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Presos numa "ratoeira". Migrantes são peões no conflito entre Polónia e Bielorrússia
Os migrantes que chegam à Bielorrússia vêm com esperança de conseguir asilo na União Europeia, mas em vez disso são usados como peões no conflito crescente entre a Polónia e a Bielorrússia. Depois de serem expulsos tanto do lado de Minsk como de Varsóvia, milhares de migrantes ficam presos numa zona fronteiriça proibida - uma área florestal onde milhares de polícias polacos patrulham a área e expulsam aqueles que tentam atravessar a fronteira. Pelo menos oito migrantes morreram nesta "ratoeira".
Em retaliação às sanções impostas pela UE, os líderes europeus acusam o Governo bielorrusso de estar a empurrar milhares de migrantes para os países vizinhos da Europa de leste ao facilitar-lhes a passagem.
Atraídos por agências de viagens bielorrussas, controladas pelo Governo autoritário de Alexander Lukashenko, os migrantes, oriundos maioritariamente do Irão, Iraque e Síria, chegam a Minsk em voos de baixo custo, com vistos turísticos e com a promessa de uma passagem para a União Europeia.
No entanto, uma vez chegados à Bielorrússia, os migrantes são cobrados entre 15.000 e 20.000 euros e enviados para a fronteira com a Polónia. Os guardas das fronteiras chegam mesmo a empurrar os migrantes além da cerca. “Alguns migrantes ficaram com os seus rostos cortados com arame farpado”, disse uma voluntária, Katarzyna Wappa, a The Guardian.
Do outro lado da fronteira espera-lhes um caminho perigoso. Os migrantes tentam entrar na Polónia e, assim, conseguir asilo na UE, mas em vez disso são enviados de volta para a Bielorrússia.
“Os guardas polacos encontraram-nos e empurraram-nos de volta. Eles disseram: ‘Volte para a Bielorrússia’ e o soldado bielorrusso disse: ‘Não, volte para a Polónia’”, testemunhou Abdelkader, que tentou fazer a travessia para a Polónia no início de outurbro.
Há cerca de um mês, o Parlamento da Polónia aprovou uma lei que permite que os guardas de fronteira expulsem os migrantes que tentam atravessar a fronteira ilegalmente e ignorem um pedido de asilo feito após a travessia ilegal da fronteira. A União Europeia e vários grupos de direitos humanos acusam Varsóvia de praticar a expulsão. De acordo com o Direito Internacional, qualquer pessoa que procure proteção internacional deve ter acesso ao processo de asilo, mesmo que tenha atravessado uma fronteira ilegalmente.
O Parlamento polaco deu ainda luz verde a um projeto que contempla a construção de um muro de três metros de altura e um sistema de vigilância para impedir os migrantes de atravessarem a fronteira com a Bielorrússia, um projeto estimado em 353 milhões de euros.
Para além da Polónia, também a Letónia e a Lituânia começaram a construir barreiras para impedirem a chegada de migrantes que cruzam a fronteira com a Bielorrússia.
Presos numa “ratoeira”
Expulsos tanto do lado bielorusso como do lado polaco, os migrantes ficam presos numa zona fronteiriça proibida – uma área de três quilómetros localizada entre os dois países que foi isolada em setembro para travar a chegada de milhares de migrantes. Nesta área florestal, apenas os polícias e residentes estão autorizados a entrar – médicos, representantes de Organizações Não-Governamentais (ONG) e jornalistas estão proibidos, sob o estado de emergência, de aceder a esta área.
Sem comida ou abrigo e com temperaturas abaixo de zero, os migrantes, muitos deles com crianças pequenas, ficam presos nesta área densamente florestal e patrulhada por milhares de polícias polacos, que impedem os requerentes de asilo de atravessarem a fronteira. Na semana passada, a Polónia enviou mais 2500 soldados para a área, elevando para dez mil o número de soldados que ajudam os guardas de fronteira a evitar tentativas de travessia.
Desta zona proibida chegam vários relatos de violência. “Os soldados bielorrussos espancam as pessoas”, disse ao Guardian Mustafa, um marroquino de 46 anos encontrado na floresta na semana passada por voluntários.
