Polícia volta a travar marcha contra abusos e detém ativistas em Luanda

A polícia angolana voltou hoje a impedir em Luanda uma marcha contra abusos a mulheres e crianças, disseram hoje ativistas, que pediram a libertação de organizadores e outros participantes, detidos no Largo do Mercado de São Paulo.

Lusa /

Mais de dez ativistas, entre os quais organizadores de marcha, foram detidos pela polícia angolana no Largo do Mercado de São Paulo, em Luanda, local onde a sociedade civil decidiu se concentrar para marcha que teria início às 13:00 (12:00), contaram os ativistas.

Desde as primeiras horas de hoje que o Largo do Mercado de São Paulo foi tomado pela polícia, que cercou o espaço com o seu efetivo e viaturas, inclusive a brigada canina, como foi constatado no local.

Alguns organizadores da marcha e demais ativistas acorreram ao local de concentração, mas foram impedidos de se concentrar pela polícia.

Timidamente, alguns ativistas apareceram no local para participarem da marcha, autorizada pelo Governo da Província de Luanda - após ser adiada no dia 03 de janeiro -, que, no entanto, decidiu alterar o percurso, propondo o itinerário Largo do Cemitério da Santa Ana até o Largo das Escolas, uma proposta recusada pela organização que decidiu manter a rota inicial (Largo do Mercado de São Paulo -- Largo das Heroínas).

A ativista Laurinda Conde disse à Lusa, na sexta-feira, que ponderaram alterar o final da marcha, mas que iriam manter o local de concentração (Largo do Mercado de São Paulo), negando qualquer afronta às autoridades.

Hoje, Laurinda Conde também foi detida pela polícia no referido largo, como contou à Lusa o ativista Jaime Mussinda "Jaime MC", que repudiou a atitude da polícia.

"Houve mais de 10 ativistas e cidadãos que participavam aqui na concentração e foram detidos, nomeadamente a Rosa Conde, (...) uma lista vasta de cidadãos que não usaram meios contundentes, o que fizeram unicamente é vir para o largo de concentração e exigir que o corpo da mulher seja respeitado e que o corpo da mulher não é um saco de pancadas", disse.

Para o ativista e membro do Movimento Cívico Mudei, o bloqueio da marcha e a detenção de ativistas é reflexo que o "Estado [angolano] está a combater quem quer dar dignidade ou apelar o respeito da dignidade da pessoa humana".

Manifestou-se ainda "indignação" pela postura das autoridades, referindo que se tratava de uma "manifestação pacífica", em obediência à Constituição angolana e à lei.

"Lamentavelmente a polícia, mais uma vez, em obediência às ordens unipessoais do Governo Provincial de Luanda, decidiu inviabilizar um ato pacifico que visava de certo modo chamarmos a razão e condenarmos qualquer tipo de violência contra a mulher", atirou.

A ativista Leila Futila, que também acorreu ao local da concentração, contestou igualmente a ação da polícia e pediu a libertação dos ativistas detidos. "Pedimos liberdade [aos ativistas detidos], porque há muitos bandidos que cometem injustiça, violadores das leis e do erário e pedimos liberdade", atirou.

E a ativista e especialista em direitos humanos, Flora Telo, considerou "absurda e insensível" a atitude das autoridades, por entender que o tema de abusos contra mulheres e crianças, "que se registam diariamente em Angola, deveria parar o país".

Afirmou que todos os dias crianças são abusadas sexualmente, exemplificando o caso da menor Delma, de 15 anos, cujo vídeo de agressão física e sexual foi partilhado nas redes sociais. E que a marcha visava também prestar solidariedade à menor.

Flora Telo lamentou ainda as detenções: "Até quando? Quem vai ser a próxima mulher a ser abusada sexualmente, quem vai ser a próxima criança a ser abusada sexualmente?", questionou.

Alguns ativistas ainda acorreram hoje ao Largo do Cemitério da Santa Ana, onde também se encontrava algum dispositivo da polícia.

A Lusa contactou o porta-voz do Comando Provincial de Luanda da Polícia Nacional, mas não obteve resposta.

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