Presidente do Egipto apela ao diálogo e promete reformas

Num discurso televisivo, após promulgar a nova Constituição do Egipto, Mohammed Morsi afirmou que o país entra numa nova fase que deverá trazer nova segurança e estabilidade ao povo. O Presidente apelou ainda a oposição ao diálogo, de forma a sanar diferenças e a recentrar o debate nos problemas económicos, revelando estar a preparar um novo pacote de incentivos para os investidores.

Graça Andrade Ramos, RTP /
Ao promulgar a nova Constituição egípcia, o Presidente Mohammed Morsi prometeu remodelações se estas se revelarem necessárias Presidência Egípcia/EPA

"Vou investir todo o meu esforço no relançamento da economia egípcia, que enfrenta enormes desafios mas tem igualmente grandes oportunidades para crescimento e eu farei todas as alterações necessárias a este objetivo," prometeu Morsi.

"Os próximos dias irão ver, se Deus quiser, o lançamento de novos projetos e um pacote de incentivos para os investidores em apoio ao mercado egípcio e à economia", acrescentou Morsi.

"No momento em que entramos numa nova fase de uma primeira república para a segunda república, uma república que tem esta Constituição como sua base firme... eu renovo o meu juramento de que irei respeitar a lei e a Constituição", garantiu o Presidente do Egipto, repetindo sobre o novo documento as palavras da sua tomada de posse.

A Câmara alta do Parlamento egípcio, o Conselho da Shura, reuniu igualmente pela primeira vez esta quarta-feira, após a aprovação da Constituição. Dominado por islamitas liderados pela poderosa Irmandade Islâmica, o Conselho da Shura assume o poder legislativo do Egipto pela primeira vez em 32 anos.

Estão ainda previstas eleições legislativas dentro de dois meses, para eleger a Câmara baixa do Parlamento egípcio.
Apelo ao diálogo
O Presidente Mohammed Morsi apelou ainda a oposição ao diálogo, afirmando que o Egipto "não irá regressar aos dias em que só existia uma opinião", aplaudindo tanto os que disseram "não" à Constituição como os que disseram "sim" e condenando a violência.

Esta foi a primeira Constituição elaborada livremente e escolhida pelo povo "por sua livre vontade", afirmou o Presidente.

Mohammed Morsi classificou ainda esta tarde a participação no referendo como "respeitável" e a própria consulta como "totalmente transparente, supervisionada pelo poder judiciário e vigiada por ONG (Organizações Não Governamentais)".

A Constituição egípcia foi referendada em duas voltas dias 15 e 22 de dezembro e oficialmente aprovada por 63,8% dos votos, num escrutínio em que participaram somente 33% dos eleitores.A oposição, maioritariamente laica, afirma que a votação foi fraudulenta e os resultados manipulados, criticando ainda a legitimidade da consulta devido à fraca participação dos eleitores.

Em peso, opõe-se ao novo texto da Constituição, que considera uma consagração das regras islâmicas e que irá restringir a liberdade, sobretudo para as mulheres e as minorias.

A oposição alega ainda que a Constituição trai o espírito da revolta popular que derrubou o Presidente Hosni Mubarak no início de 2011.
Contestação
O documento foi elaborado por um conselho nomeado para o efeito e dominado por personalidades e partidos islamitas apoiantes do Presidente. Os membros pertencentes às minorias cristã e liberal do Egipto, abandonaram o grupo de trabalho, em protesto contra a alegada intransigência islâmica.

A conclusão do documento foi anunciada no início de dezembro, num período de contestação renovada na sociedade egípcia, contra um decreto de Morsi a atribuir-se o poder judicial, além do executivo e do legislativo que já detinha.

Face à violência a oposição apelou a Morsi para adiar o referendo da Constituição, mas o Presidente alegou pretender pelo contrário acelerar a consulta, de forma a acabar com a instabilidade política e para que o Egipto pudesse concentrar-se em resolver os problemas económicos.
Economia em queda
Os mercados receiam que o governo egípcio não seja capaz de implementar uma subida de impostos e cortes orçamentais que consideram imprescindíveis.

Esta quarta-feira a libra egípcia caiu para o nível mais baixo dos últimos oito anos face ao dólar. Já na segunda-feira a agência de rating Standard&Poor's baixara o nível do país para B-, sinal de grande incerteza para os mercados financeiros.

Uma das principais fontes de rendimento do Egipto, o turismo, está em queda há 18 meses consecutivos devido à instabilidade e em várias regiões do país os índices de pobreza aumentaram dramaticamente.

Morsi admite remodelar o gabinete egípcio, se tal se revelar necessário, mas não entrou em detalhes nem fez propostas concretas de diálogo à oposição.
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