Presidente da Mauritânia deposto em golpe de Estado

O Presidente e o primeiro-ministro da Mauritânia foram detidos na sequência de um golpe de Estado levado a efeito pela guarda presidencial do país. O golpe foi liderado pelo chefe do Estado-Maior e comandante da guarda presidencial, que havia sido demitido das suas funções por decreto do Chefe de Estado.

Carlos Santos Neves, RTP /
Militares estão posicionados nos edifícios da Presidência e da rádio e da televisão estatais Ahmed El Hajj, EPA

Menos de um ano e meio depois das eleições que levaram Sidi Ould Cheikh Abdallahi à Presidência da Mauritânia, a cúpula do sistema político do país é decapitada por um golpe militar. O Presidente Abdallahi e o primeiro-ministro, Yahya Ould Ahmed Waqef, foram detidos esta quarta-feira, na capital Novakchott, por membros da guarda presidencial.

Na base do movimento golpista está a demissão, por decreto presidencial, do chefe do Estado-Maior e comandante da guarda presidencial, o general Ould Abdel Aziz.

“O general Ould Abdel Aziz, chefe do Estado-Maior particular do Presidente e comandante da guarda presidencial, demitido das suas funções esta manhã, é o autor do golpe de Estado, em reacção à sua demissão”, adiantou um porta-voz da Presidência, em declarações à agência France Presse.

O Presidente da Mauritânia havia assinado, ao início da manhã, um decreto com vista a substituir três patentes na guarda presidencial, no Estado-Maior e na guarda nacional.

“Esses oficiais, três generais, recusaram obedecer à ordem presidencial e entraram em rebelião contra a ordem constitucional”, disse o porta-voz Abdoulaye Mahmadou Ba.

”Conselho de Estado”

Os oficiais golpistas anunciaram ao país o derrube do Governo e a chegada ao poder de uma junta militar encabeçada pelo general Ould Abdel Aziz.

A junta ganhou a designação de “conselho de Estado”.

Foram ainda revogadas as nomeações do Presidente Abdallahi. Num comunicado reproduzido perante as câmaras da televisão estatal pelo ministro da Comunicação, Abdellahi Salem Ould El Moualla, os generais responsáveis pelo golpe declaram “nulas e sem efeito” as nomeações do Chefe de Estado.

Crise política

Apesar do movimento de tropas na capital da Mauritânia, a situação permanece calma e não há relato de qualquer disparo. Os militares encontram-se posicionados perto dos edifícios da Presidência e da rádio e da televisão estatais.

As emissões da rádio e da televisão estiveram interrompidas durante algumas horas.

A Mauritânia, país desértico e onde grassa a pobreza, vive actualmente uma crise política marcada pela dissensão entre o Presidente e a sua própria formação política, o Pacto Nacional para a Democracia e o Desenvolvimento (PNDD).

Na segunda-feira, 25 deputados e 23 senadores anunciaram a sua demissão do PNDD.

O deputado Sidi Mohammed Ould Maham, porta-voz dos parlamentares demissionários, já veio dizer que o Presidente está a colher os frutos “das suas más decisões”.

“O Presidente não fez mais nos últimos tempos do que bloquear o funcionamento normal das instituições, nomeadamente do Parlamento, ao impedir uma sessão extraordinária que deveria tratar de questões importantes para o futuro do país”, afirmou Maham.

Portugueses devem recorrer à embaixada de França

Lisboa já aconselhou os portugueses que se encontrem na Mauritânia a recorrerem à representação diplomática francesa em Novakchott, caso precisem de apoio.

“A embaixada de Portugal em Dakar, Senegal, entrou em contacto com a embaixada francesa na Mauritânia, que é a que está melhor colocada no âmbito da União Europeia, a fim de acolher os portugueses que eventualmente necessitem de apoio”, adiantou o secretário de Estado das Comunidades, António Braga, citado pela Agência Lusa.

Portugal não tem representação diplomática na Mauritânia.
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