Pivot da Globovisión acusa Chávez de querer monopolizar espaço informativo
A principal pivot da Globovisión, canal televisivo de notícias venezuelano, Gladys Rodríguez, disse à Lusa que "o fecho da RCTV representa mais um passo de Hugo Chávez rumo à monopolização do espaço informativo do país".
A jornalista, que é uma das personalidades mais conhecidas do universo mediático venezuelano, afirmou que os jornalistas do seu canal estão "activamente solidários com os colegas da RCTV (Rádio Caracas Televisión)".
"Sentimos sobre os nossos ombros o peso e a responsabilidade de sermos agora a única voz independente no espaço televisivo venezuelano", disse.
A jornalista acrescentou que a redacção da Globovisión não dá vazão às informações que lhe chegam sobre as manifestações em todo o país contra o fecho da RCTV, decidido pelo governo do Presidente Hugo Chávez e efectivado domingo.
"Tal é a quantidade de manifestações que ocorrem em todas as cidades do país por causa do encerramento da RCTV que não conseguimos dar vazão às informações que nos chegam a cada momento", disse Gladys Rodríguez, contactada pela Lusa, via telefónica.
O governo acusa a RCTV de ter estado envolvida no golpe de Estado de 2002 e de "envenenar" o público com telenovelas e desenhos animados, palavras do próprio Presidente Hugo Chávez.
Gladys Rodríguez afirmou-se "profundamente envolvida" na organização Jornalistas Unidos pela Liberdade de Expressão, criada depois do governo venezuelano ter anunciado a sua decisão de não revalidar a concessão da RCTV, impossibilitando a estação de emitir.
"É um movimento sem partido cuja única finalidade é defender a liberdade de informação. Somos totalmente independentes, não estamos ligados a quaisquer interesses políticos ou empresariais, apenas ao compromisso de defender a liberdade", afirmou.
A jornalista criticou os outros dois canais privados de televisão (Venevisión e Televen), que, com medo de que lhes aconteça o mesmo, têm vindo progressivamente a procurar agradar ao governo, evitando dar cobertura às manifestações que se sucedem por toda a Venezuela.
"É lamentável que, ao fechar o principal canal da Venezuela, criado há 53 anos, as outras televisões só vejam a oportunidade de crescer e hipotequem a isso o seu dever de informar", considerou a jornalista.
A concessão da RCTV caducou no último domingo e oito segundos depois do canal privado mais antigo do país ter deixado de emitir, começou a transmitir na mesma frequência um novo canal do Estado, denominado Televisora Venezolana Social (TVes).
Este acontecimento, embora já anunciado, originou uma onda de manifestações contra o encerramento do canal, o único que, a par da Globovisión, fazia oposição aberta ao governo de Chávez.
Desta vez, os protestos chegaram até às zonas mais pobres de Caracas, onde o governo de Chávez tem os seus mais dedicados apoiantes.
A RCTV era líder absoluta de audiências na Venezuela, com um share de 50 por cento, que chegava aos 85 por cento nas classes C, D e E (os mais pobres, que não têm TV por cabo em casa), às quais dirigia as suas emissões, dominadas pelos grandes programas de variedades e entretenimento, as telenovelas mais populares e a informação mais aguerrida.
A empresa, que emprega mais de 200 jornalistas, possui dois canais de rádio que continuam em funcionamento, um em Onda Média, exclusivamente dedicado à informação, outro em Frequência Modulada (FM), vocacionado para a juventude.
A RCTV detinha também 40 por cento do volume global de negócios do sector publicitário venezuelano, incluindo todos os suportes.
"Além de um atentado à liberdade de expressão que prejudica a sua imagem no país e no exterior, fechar a estação preferida do povo é um erro enorme de Chávez, que chocou muitos dos seus apoiantes, incluindo algumas figuras do regime", acrescentou Gladys Rodríguez.
A Globovisión está também na mira do governo de Chávez, cujo ministro da Informação, William Lara, apresentou uma queixa contra o canal na Procuradoria da República.
Na queixa, o ministro considerava que um vídeo de homenagem à RCTV difundido pela Globovisión continha violência subliminar, porque uma sequência, entre muitas outras, mostrava imagens do atentado contra o Papa João Paulo II, tendo por fundo musical a canção de Rubén Blades "Esto no termina aquí" (Isto não acaba aqui).
Na leitura do ministro, esta montagem de imagem e som configura "um apelo magnicida contra o Presidente Hugo Chávez".