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Principais aliados europeus dos EUA não vão participar na reunião inaugural do Conselho de Paz de Trump
Dezenas de líderes mundiais dirigem-se a Washington para a primeira reunião da organização internacional criada pelo presidente norte-americano. De fora ficam os principais aliados europeus, que acusam Trump de tentar usurpar o papel da ONU.
A primeira reunião do Conselho de Paz, lançado em janeiro por Donald Trump, arranca esta quinta-feira com os principais aliados europeus fora das conversações, numa cimeira que promete disponibilizar 5 mil milhões de dólares para reconstruir Gaza.
Inicialmente projetado para consolidar um cessar-fogo duradouro e apoiar a reconstrução do território palestiniano, a organização do presidente norte-americano assume-se agora como um organismo de atuação global, que pretende trabalhar para responder a vários conflitos globais.
Quem parece não querer trabalhar com o presidente norte-americano são os seus aliados europeus, que olham para a nova estrutura internacional como invasora de um espaço que pertence já à Organização das Nações Unidas (ONU), tendo o convite para integrar o Conselho de Paz sido recusado pelo Reino Unido, a Alemanha e a França.
A União Europeia também rejeitou juntar-se à organização presidida por Donald Trump. Ainda assim, a comissária para o Mediterrâneo, Dubravka Šuica, marcará presença na reunião inaugural na qualidade de observadora. Ursula von der Leyen afastou a participação formal da Comissão Europeia, mas permanece por esclarecer se Bruxelas se fará representar por algum outro responsável.
Esta semana, o Papa Leão XIV fez saber que o Vaticano fica igualmente de fora da iniciativa da Casa Branca. Na voz de Pietro Parolin, Cardeal Secretário de Estado, “é preocupante” a emergência de uma organização que se propõe a ser uma alternativa à ONU. Para o principal diplomata do Vaticano, é a Organização das Nações Unidas que deve “gerir estas situações de crise” a nível internacional.
A Santa Sé considera ainda desconcertante que a Itália tenha aceitado participar na reunião desta quinta-feira sob forma de observador, um estatuto que será igualmente assumido pela Roménia, Bulgária, Grécia, Eslováquia e Chipre.
Apesar da Rússia ter rejeitado aderir ao Conselho de Paz, o facto de Vladimir Putin ter recebido um convite do presidente norte-americano nesse âmbito, dificultou uma resposta favorável dos líderes europeus, nomeadamente do presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky.
Portugal também não integra a lista de países a participar na Organização Internacional, apesar de convidado. A proposta foi afastada, em janeiro, por Paulo Rangel, ministro dos Negócios Estrangeiros, que afirmou que estaria apenas a bordo da iniciativa de Washington se esta se restringisse ao conflito israelo-plaestiniano. Tal como outros dirigentes europeus, o membro do executivo de Luís Montenegro sublinhou as Nações Unidas como “sede fundamental de governação mundial”, onde deve residir “o espaço multilateral” para “diálogo” e “decisões” nesta esfera.
No mês passado, Trump dissolveu o convite para a estrutura que preside ao seu vizinho Mark Carney, primeiro-ministro canadiano, após um discurso crítico do líder do Partido Liberal do Canadá.
Já na lista de Estados-Membros do Conselho de Paz constam várias delegações do Médio Oriente, incluindo a de Israel, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Turquia, Jordânia e Catar.
Argentina, Paraguai, Hungria e Cazaquistão são outros dos países a integrar à nova organização internacional.
A Casa Branca convidou formalmente 50 países. Até à data, a adesão à estrutura foi aceite por 26 países, designados como membros fundadores.
O presidente norte-americano prometeu aos Estados-membros um lugar permanente no Conselho da Paz aos países que doassem mais de um milhão de dólares à iniciativa de Washington. Na ausência de comparticipação monetária, cada país membro exerce um mandato com uma duração máxima de três anos, renovável por Trump.
Para esta quinta-feira espera-se, sobretudo, que a cimeira inaugural funcione como uma angariação de fundos, depois de Trump ter anunciado nas suas redes social que os Estados integrantes do Conselho de Paz vão alocar 5 mil milhões de dólares para a reconstrução de Gaza.
A promessa surge quase um mês depois de Jared Kushner, genro de Donald Trump, ter anunciado um “plano-mestre” de 100 dias para uma “Nova Gaza”.
Apresentado aquando da fundação do Conselho da Paz, no Fórum Económico Mundial de Davos, na Suíça, o projeto prevê a reconstrução integral do território palestiniano, com torres residenciais de dimensão comparável a arranha-céus, centros de dados, resorts à beira-mar e parques industriais. Fortemente centrado na renovação das infraestruturas de Gaza, o plano de Kushner pareceu deixar para trás uma questão fundamental ou que, pelo menos, não ficou esclarecida durante o seu anúncio: o futuro dos palestinianos que permanecem no enclave.
Donald Trump já afirmou também que os Estados-Membros do seu Conselho vão-se comprometer a disponibilizar “milhares de efetivos para integrar a Força Internacional de Estabilização e Polícia Local”, com o objetivo de garantir “a segurança e a paz para os habitantes de Gaza”.
Na semana passada, o Comité Nacional para a Administração de Gaza (CNAG), o governo que assumirá o enclave na sequência do plano de paz de Donald Trump, defendeu a necessidade de ter "controlo total" sobre o território.