Pyongyang marca posição com mísseis "dirigidos" a Washington

Pyongyang lançou esta semana dois mísseis balísticos de curto alcance, um ano depois do último teste deste género e alguns dias após um teste com dois mísseis não-balísticos no Mar Amarelo. Enquanto os especialistas discutem as questões técnicas do lançamento, a Coreia do Norte marca também uma posição política com estes primeiros lançamentos durante a presidência de Joe Biden, que sucede a Donald Trump, com quem alegadamente a liderança norte-coreana mantinha relações especiais.

RTP /
DR

Kim Jong-un, que não esteve presente durante o teste, ainda não reconheceu Joe Biden como novo líder americano, pelo que as relações entre os dois países regressam ao estado pré-Trump.

Durante o mandato de Donald Trump houve uma aproximação, em termos mediáticos, entre as duas lideranças, com Trump a tornar-se no primeiro presidente norte-americano a pisar território da Coreia do Norte, mas o processo de desnuclearização da Península Coreana poderá não ter conhecido avanços palpáveis.

Os Estados Unidos mantiveram o regime de sanções e Kim não chegou nunca – apesar dos encontros com Trump – a ordenar a paragem no programa militar. Um relatório das Nações Unidas revelou recentemenete que Pyongyang continuou a trabalhar no seu programa de mísseis nucleares e balísticos durante 2020, tendo, segundo a ONU, retomado a cooperação com o Irão no desenvolvimento de mísseis de longo alcance.Teste político
De acordo com a declaração emitida através da agência oficial KCNA, os dois mísseis terão atingido uma distância de 600 km a leste da costa da Coreia. O Japão insiste que a trajectória não passou dos 400 quilómetros.

Pyongyang assinala a capacidade do novo míssil de carregar [uma ogiva de] 2,5 toneladas, o que representará um progresso assinalável para o programa coreano, em particular relativamente à necessidade de miniaturizar as cabeças dos mísseis.

“O desenvolvimento deste sistema de armamento é de grande importância para reforçar o poder militar do país e dissuadir todo o tipo de ameaças militares”, declarou Ri Pyong Chol, a quem coube a supervisão do teste, mas sem acrescentar elementos relativos ao tipo de míssil que foi lançado, o que abriu a porta a várias especulações.
Provocação à nova Administração Biden
O lançamento dos mísseis balísticos funcionou desta forma como uma declaração política, eventualmente mais do que como experiência militar.

O lançamento prévio de dois mísseis não-balísticos teriam já o intuito de chamar a atenção da Administração Biden e, face à reacção nula desde Washington, a Coreia do Norte subiu uma escala nas experiências militares.

De facto, se os primeiros lançamentos causam em qualquer altura perturbação para o clima político da região, apenas os segundos lançamentos entram em violação das determinações internacionais, podendo ter aqui em vista chamar a atenção da nova liderança norte-americana.

De qualquer forma, a Administração Biden fez saber em meados de março que estava há um mês, sem sucesso, a tentar contactar o regime de Kim Jon-un. “Até ao momento não recebemos qualquer resposta por parte de Pyongyang”, garantiu há duas semanas um membro da equipa do presidente Biden.

Biden usou termos pouco favoráveis para Kim Jong-un durante a campanha presidencial de 2020, dizendo na altura que condicionava contactos com o líder coreano a uma disposição do país para cortar o seu arsenal nuclear.

Tal como na relação com o Irão, que exige dos Estado Unidos um primeiro passo para avançarem na resolução do diferendo nuclear, também aqui, com a Coreia do Norte, se mantém um impasse em que as partes exigem da outra condições prévias para avançarem com medidas.

O presidente Biden disse entretanto que se tratou aqui de uma clara violação das resoluções da ONU e que os Estados Unidos “irão reagir em conformidade”, para o que estariam já a consultar parceiros e aliados.

“Haverá respostas – se optarem por uma escalada, responderemos em conformidade”, afirmou o presidente dos Estados Unidos, admitindo estar também “preparado para alguma forma de diplomacia, mas tem de ser condicionada ao resultado final da desnuclearização”.

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