Presidente da Alemanha demite-se depois de ser alvo de críticas
O presidente da Alemanha demitiu-se esta segunda-feira, apanhando de surpresa a classe política e os comentadores. Horst Kohler anunciou a decisão de abandonar imediatamente o cargo depois de ter sido criticado, nas últimas semanas, por ter relacionado o envio de tropas para o estrangeiro com a defesa de interesses económicos.
No início do Maio Kohler tinha feito uma breve visita às tropas alemãs no Afeganistão, após o que deu uma entrevista a uma rádio. Na ocasião disse que para um pais que depende de exportações como a Alemanha, o envio de forças militares para o estrangeiro poderia ser "necessário para defender os nossos interesses, por exemplo, rotas comerciais livres"
O comentário foi entendido por muitos como uma alusão à missão das tropas alemãs no Afeganistão, a qual goza de grande impopularidade, embora o gabinete presidencial tenha depois clarificado que Kohler se pretendia referir, na verdade, às patrulhas anti-pirataria que marinha alemã está a fazer ao largo da costa da Somália.
Seja como for os comentários provocaram mal-estar entre os alemães que, por causa do passado militarista do país, continuam a ver com pouco entusiasmo tudo o que implique o envio de soldados para o estrangeiro.
Políticos da oposição pediram ao Presidente para que se retractasse e acusaram-no de prejudicar a aceitação das missões militares no exterior por parte do público .
"Mal-entendidos"
Ao anunciar a decisão de se demitir, Kohler disse: "lamento que os meus comentários sobre uma questão importante e difícil para a nossa nação tenham conduzido a mal-entendidos".
Entre as razões que Koehler citou para abandonar o cargo estava também o facto de alguns dos seus críticos o terem acusado de apoiar "Missões da Bundeswher [forças armadas] que não são cobertas pela Constituição".
"Essa crítica carece de qualquer base", afirmou Kohler numa declaração lida ao lado da sua mulher Eva Luise. "Também carece do necessário respeito pelo cargo presidencial", disse.
"Foi uma honra servir a Alemanha como Presidente Federal" acrescentou antes de abandonar o local sem responder a perguntas.
A demissão de Horst Koehler, que produz efeitos imediatos, tem lugar quando decorreu apenas um ano do segundo mandato presidencial.
O incidente está a ser visto como uma dor de cabeça para a chanceler Ângela Merkel que, em 2004, tinha proposto o antigo chefe do FMI para um primeiro mandato. Para lidar com a crise Merkel teve de cancelar uma visita que tinha previsto fazer à selecção nacional da Alemanha que se encontra a treinar em Itália para o Mundial.
Kohler, é membro do partido Democrata-Cristão da chefe de Governo. Por causa da demissão o actual presidente da câmara alta do parlamento, Jens Boehrnsen, pertencente à oposição social-democrata, deve temporariamente assumir as funções de Presidente Federal que consistem, basicamente, em assinar a legislação para a transformar em lei.
De acordo com a Constituição alemã, um novo Presidente Federal deve ser eleito no prazo de 30 dias. Um contratempo imprevisto na agenda politica, no momento em que os partidos estão a braços com a necessidade de efectuar cortes orçamentais, para lidar com a crise da Zona Euro.
Na Alemanha o cargo de Presidente é, em grande medida, cerimonial, com o incumbente a agir de acordo com os conselhos e directivas da legislatura
A eleição é indirecta e o Presidente Federal é escolhido pela "Convenção Federal, um organismo estabelecido unicamente para esse fim que integra todos os deputados do parlamento federal e um igual número de delegados, nomeados pelos parlamentos regionais dos 16 Länder do país.