"Prelúdio da escalada". Ministro israelita da Segurança Nacional vai à Esplanada das Mesquitas

por Cristina Sambado - RTP
Advogado, Itamar Ben Gvir tornou-se ministro em dezembro no Governo liderado por Benjamin Netanyahu Ammar Awad - Reuters

O ministro israelita da Segurança Nacional, um dos principais rostos da extrema-direita do Estado hebraico, visitou esta terça-feira a Esplanada das Mesquitas, local sagrado no centro das tensões em Jerusalém Oriental. Itamar Ben Gvir ignorou ameaças por parte do movimento palestiniano Hamas.

O nosso Governo não vai ceder às ameaças do Hamas”, afirmou Itamar Ben Gvir após o movimento que controla a Faixa de Gaza classificar a visita do ministro como “prelúdio para a escalada na região”.

Terceiro local mais sagrado do Islão e o local mais sagrado do judaísmo, o espaço também conhecido como Monte do Templo fica situado na Cidade Velha de Jerusalém, no sector palestiniano ocupado e anexado por Israel.

Em virtude do status quo histórico, os não-muçulmanos podem visitar o local em momentos específicos, mas não podem rezar ali. No entanto, nos últimos anos, um número crescente de judeus, sobretudo nacionalistas, têm-no feito, o que tem sido denunciado pelos palestinianos como uma "provocação".

Itamar Ben Gvir, que se deslocou várias vezes ao local como membro do Parlamento, anunciara a intenção de se deslocar à Esplanada das Mesquitas como ministro.

“É bom termos uma boa relação com o povo palestiniano”, afirmou.
A reação da PalestinaO primeiro-ministro palestiniano, Mohammad Shtayyeh, afirma que a visita de um ministro israelita de extrema-direita a um local sagrado e contestado em Jerusalém é uma tentativa de transformar uma grande mesquita “num templo judeu”.

Mohammad Shtayyeh apelou ainda aos palestinianos para realizarem “rusgas à mesquita de Al Aqsa”, depois do ministro da Segurança Nacional de Israel ter visitado a periferia do complexo da Esplanada das Mesquitas.

No entanto, Ben-Gvir não se aproximou da mesquita de Al Aqsa.


Braço-de-ferro
Em 2000, a visita de Ariel Sharon, então líder da oposição de direita israelita, foi vista pelos palestinianos como uma provocação. No dia seguinte, confrontos sangrentos entre palestinianos e polícias israelitas marcaram o início da segunda Intifada (sublevação palestiniana, 2000-2005).Em maio de 2021, a violência em Jerusalém Oriental, particularmente na Esplanada das Mesquitas, foi o prelúdio de uma guerra de 11 dias entre o Hamas e Israel.

"O Monte do Templo é o lugar mais importante para o povo de Israel. Mantemos a liberdade de movimento para muçulmanos e cristãos, mas os judeus também irão até ao Monte do Templo e aqueles que ameaçam devem ser tratados com mão de ferro", acrescentou Ben Gvir.

Advogado, Itamar Ben Gvir tornou-se ministro em dezembro no Governo liderado por Benjamin Netanyahu. Defende a anexação por Israel da Cisjordânia, onde vivem 2,9 milhões de palestinianos e 475 mil israelitas, em colonatos considerados ilegais, à luz do Direito Internacional.

Ben Gvir defende também a transferência de parte da população árabe de Israel, considerada desleal, para países vizinhos.

O novo ministro, que vive num dos locais mais radicais da Cisjordânia ocupada, vai frequentemente a locais onde as tensões são mais elevadas.“Declaração de guerra”

Antes da visita do ministro da Segurança Nacional de Israel à Esplanada das Mesquitas, a Autoridade Nacional Palestiniana (ANP) alertou que qualquer alteração na Esplanada das Mesquitas (Jerusalém) significaria uma “declaração de guerra” e denunciou os planos do novo Governo israelita de permitir que os judeus rezem no local.

O porta-voz da Presidência da ANP, Nabil Abu Rudeina, denunciou “as repetidas ameaças de mudar o status quo histórico da Mesquita de Al-Aqsa, pedindo permissão para celebrar orações e rituais judaicos, para construir uma sinagoga no quintal e direitos iguais para todas as religiões em Al-Aqsa”, segundo a agência de notícias palestiniana WAFA.

Abu Rudeina recordou ainda a “escalada [de violência] nos colonatos nos territórios palestinianos ocupados e as mortes diárias” e referiu-se, em particular, à morte de dois jovens em Kufer Dan numa operação das forças israelitas.

A ANP considera ainda que a deslocação de Itamar Ben Gvir, líder do Otzma Yehudit, pode levar ao aumento das tensões na zona, sobretudo em consequência da das ameaças lançadas nas últimas horas pelo Movimento de Resistência Islâmica (Hamas) e pela Jihad Islâmica.

O assessor pediu ainda a Washington para reagir, indicando que este caso será “o verdadeiro teste” à posição dos Estados Unidos “perante as práticas e políticas extremistas do Governo de Israel” e das resoluções da ONU, especialmente a que insta o fim dos colonatos e a de apoio à solução de dois Estados.

c/ agências
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