“Eles espancaram-me na Bielorrússia. Existem gangues que estão por trás do exército e eles atacam-nos. Eles batem-nos, roubam-nos o dinheiro e dividem em 50-50, uma parte para os gangues, outra para os soldados. Esta fronteira é como um rio de morte”, descreveu. “O que havemos de fazer? Para onde vamos? Eu não sei”, questiona Mustafa.
À Euronews chegaram também relatos de violência na chamada zona proibida. "Caminhávamos à noite, não nos deixavam acender uma fogueira para nos aquecermos. Eles disseram: ‘Voltem para a Polónia’. Há um homem gravemente ferido. Na Bielorrússia bateram-lhe nas costas com um pau. Os soldados espancaram-no", relatou um homem que afirma ter fugido da repressão na Síria.
"Havia crianças sem comida, nem água. Tentei voltar para Minsk, saltei o muro. Bateram-me com um pau. Eles têm cães. Eles bateram num grupo inteiro e diziam: 'Vão para a Polónia'”, afirmou outro dos homens que espera poder pedir asilo na Europa. “Se nós não estivéssemos a ser usados como forma de pressão, a Bielorrússia teria impedido a nossa entrada. Estamos sempre a ser usados pelos ocidentais, pelos americanos, pelos russos e pelos árabes", lamentou.
Crystal van Leeuwen, dos Médicos sem Fronteiras, explica que “o frio é a maior preocupação física” para aqueles que se encontram na zona fronteiriça da Polónia e da Bielorrússia, assim como a falta de água e de comida. “É perigoso dormir ao ar livre”, afirmou, explicando que existem noites em que os termómetros baixam até aos cinco graus negativos.
Leeuwen realça que muitos dos migrantes também apresentam problemas de saúde mental depois de passarem, em alguns casos, várias semanas a tentarem entrar na UE e a servirem de peões no conflito, ao serem enviados para um lado e para o outro da fronteira vezes sem conta.
“Estas pessoas precisam de abrigo, comida, água e assistência médica”, disse Leeuwen. “As suas vidas precisam de ser protegidas e eles precisam de ser tratados de acordo com a legislação da UE e internacional. Eles não são armas, são seres humanos”, salientou.
De acordo com dados dos serviços de fronteira polacos, foram detetadas desde o início do ano cerca de 29 mil tentativas de entrada ilegal na Polónia de pessoas vindas da Bielorrússia, das quais mais de 15 mil ocorreram em outubro.
Atraídos por agências de viagens bielorrussas, controladas pelo Governo autoritário de Alexander Lukashenko, os migrantes, oriundos maioritariamente do Irão, Iraque e Síria, chegam a Minsk em voos de baixo custo, com vistos turísticos e com a promessa de uma passagem para a União Europeia.
No entanto, uma vez chegados à Bielorrússia, os migrantes são cobrados entre 15.000 e 20.000 euros e enviados para a fronteira com a Polónia. Os guardas das fronteiras chegam mesmo a empurrar os migrantes além da cerca. “Alguns migrantes ficaram com os seus rostos cortados com arame farpado”, disse uma voluntária, Katarzyna Wappa, a The Guardian.
Do outro lado da fronteira espera-lhes um caminho perigoso. Os migrantes tentam entrar na Polónia e, assim, conseguir asilo na UE, mas em vez disso são enviados de volta para a Bielorrússia.
“Os guardas polacos encontraram-nos e empurraram-nos de volta. Eles disseram: ‘Volte para a Bielorrússia’ e o soldado bielorrusso disse: ‘Não, volte para a Polónia’”, testemunhou Abdelkader, que tentou fazer a travessia para a Polónia no início de outurbro.
Há cerca de um mês, o Parlamento da Polónia aprovou uma lei que permite que os guardas de fronteira expulsem os migrantes que tentam atravessar a fronteira ilegalmente e ignorem um pedido de asilo feito após a travessia ilegal da fronteira. A União Europeia e vários grupos de direitos humanos acusam Varsóvia de praticar a expulsão. De acordo com o Direito Internacional, qualquer pessoa que procure proteção internacional deve ter acesso ao processo de asilo, mesmo que tenha atravessado uma fronteira ilegalmente.
O Parlamento polaco deu ainda luz verde a um projeto que contempla a construção de um muro de três metros de altura e um sistema de vigilância para impedir os migrantes de atravessarem a fronteira com a Bielorrússia, um projeto estimado em 353 milhões de euros.
