Primeiro-ministro do Canadá afirma que "apoiará os aliados" mas "com algum pesar"
O primeiro-ministro canadiano, Mark Carney, afirmou hoje que "não pode excluir" a participação militar do país na guerra que se intensifica no Médio Oriente, manifestando apoio aos seus aliados, porém "com algum pesar".
"Estamos a enfrentar ativamente o mundo como ele é, não esperando passivamente por um mundo que desejamos. Mas também assumimos essa posição com algum pesar, porque o conflito atual é mais um exemplo do fracasso da ordem internacional", disse em declarações na capital australiana, no terceiro dia da visita oficial ao país, uma viagem que visa atrair investimentos e aprofundar os laços com Camberra.
Quando instado, porém, pelos jornalistas a responder sobre se o Canadá encara a hipótese de se envolver no conflito, Carney deixou claro que "nunca se pode excluir categoricamente uma participação".
"Apoiaremos os nossos aliados", acrescentou, ao lado do homólogo australiano, Anthony Albanese, em Camberra.
Nas primeiras declarações que proferiu sobre o assunto desde o início da guerra, em 28 de fevereiro, Carney sublinhou ainda que o Canadá não foi informado antecipadamente dos ataques aéreos dos Estados Unidos e de Israel.
"Não fomos informados com antecedência, não nos foi pedido para participar", deixou claro, em declarações aos jornalistas que o acompanham na visita à Austrália.
"À primeira vista, parece que estas ações são incompatíveis com o direito internacional", afirmou, acrescentando no entanto que, se os ataques aéreos dos EUA e de Israel violaram o direito internacional, é "uma decisão que cabe a outros tomar", afirmou.
"Geoestrategicamente, as potências hegemónicas estão cada vez mais a agir sem restrições ou respeito pelas normas ou leis internacionais, enquanto outros sofrem as consequências. Agora, os extremos dessa rutura estão a ser vividos em tempo real no Médio Oriente", disse Carney.
O Canadá apoiou os esforços para impedir que o Irão obtivesse uma arma nuclear e ameaçasse a paz e a segurança internacionais, disse Carney. Os dois países não mantêm relações há 15 anos devido a relatos de violações dos direitos humanos no Irão. No ano passado, o Canadá designou a Guarda da Revolução do Irão como uma entidade terrorista.
Durante uma reunião na quarta-feira no Lowy Institute, um grupo de reflexão com sede em Sydney (sudeste da Austrália), Carney exortou "todas as partes" envolvidas na guerra desencadeada pelos ataques americano-israelitas contra o Irão a respeitarem as regras internacionais de combate e apelou a uma "desescalada".
Mark Carney repete há meses que o mundo se tornou cada vez mais perigoso e que os Estados Unidos deixaram de ser um parceiro confiável. O Canadá reduziu fortemente a dependência em relação à economia norte-americana, que continua a ser a peça central da política económica externa do país.
"A questão que se coloca hoje às potências médias como a nossa é se estabelecemos as convenções e contribuímos para a elaboração de novas regras que determinarão a nossa segurança e prosperidade, ou se deixamos as potências hegemónicas ditar os resultados no novo ambiente global", afirmou hoje Carney perante as duas câmaras do Parlamento australiano em Camberra.
"Neste melhor dos mundos, as potências médias não podem contentar-se em construir muros mais altos para se entrincheirarem", acrescentou, numa aparente alusão ao romance distópico de Aldous Huxley.
O Canadá e a Austrália manifestaram a intenção de aumentar a cooperação em minerais críticos, inteligência artificial e tecnologias de defesa. Ambos os países são ricos em minerais essenciais e estão empenhados em construir "a maior reserva mineral detida por nações democráticas confiáveis", na expressão de Carney.
Depois da Austrália, Mark Carney é esperado no Japão esta sexta-feira.