Presidenciais nos EUA: quem são os candidatos à Casa Branca?

Arranca esta segunda-feira o longo e complicado processo de eleição do novo Presidente dos Estados Unidos. A eleição geral com os dois candidatos só acontece a 8 de novembro, mas a luta interna entre republicanos e democratas começa a partir de agora a reunir todas atenções até julho, mês em que se realizam os respetivos congressos. Esta noite, no Iowa, decorre uma primeira etapa decisiva, o teste inicial aos candidatos anti-establishment das duas cores políticas.

Andreia Martins - RTP /
É o início de uma longa caminhada até aos Congressos nacionais dos dois partidos, marcados para julho deste ano. Jim Young - Reuters

It’s showtime. Todos os olhos estão postos em Des Moines e o dia é de grande entusiasmo, como bem demonstram alguns candidatos. Os resultados são completamente imprevisíveis nos dois partidos. Quando forem 19 horas (00h00 em Lisboa), começam os caucus republicano e democrata naquele pequeno e rural estado norte-americano, localizado no coração do país.
Reportagem de Márcia Rodrigues e Ricardo Guerreiro - RTP

Idiossincrática, peculiar e de uma forma geral pouco representativa do que acontece no resto do país, espera-se que os resultados obtidos na região de Iowa se repercutam em apoio dos eleitores e grandes investidores, essenciais no financiamento das campanhas.
Uma eleição em várias etapas
O método de eleição seguido pelos Estados Unidos é particularmente complicado. Os próprios partidos seguem caminhos diferentes na eleição do seu representante, com diferentes Estados a votarem em diferentes dias.
As eleições nos Estados Unidos realizam-se sempre em anos bissextos, na primeira terça-feira do mês de novembro.
Numa fase inicial, os dois principais partidos escolhem o seu representante por via de eleições primárias ou por caucus, mas a decisão final só é tomada nos respetivos congressos nacionais dos dois partidos, durante o mês de julho. São os delegados de cada partido, escolhidos durante os meses anteriores, que vão oficializar a escolha do candidato final. O candidato republicano terá de reunir 1.237 delegados, ao passo que o candidato democrata deve garantir o sentido de voto de pelo menos 2.383 delegados.

Nas eleições primárias, o universo eleitoral difere em cada região, com vários Estados a abrirem a votação a todos os que se inscrevam, independentemente do partido (eleições abertas) e outros a contarem apenas com os votos exclusivos de membros dos partidos políticos (eleições fechadas). Existem também eleições semi-abertas e semi-fechadas, em que o eleitor (militante ou não militante) pode escolher no ato do voto a eleição primária em que pretende participar. A primeira votação acontece a 9 de fevereiro, no Estado de New Hampshire.

A votação por caucus é tipicamente norte-americana. Surgiu pela primeira vez aquando da revolução contra o poder colonial britânico, no século XVIII. Atualmente, são dezasseis os Estados escolhem os seus candidatos desta forma. Tal como a votação, também pode assumir um cariz mais aberto ou fechado ao público.
O Congresso Nacional republicano começa a 18 de julho. Os democratas iniciam a escolha do seu candidato uma semana mais tarde, a 25 de julho.
Na corrida até às eleições de 8 de novembro deste ano, os resultados desta noite serão decisivos. Quando for 1 de março (o Super Tuesday, dia em que 13 diferentes Estados fazem a sua votação em simultâneo), espera-se um esboço mais claro destas eleições e o início de uma clara concentração de esforços nas duas candidaturas que têm mais hipóteses de levar o respetivo partido até à Casa Branca. As votações terminam em junho, no dia 7 para o Partido Republicano, e no dia 14 para o Partido Democrata.

Escolhidos os dois candidatos, entra-se em roda viva até novembro. Já estão garantidos pelo menos três debates entre os dois aspirantes a Presidente, que só deverá tomar posse para suceder a Barack Obama em janeiro de 2017.

