Rohingyas. Aung San Suu Kyi demarca-se de "intenção de genocídio"

Ouvida esta quarta-feira pelo Tribunal Internacional de Justiça, na Holanda, Aung San Suu Kyi assumiu a defesa do regime de Myanmar num processo aberto pela Gâmbia. Em causa está a perseguição da minoria muçulmana Rohingya no Estado birmanês de Rahkine. O ícone internacional da liberdade e da democracia caído em desgraça negou qualquer “intenção de genocídio”. Limitou-se a admitir que o exército possa ter exercido “força desproporcional”.

Carlos Santos Neves - RTP /
“Infelizmente, a Gâmbia apresentou ao Tribunal um quadro enganador e incompleto da situação no Estado de Rahkine”, argumentou Aung San Suu Kyi Koen Van Weel - EPA

“Certamente, nestas circunstâncias, a intenção de genocídio não pode ter sido a única hipótese”, sustentou Suu Kyi, enquanto cerca de 250 apoiantes da governante birmanesa se concentravam junto ao Palácio da Paz, na Haia, sede do Tribunal Internacional de Justiça.

Ao reconhecimento de que as tropas birmanesas possam ter, a espaços, usado uma “força desproporcional” contra os Rohingya Aung San Suu Kyi somou a ideia de que tal não prova qualquer intenção de extermínio sistemático da minoria étnica.A defesa de Myanmar argui que o Tribunal Internacional de Justiça não é competente para apreciar um processo como este. Alega também que as operações do exército visam rebeldes Rohingyas e não populações civis.


“Infelizmente, a Gâmbia apresentou ao Tribunal um quadro enganador e incompleto da situação no Estado de Rahkine”, argumentou.

A Gâmbia reclama do principal órgão judiciário da ONU medidas de emergência para pôr cobro a “atos de genocídio em curso” em Myanmar. Este é um processo que poderá arrastar-se durante anos.

Na terça-feira, os advogados da Gâmbia denunciavam a instalação, em solo birmanês, de painéis em que Aung San Suu Kyi aparecia ao lado de três generais. O que, nas palavras do jurista Paul Reichler, só vem demonstrar que “a Birmânia não tem qualquer intenção de responsabilizar os seus dirigentes militares”.
“Cessar o genocídio”

Aung San Suu Kyi, outrora um rosto icónico da paz à escala global, compareceu no Tribunal Internacional de Justiça como voz de defesa da antiga Birmânia, cujo regime é instado a fazer “cessar o genocídio” da minoria Rohingya.

À cabeça da delegação de Myanmar, a Nobel da Paz em 1991 assume ela mesma a defesa diante de acusações compiladas pela Gâmbia: sucessivos massacres e ações de perseguição contra a minoria muçulmana num país maioritariamente budista.

O libelo acusatório foi preparado pela Gâmbia sob mandato dos 57 países-membros da Organização para a Cooperação Islâmica. Em concreto, o regime de Myanmar é acusado de violação da Convenção para a Prevenção e a Repressão do Crime de Genocídio, aprovada em 1948.

Desde agosto de 2017, perto de 740 mil Rohingyas procuraram refúgio no Bangladesh, em fuga à perseguição que lhes é movida quer por milícias budistas, quer por forças regulares de Myanmar. Ações que os investigadores das Nações Unidas classificam como genocídio.
O colapso de um exemplo
O nome de Aung San Suu Kyi chegou a ombrear com figuras históricas da paz como o indiano Mahatma Gandhi, ou o sul-africano Nelson Mandela. Aos 74 anos, vive com a imagem internacionalmente manchada desde que, enquanto primeira-ministra de facto do Executivo da antiga Birmânia, governa este país com o beneplácito dos generais.

Ainda assim, Suu Kyi continua a poder contar com o apoio de uma importante porção da população birmanesa. Isso mesmo ficou patente na terça-feira, dia em que largos milhares dos seus simpatizantes saíram às ruas de diferentes cidades de Myanmar.

Horas antes desta primeira sessão no Tribunal Internacional de Justiça, a Administração norte-americana acentuou as sanções contra a liderança militar birmanesa, tendo por base os morticínios da minoria muçulmana do país.

O número um do exército de Myanmar, Min Aung Hlaing, o número dois Soe Win e os generais Than Oo e Aung Aung estão já impedidos desde julho de entrar nos Estados Unidos, sendo acusados de intervenção direta na “limpeza étnica” dos Rohingya.

c/ agências internacionais
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