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Regime iraniano decreta 40 dias de luto pela morte de Ali Khamenei

Quem era Ali Khamenei, líder supremo do Irão

Com a morte do ayatollah, resta saber quem ocupará o seu lugar. Foto: EPA/ Supreme Leader Office

Quem era Ali Khamenei, líder supremo do Irão

A morte do ayatollah Ali Khamenei, líder supremo do Irão, foi anunciada a 28 de fevereiro de 2026, horas depois do início de uma operação militar israelo-americana contra o Irão. Estava no cargo desde 1989 e era apenas o segundo homem a ocupá-lo desde a criação da República Islâmica do Irão. Visto por muitos como o símbolo da consolidação do regime após a guerra entre Irão e Iraque, era condenado por grande parte da sociedade civil por refletir uma doutrina religiosa considerada extremista.

Ali Khamenei morreu na consequência de um bombardeamento durante a operação conjunta israelo-americana "Fúria Épica". A sua morte foi precedida de um vai-vém de confirmações, por parte de Israel, e negações, do regime iraniano.

O presidente norte-americano, Donald Trump, acabou por confirma-la numa publicação na rede Truth Social. "Khamenei, um dos homens mais perversos da História, está morto", escreveu Trump.

Khamenei não resistiu a três dezenas de bombardeamentos do complexo fortificado onde residia e que foi destruído.

Um dos objetivos da ação militar de Washington e Telavive, lançada a 28 de fevereiro de 2026, era, precisamente, atingir a cúpula dirigente de Teerão, abrindo caminho ao derrube do regime dos clérigos xiitas, no poder desde a Revolução Iraniana de 1979.

O líder iraniano ia completar 87 anos no próximo dia 19 de abril. Era o segundo Líder Supremo da República Islâmica do Irão desde a chegada ao poder dos ayatollahs, cargo que ocupava desde 1989.

Nos últimos anos, a sua saúde frágil levantou a hipótese de renúncia ao cargo, algo que nunca se concretizou. 
Problemas de saúde

Em setembro de 2022 tinham já surgido notícias sobre o estado de saúde de Khamenei, que chegou a cancelar todas as reuniões e compromissos depois de ter ficado gravemente doente e em repouso. Pouco tempo depois, o ayatollah voltou a aparecer em público, aparentemente saudável.

Em 2014, foi operado com sucesso na sequência de um cancro na próstata.

Estava no cargo desde 1989, tendo sucedido ao ayatollah Ruhollah Khomeini – que estabeleceu a República Islâmica do Irão depois da revolução de 1979 - quando este faleceu.

Ao longo das mais de três décadas no poder, Ali Hosseini Khamenei liderou a política iraniana e as forças armadas do país com mão de ferro, pondo fim a quaisquer ameaças ao seu poder, muitas vezes de forma violenta.

Também a nível de assuntos externos o líder demonstrou posições firmes, mantendo um prolongado confronto com os Estados Unidos.

Khamenei nasceu em 1939 na cidade iraniana de Meshed e estudou em seminários na sua cidade natal antes de se mudar para a cidade sagrada xiita de Qom, a cerca de 150 quilómetros da capital.

Aos 23 anos juntou-se ao movimento religioso da oposição liderado pelo ayatollah Ruhollah Khomeini contra o xá (título dado aos monarcas) então em funções, Mohammad Reza Pahlavi – que acabou derrubado pela Revolução Islâmica, em 1979.

Ainda jovem, Khamenei tornou-se um devoto seguidor de Khomeini, chegando mais tarde a dizer que tudo aquilo que fez e em que acreditava se devia à visão deste último sobre o islamismo.
De presidente a líder supremo
Khamenei esteve ativamente envolvido em protestos contra o xá Reza Pahlavi e chegou mesmo a estar preso em várias ocasiões. Após a revolução de 1979, serviu no Conselho da Revolução Islâmica, grupo conservador formado pelo ayatollah Khomeini para governar do lado do Governo interino.

Mais tarde, Khamenei tornou-se vice-ministro da Defesa e ajudou a fundar o Exército de Guardiães da Revolução Islâmica, divisão das Forças Armadas do Irão que assegura a segurança nacional e que se tornou uma das mais poderosas instituições do país.

Em 1981 ficou gravemente ferido e com um braço paralisado num ataque bombista numa mesquita em Teerão, cuja autoria foi atribuída a um grupo rebelde de esquerda.

Dois meses depois, o mesmo grupo foi acusado de assassinar o presidente do Irão, Mohammad-Ali Rajai, e Ali Khamenei foi o escolhido para a sucessão, ficando no cargo durante oito anos. Ao longo desse período, teve várias divergências com o primeiro-ministro Mir Hossein Mousavi por considerar que este trazia demasiadas reformas ao país. Khamenei foi eleito líder supremo pela Assembleia de Peritos, grupo composto por 88 académicos responsáveis por várias das questões de liderança da República Islâmica.

Foi em 1989, após a morte de Ruhollah Khomeini, que Ali Khamenei deixou o cargo de presidente para se tornar o novo líder supremo – apesar de, nessa altura, ainda não ter atingido os títulos de “marja-e taqlid” e “grand ayatollah”, como prevê a Constituição estabelecida pelos religiosos xiitas.

Para contornar a situação, acrescentou-se à Constituição uma emenda segundo a qual o líder supremo apenas teria de possuir “escolaridade islâmica”. Além disso, foi atribuído da noite para o dia o título de ayatollah a Ali Khamenei, que até então era apenas “hujjat al-Islam”, título honorífico com menor peso.