Mas para já, o caucus do Iowa. Os dois partidos reúnem-se em históricas assembleias para escolher o candidato que apoiam. Estará sobretudo sob escrutínio a crescente popularidade e o aparente sucesso dos candidatos que fogem à regra dentro dos próprios partidos: Bernie Sanders e Donald Trump. Há um ano, este cenário era impensável e todos atribuíam a disputa final a Hillary Clinton e Jeb Bush, um confronto de "dinastias" com historial na Casa Branca. Mas, pelo que têm revelado sondagens e debates dos meses de pré-campanha, nada é certo e tudo pode ainda acontecer.
A escolha republicana
Para muitos analistas e entendedores da política no outro lado do Atlântico, as várias candidaturas republicanas são reveladoras de um partido fragmentado e sem rumo quanto às questões mais valorizadas pelo eleitorado norte-americano. Após as duas vitórias democratas sob a liderança de Barack Obama, houve um esforço de mudança e modernização em matérias como a economia e a imigração.

Jeb Bush foi o principal representante dessa tentativa gorada. Filho de George Bush e irmão de George W. Bush, o apelido soava familiar entre apoiantes e investidores de Wall Street, que apostaram desde logo no candidato, onde os oito anos de experiência enquanto governador da Florida também pesavam.

Mas a campanha apagada e a posição tímida nos vários debates da ala republicana deixou-o aquém dos melhores resultados. Nas sondagens, Bush luta há vários meses por voltar aos dois algarismos.

A sombra que paira sobre Bush é a mesma de que outros candidatos republicanos se poderiam queixar e que poucos viam como um problema, há apenas alguns meses: chama-se Donald Trump. O magnata norte-americano anunciou a candidatura em junho e desde então não tem dado descanso aos adversários.

Nova-iorquino e homem de negócios por natureza, é conhecido pela participação em reality shows na área do empreendedorismo e por deter várias empresas na área dos media.


Dave Kaup - Reuters

Com um vasto leque de declarações polémicas, quem lembra a campanha que Trump fez até aqui lembra também as ideias radicais de construir “um muro” ao longo da fronteira com o México, de onde chegam “criminosos e violadores”, a proibição de entrada no país de todos os muçulmanos, as ofensas aos candidatos do seu partido e do outro.

É este o candidato que lidera as sondagens há largos meses, muitas vezes com uma diferença destacada para com os restantes. Tão seguro, tão incontestável, que até se deu ao luxo de faltar ao derradeiro debate republicano, na semana passada, só porque “não gostava” da jornalista da Fox News. Sim, da conservadora Fox News.

Segundo os últimos resultados nível nacional, Donald Trump reúne 35,8 por cento da intenção de votos do lado republicano. Em Iowa, espera-se que o candidato obtenha 28,6 por cento.

Próximo destes resultados está apenas Ted Cruz, antigo senador do Texas, que também não seria a escolha predileta do establishment do partido.


Mary Schwalm - Reuters

Polémico e conservador, é o único candidato que tem sido capaz de fazer frente às investidas impiedosas do magnata nova-iorquino, em debates e em números (com 19,6 por cento a nível nacional e 23,9 em Iowa, onde tem disputado de forma acérrima a liderança nas sondagens). Nasceu no Canadá e chegou a ter dupla-nacionalidade, de que abdicou em 2014, enquanto preparava a sua candidatura.

Marco Rubio tem ocupado o terceiro lugar nas polls. Abrange um eleitorado semelhante a Cruz (ambos são filhos de pais imigrantes), mas sem conseguir marcar passo fora dessa mesma rivalidade direta. Há cinco anos senador do Estado da Florida, a sua candidatura conservadora perdeu força pela posição dúbia quanto à imigração.