Para além da Polónia, também a Letónia e a Lituânia começaram a construir barreiras para impedirem a chegada de migrantes que cruzam a fronteira com a Bielorrússia.
Presos numa “ratoeira”
Expulsos tanto do lado bielorusso como do lado polaco, os migrantes ficam presos numa zona fronteiriça proibida – uma área de três quilómetros localizada entre os dois países que foi isolada em setembro para travar a chegada de milhares de migrantes. Nesta área florestal, apenas os polícias e residentes estão autorizados a entrar – médicos, representantes de Organizações Não-Governamentais (ONG) e jornalistas estão proibidos, sob o estado de emergência, de aceder a esta área.
Sem comida ou abrigo e com temperaturas abaixo de zero, os migrantes, muitos deles com crianças pequenas, ficam presos nesta área densamente florestal e patrulhada por milhares de polícias polacos, que impedem os requerentes de asilo de atravessarem a fronteira. Na semana passada, a Polónia enviou mais 2500 soldados para a área, elevando para dez mil o número de soldados que ajudam os guardas de fronteira a evitar tentativas de travessia.
Presos nesta “ratoeira”, muitos migrantes acabam por morrer à fome, à sede ou ao frio. Pelo menos oito pessoas morreram e um trabalhador humanitário alerta para a probabilidade de se registarem mais mortes na fronteira da Polónia com a Bielorrússia.
“As pessoas estão a ser tratadas como armas”, disse Crystal van Leeuwen, responsável pela emergência médica dos Médicos sem Fronteiras ao Guardian. “Custa acreditar que este tipo de crise está a desenrolar-se na UE”, acrescentou.
“Um rio de morte”Desta zona proibida chegam vários relatos de violência. “Os soldados bielorrussos espancam as pessoas”, disse ao Guardian Mustafa, um marroquino de 46 anos encontrado na floresta na semana passada por voluntários.
“Eles espancaram-me na Bielorrússia. Existem gangues que estão por trás do exército e eles atacam-nos. Eles batem-nos, roubam-nos o dinheiro e dividem em 50-50, uma parte para os gangues, outra para os soldados. Esta fronteira é como um rio de morte”, descreveu. “O que havemos de fazer? Para onde vamos? Eu não sei”, questiona Mustafa.
À Euronews chegaram também relatos de violência na chamada zona proibida. "Caminhávamos à noite, não nos deixavam acender uma fogueira para nos aquecermos. Eles disseram: ‘Voltem para a Polónia’. Há um homem gravemente ferido. Na Bielorrússia bateram-lhe nas costas com um pau. Os soldados espancaram-no", relatou um homem que afirma ter fugido da repressão na Síria.
"Havia crianças sem comida, nem água. Tentei voltar para Minsk, saltei o muro. Bateram-me com um pau. Eles têm cães. Eles bateram num grupo inteiro e diziam: 'Vão para a Polónia'”, afirmou outro dos homens que espera poder pedir asilo na Europa. “Se nós não estivéssemos a ser usados como forma de pressão, a Bielorrússia teria impedido a nossa entrada. Estamos sempre a ser usados pelos ocidentais, pelos americanos, pelos russos e pelos árabes", lamentou.
Crystal van Leeuwen, dos Médicos sem Fronteiras, explica que “o frio é a maior preocupação física” para aqueles que se encontram na zona fronteiriça da Polónia e da Bielorrússia, assim como a falta de água e de comida. “É perigoso dormir ao ar livre”, afirmou, explicando que existem noites em que os termómetros baixam até aos cinco graus negativos.
Leeuwen realça que muitos dos migrantes também apresentam problemas de saúde mental depois de passarem, em alguns casos, várias semanas a tentarem entrar na UE e a servirem de peões no conflito, ao serem enviados para um lado e para o outro da fronteira vezes sem conta.
“Estas pessoas precisam de abrigo, comida, água e assistência médica”, disse Leeuwen. “As suas vidas precisam de ser protegidas e eles precisam de ser tratados de acordo com a legislação da UE e internacional. Eles não são armas, são seres humanos”, salientou.
De acordo com dados dos serviços de fronteira polacos, foram detetadas desde o início do ano cerca de 29 mil tentativas de entrada ilegal na Polónia de pessoas vindas da Bielorrússia, das quais mais de 15 mil ocorreram em outubro.