Na altura, a Constituição iraniana foi também alterada para abolir o cargo de primeiro-ministro e para conceder maior poder ao presidente.
Os desafios e as críticas
Vários dos presidentes que serviram o país sob a liderança de Khamenei vieram a desafiar a sua autoridade. Mohammad Khatami, que esteve no cargo entre 1997 e 2005, tentou diminuir as hostilidades com o Ocidente e procurou mais liberdades políticas e sociais no Irão. A maioria das suas tentativas de reformas foi, porém, bloqueada pelo ayatollah.

Já o sucessor, Mahmoud Ahmadinejad, era visto como protegido de Khamenei. Ainda assim, este presidente enfrentou duras críticas à sua governação, nomeadamente no campo económico e dos negócios estrangeiros.

Ao ser reeleito em 2009, Ahmadinejad foi alvo dos maiores protestos no Irão desde a revolução de 1979. Khamenei insistiu que os resultados eleitorais eram válidos e ordenou o fim das manifestações, que terminaram com dezenas de apoiantes da oposição mortos e milhares de detidos.

Ahmadinejad acabou por sair do cargo depois de alegadamente ter tentado aumentar os seus próprios poderes, originando um desentendimento com o líder supremo.

Foto: Supreme Leader Office
Em 2013 foi a vez de Hassan Rouhani chegar à presidência. Durante o mandato, conseguiu negociar um inédito acordo nuclear que recebeu a aprovação do ayatollah. No entanto, o líder supremo resistiu aos esforços do presidente para aumentar as liberdades civis no Irão e para criar reformas na economia.

A ausência de medidas que aliviassem a crise económica da população – que piorou depois de, em 2018, Donald Trump ter retirado unilateralmente os Estados Unidos do acordo nuclear e aplicado novas sanções ao Irão – desencadeou protestos em massa em novembro de 2019.

Nesses mesmos protestos, chegou a cantar-se “morte ao ditador”, numa referência a Ali Khamenei. Como resultado, as forças de segurança terminaram violentamente com as demonstrações, causando a morte de 1.500 pessoas, segundo um relatório da agência Reuters – número negado pelas autoridades iranianas.
Polémicas e relação com o Ocidente
O líder supremo é quem tem a última palavra sobre todos os assuntos dos Negócios Estrangeiros. E o ayatollah Ali Khamenei demonstrou, ao longo dos anos, desconfiança nas relações com o Ocidente, em particular com os Estados Unidos. Já em 1981, quando era ainda presidente do Irão, Khamenei prometeu pôr fim ao “desvio, liberalismo e aos esquerdistas influenciados pelos americanos”.

Em 2015, apesar de não se ter oposto ao acordo nuclear assinado com os EUA, China, França, Reino Unido, Rússia e Alemanha, o ayatollah não escondeu as críticas ao presidente Hassan Rouhani por ter negociado o acordo com a expectativa de que os Estados Unidos cumprissem com a sua palavra.

Três anos depois, quando Donald Trump abandonou o acordo nuclear e renovou as sanções ao Irão, Khamenei avisou o então presidente norte-americano de que estava a cometer um erro e reafirmou a falta de confiança na América.

Em 2020, quando os Estados Unidos mataram o general iraniano Qasem Soleimani num ataque com drones no Iraque, o ayatollah – que era seu aliado – prometeu “uma severa vingança”. Mais tarde, o Irão levou a cabo dois ataques com mísseis balísticos a bases iraquianas que abrigavam militares norte-americanos.

Mas as polémicas nas relações estrangeiras não ficaram por aí. O líder supremo pediu repetidamente a eliminação do Estado de Israel, chegando a descrever, em 2018, esse país como um “tumor canceroso” que deveria desaparecer.

Khamenei questionou também a veracidade do holocausto. Em 2014, escreveu no Twitter que “o holocausto é um evento cuja realidade é incerta e, se aconteceu, não é certo de que forma aconteceu”.
Abate de avião, covid-19 e protestos contra o regime
Para além destes episódios, em 2020 Ali Khamenei viu-se perante duas grandes crises. A primeira ocorreu quando a Guarda Revolucionária Iraniana abateu acidentalmente um avião da companhia Ukraine International Airlines enquanto este sobrevoava os arredores de Teerão, matando todas as 176 pessoas a bordo – muitas delas de nacionalidade iraniana.

A tentativa do Governo de omitir o erro originou fortes protestos, com muitos a exigirem demissões. Na altura, as forças de segurança foram acusadas de usar munições para dispersar os manifestantes.

Um mês depois, em fevereiro, o Irão viu-se afetado pela pandemia de covid-19 e o ayatollah, à semelhança de outros líderes internacionais, tentou descredibilizar a gravidade da doença. Mais uma vez, a atitude mereceu condenação pelo povo.

Mais tarde, em setembro de 2022, o Irão foi alvo dos maiores protestos desde a Revolução Islâmica, deixando o regime numa das mais profundas crises em três décadas. As manifestações foram originadas pela morte de uma jovem curda iraniana de 22 anos, Mahsa Amini, depois de esta ter sido presa pela “polícia da moralidade” por alegadamente usar de forma errada o hijab (véu islâmico).

Os protestos foram marcados por confrontos entre a população e as autoridades, resultando na detenção e morte de centenas de pessoas, de acordo com várias organizações não-governamentais.

Foto: EPA
Em novembro desse ano, Ali Khamenei associou os protestos às forças ocidentais, considerando que o “inimigo” tenta constantemente “retirar ao povo e à juventude a esperança” nos progressos alcançados pelo Irão.

“Aqueles que orquestram os motins nos bastidores querem levar as pessoas para as ruas e estão a tentar desgastar as autoridades através de ações vis”, chegou a acusar o ayatollah, referindo-se à violência dos protestos.

Na altura, vários iranianos foram executados após decisões de julgamentos sumários relacionados com os protestos provocadas pela morte Mahsa Amini.