Ainda do lado republicano, várias candidaturas mais discretas onde estarão alguns desistentes e futuros candidatos ao lugar de vice-presidente: Ben Carson, neurocirurgião de profissão, cujo momento mais marcante da campanha foi ter designado o programa de saúde Obamacare “o pior acontecimento desde a escravatura”; Chris Christie, um republicano moderado, advogado de profissão em Newark; Carly Fiorina, a única presença feminina entre os doze candidatos republicanos, mais conhecida por ter liderado as multinacionais Hewlett Packard e a AT&T; Mike Huckabee, antigo governador do Arkansas que repete a candidatura de 2008, e que apela sobretudo ao eleitorado mais religioso; Rand Paul, antigo senador do Kentucky, filho de Ron Paul, que também já tentou a sua sorte em várias eleições; Rick Santorum, cujo maior enfoque é a importância da família, a oposição ao aborto e ao casamento entre pessoas do mesmo sexo; e por fim, John Kasich, governador em Ohio e antigo membro do congresso, especialista questões de segurança nacional.
A resposta democrata
Do lado democrata, apenas três candidatos se mantêm na corrida ao congresso nacional. Hillary Clinton surge desmarcada nas sondagens e é a predileta à vitória, com 51,6 por cento a nível nacional e 47,9 por cento em Iowa.


Scott Morgan - Reuters

O seu vasto currículo explica o favoritismo. Primeira-Dama entre 1993 e 2001, não deixou a política só para o marido, o Presidente Bill Clinton, tendo sido senadora entre 2001 e 2009. Candidatou-se às eleições primárias do partido em 2008, mas acabou por perder para Barack Obama, a quem serviu como Secretária de Estado durante o primeiro mandato.

A atual candidatura era esperada e as principais bases do partido apoiam-na, não obstante a polémica com o uso do e-mail pessoal para assuntos de Estado ou a responsabilidade assumida pelas vítimas dos ataques em Bengazi, que tanto os adversários do partido como os republicanos têm conseguido capitalizar.

A complicar a campanha de Clinton, já prejudicada por estas duas 'pedras no sapato' que lhe custam a confiança de algum eleitorado, está um adversário que a candidata não esperava: Bernie Sanders.


Mary Schwalm - Reuters

O candidato de 72 anos, “socialista-democrata”, como o próprio se identifica, apela ao público jovem com a mensagem de igualdade económica e social, anti-Wall Street e contra o sistema económico vigente. Esteve mais de duas décadas no congresso norte-americano e tem conseguido uma aproximação notável aos resultados de Clinton. As últimas sondagens dão-lhe 37,2 por cento a nível nacional e 43,9 por cento em Iowa.

Ainda a registar a candidatura de Martin O’Malley, que foi elogiado pelas intervenções nos debates, mas cuja candidatura deverá morrer desde já no arranque das primárias.
Avanço dos radicais
Entre democratas e republicanos, há pelo menos este ponto comum: os candidatos suportados pelas máquinas partidárias e que costumam vencer as eleições primárias, para depois disputarem a eleição presidencial de novembro, estão ameaçados pelas alas mais radicais e populistas dos respetivos partidos.

O norte-americano The New York Times atribuía esta tendência a vários fatores: "os eleitores estão irados com o esvaziamento da classe média, a ganância de Wall Street e a influência corrupta do dinheiro na política. Estas questões levaram à emergência de dois insurgentes, que de alguma forma são dois lados opostos da mesma moeda".

Também a revista britânica The Economist se assumiu editorialmente “preocupada” com a ascensão de forças radicais no país, principalmente de Donald Trump. Refere que este movimento não surge isolado na política mundial e tem como comparações a viragem à esquerda do Partido Trabalhista britânico ou a extrema-direita em França, com o crescimento vertiginoso da Frente Nacional, entre outros exemplos.

"Tal como outros eleitores no Ocidente, os americanos estão irritados. (…). Na Europa, Trump e Sanders teriam os seus próprios partidos de protesto, que dificilmente chegariam ao poder. No sistema norte-americano, os dois candidatos foram engolidos pelos dois principais partidos", explica a publicação, numa leitura sobre o momentum das duas campanhas.
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