Rajoy nega ter recebido "dinheiro negro" e promete mostrar património

O chefe do Governo espanhol saiu este sábado a público para afiançar que “nunca” recebeu quaisquer pagamentos não declarados ao fisco, o chamado “dinheiro negro”, classificando como falsas as notícias da imprensa do seu país sobre a existência de “contas secretas” do Partido Popular. Na sequência de uma reunião da cúpula dos conservadores espanhóis, Mariano Rajoy prometeu também tornar públicas na próxima semana as suas declarações de rendimentos e de património.

Carlos Santos Neves e António Carneiro, RTP /
“Na próxima semana as minhas declarações de rendimentos e de património estarão à disposição de todos os cidadãos”, indicou Mariano Rajoy Susana Vera, Reuters

“É falso. Nunca recebi nem reparti dinheiro negro neste partido ou noutro lugar. Não tenho nada a ocultar. Não temo a verdade”, afirmou o presidente do Executivo espanhol, que presidiu durante a manhã a uma reunião extraordinária do Comité Executivo do Partido Popular, a braços com um escândalo político de proporções históricas, a somar ao desgaste causado ao Governo conservador pela crise económica galopante.


“Se alguém pensa que pode amedrontar este partido com técnicas de agitação, equivoca-se. Este partido vai defender-se”, redarguiu Rajoy em conferência de imprensa, na sede do Partido Popular espanhol em Madrid.


Depois de anunciar a intenção de publicar as suas “declarações de rendimentos e de património” no site do Palácio da Moncloa, a sede da presidência do Executivo espanhol, Rajoy quis deixar a garantia de que “o PP não tem, nem teve, contas num país estrangeiro e nunca deu ordens para abrir contas num país estrangeiro”: “Não temos, portanto, nada a ver e não tenho dúvida nenhuma de que isto se demonstrará na administração da Justiça”.

“Tudo o que se disse e que se possa insinuar é falso e digo-o com toda a serenidade. Não tenho nada a ocultar. A quem pretender desanimar-me, que não se canse. Sou responsável pelo que faço, não pelo que se diga. Se alguém acredita que me vou encolher, está enganado”, asseverou o líder do Governo, reproduzindo um discurso escrito.

Numa intervenção plena de recados à Oposição, em particular ao PSOE de Alfredo Pérez Rubalcaba, Mariano Rajoy sustentou que “ninguém igualou o nível de exigência do PP”. Lamentaria ainda “o comportamento do chefe da Oposição pelas suas insinuações, sem calibrar o seu efeito sobre a credibilidade do país”.
“Situação grave e difícil”
O líder dos socialistas espanhóis exigiu nos últimos dias explicações do presidente do Executivo perante o Congresso dos Deputados. Rubalcaba considerou tratar-se de “um caso de corrupção” que ameaça atingir “vários governos regionais, freguesias e até mesmo o Governo Espanha”. Outras formações da esquerda parlamentar subscreveram mesmo uma petição a defender a demissão de Mariano Rajoy e a marcação de eleições antecipadas.

Na alocução deste sábado, Rajoy procurou pôr de parte o cenário de demissão, ao frisar que o seu Governo “tem um rumo” a seguir.

“Digo-o porque estamos no bom caminho. Sei que, todavia, não se veem os frutos, mas ver-se-ão, porque estão semeados. Se alguém pensa que vamos inverter este caudal, que não se canse, porque não o verá”, insistiu.

“Acredito na Justiça, acredito na política, nas pessoas de qualquer ideologia que colocam o seu esforço e a sua inteligência ao serviço do bem comum. A política é uma atividade nobre e digna, própria das sociedades civilizadas, que vai além da ideologia e das querelas partidárias. Sinto-me orgulhoso do que faço, de vocês e de políticos de outros partidos que também trabalharam pelo seu país”, enfatizou o governante espanhol.
Os papéis de Bárcenas
O abalo político em Madrid cresceu em magnitude na passada quinta-feira, quando o diário espanhol El País divulgou o que descreveu como “contas secretas” administradas pelo antigo tesoureiro do Partido Popular Luis Bárcenas – folhas de contabilidade elaboradas à mão com nomes de quadros da formação política de Mariano Rajoy, juntamente com as verbas que cada um teria recebido.

Um dos nomes é o do próprio Rajoy, que, escrevia então o jornal madrileno, teria recebido 25 200 euros por ano de 1997 a 2008. Outro desses nomes é o da atual secretária-geral do PP. Logo após a divulgação dos documentos, Maria Dolores de Cospedal afirmava, em conferência de imprensa, que “o PP sempre cumpriu escrupulosamente com a legalidade vigente”. E indicava que os dirigentes em causa poderiam mesmo contestar na Justiça todos os órgãos de comunicação que viessem a reproduzir os documentos.Na edição deste sábado, diário El País mostra mais um registo da contabilidade de Luis Bárcenas sobre um “pagamento” 21 milhões de pesetas do Partido Popular da Galiza.

Noutro documento da Junta da Galiza, o mesmo montante surge com a descrição de “pagamento de dívidas pendentes” à “sede nacional”. A “saída” e a “entrada” daquela verba são datadas do dia 5 de maio de 1999. As investigações judiciais terão estabelecido que os 21 milhões não foram declarados ao fisco.


Bárcenas abandonou o cargo de tesoureiro do PP em 2009 e é atualmente alvo de investigações no âmbito do denominado caso Gürtell, uma alegada trama de corrupção e de enriquecimento ilícito que abrangeu comunidades autonómicas administradas pelo PP. O antigo responsável pelas contas dos populares fez sair um comunicado no dia da publicação das folhas de contabilidade a negar a existência de qualquer contabilidade paralela, ou o pagamento oculto de suplementos a figuras da cúpula do partido. Álvaro Lapuerta, outro ex-tesoureiro do Partido Popular, emitiu uma nota à imprensa no mesmo sentido.

“Nos anos em que fui contabilista e posteriormente tesoureiro do Partido Popular nunca se fez, por mim ou por outra pessoa, registos de entradas ou de saídas de fundos distintos dos que foram declarados oficialmente pelo partido”, escreveu Luis Bárcenas, sem no entanto negar a autoria dos manuscritos.

A maior parte dos pagamentos desvendados pela imprensa remonta aos últimos anos da década de 90, quando a economia espanhola era alimentada pelo impulso do sector imobiliário. Até 2007, a legislação permitia que os partidos recebessem donativos anónimos. Dos registos atribuídos a Bárcenas, que abrangem o período entre 1990 e 2008 - à exceção dos anos de 1993, 1994, 1995 e 1996 -, consta uma lista de empresas de construção que doaram dinheiro ao Partido Popular.

A cada ano, uma fatia das doações seria depositada no banco de Vitória, absorvido em 2003 pelo Banesto. Os pagamentos poderão até ser considerados legais. Mas apenas se os beneficiários os tiverem referido nas respetivas declarações para efeitos fiscais.
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