Relatório explica que Portugal e Espanha têm o clima mais seco dos últimos séculos

por RTP
Portugal e Espanha sentem o tempo cada vez mais seco e recursos hídricos em perigo Lusa

Portugal e Espanha sofrem cada vez mais com tempo seco. De acordo com um relatório publicado na revista Nature Geoscience o anticiclone dos Açores, que afasta o tempo de chuva da Península Ibérica, tem acontecido com mais frequência, o que leva a prejuízos enormes na agricultura e turismo dos dois países.

Com uma predominância do tempo chuvoso a acontecer no inverno, Portugal e Espanha sofrem a influência de baixas pressões vindas do Atlântico. No entanto, o anticiclone dos Açores está a mudar essa realidade na Península Ibérica, bloqueando as frentes chuvosas nos dois países.

Um relatório publicado na revista Nature Geoscience explica que nos últimos quarenta anos o anticiclone dos Açores tem-se tornado cada vez mais frequente, levando a Península Ibérica a temperaturas cada vez mais secas que ocasionam grandes problemas de abastecimento de água nos dois países, levando as frentes chuvosas mais para Norte, para a Escandinávia e Reino Unido.

De acordo com o relatório, Portugal e Espanha estão sob a influência do tempo mais seco dos últimos 1200 anos. Antes de 1850, antes do início da revolução industrial, o anticiclone dos Açores acontecia uma vez a cada dez invernos. Até 1980, o anticiclone dos Açores aconteceu uma vez em cada sete invernos, sendo que, desde essa data há a possibilidade de acontecer em cada quatro anos.

Os cientistas que lideraram a investigação dizem que esta situação acontece devido às alterações climáticas, com a ação humana a ser preponderante.

“O número de anticiclones dos Açores nos últimos 100 anos não tem precedentes, quando comparamos os 1000 anos anteriores”, explicou Caroline Ummenhofer, do Instituto Oceanográfico Woods Hole, dos Estados Unidos.

“Isto tem grandes implicações já que anticiclones dos Açores mais longos significam condições mais secas para a Península Ibérica e o Mediterrâneo. Podemos, de forma conclusiva, ligar este facto ao aumento das emissões antropogénicas”.

Nos últimos anos, tanto Espanha como Portugal têm sofrido secas severas com a situação este ano a ser muito difícil. A pouca chuva levou a um nível baixo da água nas barragens. E acaba de ser noticiado que a região transmontana se prepara para cortar o abastecimento de água durante a noite para não haver desperdício.

Em Espanha, no mês passado, Zamora sofreu um dos piores incêndios dos últimos anos e da história da região. Ondas de calor acontecem cada vez mais todos os verões nos dois países e o Rio Tejo é um exemplo do tempo extremamente seco. O maior rio da Península Ibérica, dizem os ambientalistas, está em risco de secar por completo.

A análise dos investigadores mostrou dados estudados ainda antes de 1850. Foram usados modelos computarizados para replicar o clima até ao ano de 850. As conclusões revelaram que antes da revolução industrial o anticiclone dos Açores acontecia apenas uma vez em cada dez anos.

O relatório diz que o mais provável é o anticiclone dos Açores continuar a expandir-se, agravando a seca na Península Ibérica, uma situação que só pode ser revertida com o corte de emissões de carbono na totalidade.

“As nossas descobertas têm grandes implicações nos recursos hídricos disponíveis para a agricultura e outras indústrias dependentes da água como o turismo. Não augura nada de bom”, continuou a explicar Caroline Ummenhofer.
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