse de drogas e pressionado a pagar luvas aos polícias.
Nas primeiras horas de negociação, as forças de segurança conseguiram convencer Mendoza a libertar nove reféns (seis turistas, um fotógrafo filipino e o seu assistente, da mesma nacionalidade). Quinze reféns ficaram para trás. A situação inverteu-se quando o sequestrador, que reivindicava a inocência, exigiu um documento a garantir uma revisão do seu processo judicial. Segundo o major Alfredo Lim, um antigo chefe da Polícia de Manila citado pela Associated Press, o comando regional chegou a assinar uma ordem de reintegração, de forma "a resolver a situação pacificamente". Todavia, o caos no trânsito da capital filipina atrasou a chegada do documento em quatro horas. Quando o papel chegou, Mendoza considerou-o insuficiente.
A Polícia fez uma primeira tentativa de abordagem depois de Mendoza ter disparado contra um atirador especial das forças de segurança. Pouco depois, o condutor do autocarro conseguiu escapar, dizendo às autoridades que o sequestrador havia disparado na direcção de reféns. Numa intervenção confusa, as forças especiais partiram os vidros do autocarro, entraram no veículo e abateram o antigo polícia, entre o fumo de granadas de gás lacrimogéneo. Oito reféns foram retirados com vida. A maior parte em choque.