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Presidente do Sri Lanka bloqueado no aeroporto ao tentar fugir do país
O presidente do Sri Lanka, Gotabaya Rajapaksa, tentou abandonar o país ao abrigo da sua imunidade e na companhia de 14 membros da sua família. Pretendia seguir para o Dubai mas acabou por perder vários voos para os Emirados Árabes Unidos e está agora em parte incerta.
Rajapaksa pretendia embarcar usando a área VIP do Aeroporto Internacional de Bandaranaike, mas foi impedido pela exigência dos funcionários dos serviços de migração em se apresentar pessoalmente nos controlos. O presidente recusou sempre ir para o terminal público, com receio da possível reação de outros passageiros à sua presença no aeroporto.
Altas fontes do Ministério da Defesa desmentiram depois rumores de que Rajapaksa e a sua comitiva tinham passado a noite em instalações reservadas num aeroporto militar próximo.
O gabinete do presidente não está a divulgar informações sobre o paradeiro do ainda chefe de Estado, mas Rajapaksa continua a ser o comandante-chefe do exército, com recursos militares à disposição.
Fontes administrativas afirmaram sob anonimato à Agência France Press, AFP, que o presidente ia agora tentar embarcar num navio-patrulha para tentar fugir da ilha para a Índia ou para as Maldivas, mas a informação não pôde ser confirmada.
Rajapaksa ainda não se demitiu, o que prometeu fazer nas próximas horas para permitir uma "transição pacífica de poder".
Abuso de poder e bancarrota
O presidente foi forçado no sábado passado a admitir a demissão, marcada para quarta-feira, depois de milhares de pessoas terem cercado e finalmente invadido o palácio presidencial, exigindo a sua partida e forçando à fuga do presidente.
Rajapaksa, membro de uma das mais poderosas famílias do Sri Lanka, que dominou o poder nas últimas duas décadas, é acusado de corrupção ao mais alto nível e de má gestão, que levou o país à bancarrota e que espoletou a pior crise financeira desde a independência.O presidente é igualmente suspeito de crimes de guerra, incluindo desaparecimentos forçados e assassínios extrajudiciais, enquanto ministro da Defesa, quando pôs fim de forma brutal à guerra civil com a minoria Tamil, em 2009. As alegações contra ele têm sido por mais de uma década bloqueadas antes de chegarem aos tribunais.
Após meses de protestos, o presidente aceitou oficializar a sua demissão, abrindo caminho a um governo de transição seguido de novas eleições, mas o calendário e o próprio Sri Lanka estão agora mergulhados na incerteza.
Ao demitir-se, Rajapaksa irá perder a sua imunidade presidencial e poderá ser detido enquanto decorrerem investigações criminais.
No mínimo verá a sua segurança reduzida. O presidente estará a tentar escapar a estes riscos autoexilando-se.
Outras tentativas de fuga
De acordo com fontes militares, adjuntos do presidente apresentaram-se segunda-feira no aeroporto da capital, Colombo, com 15 passaportes do presidente e da sua família os quais tinham reservado lugares num voo com destino ao Dubai marcado para as 18h25 locais.
Os funcionários dos serviços de Imigração recusaram contudo tanto processar os passaportes sem a presença física dos titulares como deslocar-se à sala onde se encontravam o presidente e a família. O voo acabou por partir sem eles. Várias fontes coincidem em que o presidente e a sua comitiva, incluindo a sua mulher, a primeira dama Ioma Rajapaksa, esperaram numa sala privada do aeroporto enquanto os adjuntos faziam novas tentativas para contornarem os serviços de imigração. Perderam ao todo quatro voos.
Esta não terá sido a primeira tentativa de fuga de Gotabaya Rajapaksa nos últimos dias.
O governo indiano terá recusado autorização para a aterragem de um aparelho militar do Sri Lanka que transportava o presidente numa pista indiana de aviação civil.
A Embaixada dos Estados Unidos da América recusou-lhe também um visto de visitante, de acordo com fontes da Embaixada à imprensa do Sri Lanka. Rajapaksa, que viveu vários anos nos Estados Unidos e que tem ali a viver um filho e um neto, abdicou da sua dupla cidadania quando concorreu para a presidência.
Também o irmão mais novo do presidente, Basil Rajapaksa, tentou abandonar o Sri Lanka esta terça-feira. Foi impedido de embarcar no voo com destino aos Estados Unidos via Dubai devido aos protestos dos passageiros.
Tal como sucedeu ao presidente, os funcionários recusaram admiti-lo na área VIP do
aeroporto e impediram-no de embarcar. Quando a situação se tornou tensa,
Basil bateu em retirada.
"Alguns outros passageiros protestaram contra o embarque de Basil", disse um funcionário do aeroporto à AFP. "Era uma situação tensa, por isso [Basil] deixou o aeroporto à pressa", acrescentou.
Ex-ministro das Finanças, tendo sido forçado a demitir-se em abril, o irmão mais novo do presidente é um dos principais suspeitos da corrupção e da bancarrota. Basil, que também tem cidadania norte-americana, teve de solicitar um novo passaporte depois de deixar o documento no palácio presidencial, quando a família fugiu, no sábado.
Incertezas
A revelação das tentativas de fuga da família Rajapaksa esta terça-feira levou à apresentação de uma moção no Supremo Tribunal para impedir Basil de abandonar o país. Incluídos na moção estão ainda o irmão mais velho do presidente, Mahinda, forçado a demitir-se em maio do cargo de primeiro-ministro, e outros funcionários do executivo, incluindo o atual primeiro-ministro Ranil Wickremesinghe.
Gotabaya Rajapksa resistiu durante meses à pressão pública para se demitir e, apesar de a sua intenção de abandonar o cargo ter sido anunciada pelo presidente do Parlamento e pelo gabinete do primeiro-ministro, o próprio tem ainda de fazer a comunicação ao país.
Se o chefe de Estado se demitir como prometido, Ranil Wickremesinghe será automaticamente nomeado presidente em exercício até que o parlamento eleja um deputado para exercer o poder até ao final do atual mandato, ou seja, até novembro de 2024.
No entanto, Wickremesinghe está também a ser contestado por manifestantes acampados fora do palácio presidencial, que há mais de três meses exigem a demissão do presidente face à crise económica sem precedentes do país.
No entanto, Wickremesinghe está também a ser contestado por manifestantes acampados fora do palácio presidencial, que há mais de três meses exigem a demissão do presidente face à crise económica sem precedentes do país.
O Sri Lanka assumiu a incapacidade de financiar as importações mais essenciais para os seus 22 milhões de habitantes, devido à falta de moeda estrangeira. Colombo falhou no pagamento da dívida externa de 51 mil milhões de dólares (50,9 mil milhões de euros) em abril e está em conversações com o Fundo Monetário Internacional (FMI) para uma possível ajuda de emergência.
Depois da demissão do presidente previa-se a demissão do restante executivo seguindo-se a tomada de posse de um governo interino de unidade nacional, para dirigir o país por seis a oito meses até à realização de eleições legislativas.
Sexta-feira o Parlamento do Sri Lanka deverá voltar a reunir-se com vista a eleger um novo presidente dia 20 de julho.
O maior partido da oposição prepara.se para nomear presidente o seu líder, Sajith Premadasa. Samagi Jana Balawegaya, que perdeu as eleições presidenciais para Gotabaya Rajapaksa em 2019, também estará a preparar-se para assumir o cargo.
Adivinha-se uma grave crise política no Sri Lanka, a agravar a crise económica e financeira.
(Com Lusa)