Romney parte à conquista da Casa Branca a prometer renascimento da economia

Devolver “a promessa da América” aos desiludidos com a folha de serviço de Barack Obama enquanto Presidente dos Estados Unidos. É esta a missão que Mitt Romney se propõe levar por diante até às eleições de novembro. O político mórmon de 65 anos aceitou na última noite a nomeação presidencial do Partido Republicano. Dedicou, em seguida, a quase totalidade do discurso que culminou a convenção de Tampa, na Florida, a pintar o inquilino democrata da Casa Branca como alguém incapaz de resgatar os norte-americanos às malhas da crise económica.

RTP /
“Se sentiram excitação quando votaram em Barack Obama, não deveriam sentir-se da mesma forma agora que ele é o Presidente Obama?”, perguntou Mitt Romney Tannen Maury, EPA

“O Presidente Obama prometeu começar a travar a subida dos oceanos e a curar o planeta. A minha promessa é ajudar-vos e às vossas famílias”. Mitt Romney sintetizou assim aos delegados republicanos reunidos no Tampa Bay Times Forum e a uma audiência televisiva de milhões, nos Estados Unidos e no resto do mundo, a cartografia da sua candidatura à Presidência dos Estados Unidos.

O antigo governador do Massachusetts, um próspero homem de negócios que muitos veem como um enigma, dentro e fora das fronteiras do Partido Republicano, quis humanizar-se ao aceitar a nomeação partidária. Disse fazê-lo “com humildade” e “profundamente comovido”. Assumiu “uma grande honra e uma responsabilidade ainda maior”. Depois concentrou uma barragem de fogo de 39 minutos em Barack Obama. “Quando a minha mãe se candidatou ao Senado, o meu pai esteve sempre ao seu lado. Ainda me lembro de a ouvir dizer, na sua bela voz, por que razão não deveriam as mulheres ter uma palavra a dizer sobre as grandes decisões da nossa nação?”, recordou Romney.


Pelo meio imitou o apelo a valores familiares do número dois da sua candidatura, Paul Ryan, e falou da mãe e do momento, há 42 anos, em que Lenore Romney decidiu candidatar-se ao Senado com o propósito de envolver as mulheres nas “grandes decisões da nação”.

Era preciso falar ao eleitorado feminino, encarado como decisivo pela máquina de campanha do candidato. Mas foi sobre o currículo do Presidente democrata - nos capítulos domésticos da economia, mas também em matéria de política externa - que Romney fez incidir algumas das frases mais cuidadosamente tecidas para a noite da consagração partidária.

Obama, atirou a dada altura o candidato republicano, viu o entusiasmo suscitado pela sua campanha em 2008 “dar lugar a desilusão e divisão”. “Vocês sabem que há algo de errado com o tipo de trabalho que ele fez como Presidente quando o melhor sentimento que vocês tiveram foi no dia em que votaram nele”, afirmou.

O atual Presidente, insistiu Mitt Romney, “pode dizer que a culpa não foi dele”, ou que “vai acertar nos próximos quatro anos”. “Mas este Presidente não pode dizer que vocês estão hoje melhor do que quando ele assumiu o cargo”, clamou o antigo empresário, numa passagem do discurso mais direcionada a quem o seguia pela televisão do que aos delegados que o ovacionaram com a cadência desejada.
“Mais espinha”
As sondagens têm perspetivado um duelo apertado. A 67 dias da votação, o desfecho parece depender de uma pequena parcela do eleitorado norte-americano que permanece indecisa entre a reeleição do primeiro Presidente afro-americano dos Estados Unidos e a opção pelo homem ultrapassado há quatro anos nas primárias republicanas pelo herói da guerra do Vietname John McCain.TeatroA noite republicana ficaria marcada por aquilo a que o jornal conservador francês Le Figaro chamou “uma estranha diatribe”. O protagonista foi Clint Eastwood.

O cineasta de 82 anos ocupou o pódio e, durante um quarto de hora, falou para um banco vazio. Sem guião, improvisou um “diálogo” com Barack Obama. A espaços incoerente.

Entre o entusiasmo e a estupefação, os delegados ouviram Eastwood perguntar ao Presidente imaginário - entre outras questões – por que motivo não mantinha as tropas no Afeganistão ou por que razão utiliza, sendo “um homem ecológico”, o avião Air Force One.


Outro sinal que é impossível ignorar nos estudos de opinião é o de que tudo se jogará no domínio da economia. Atolados numa lenta recuperação, os Estados Unidos ainda enfrentam uma taxa de desemprego de 8,3 por cento. E Romney espera colher dividendos neste capítulo. Isto porque a maioria das sondagens parece indicar que os eleitores veem o republicano como alguém mais capaz para impulsionar o crescimento económico. Todavia, também indicam que Obama é visto como um político mais honesto e amigável.

Ao longo dos três dias da Convenção Nacional Republicana quase todos os oradores procuraram, à sua maneira, desfazer a imagem muitas vezes distante e rígida de Mitt Romney, retratando-o como um homem de família e devotado à confissão mórmon, um político que se mostrou contido nos gastos públicos enquanto governador do Estado do Massachusetts, o rosto que “salvou” os Jogos Olímpicos de Inverno de Salt Lake City, em 2002.

Na véspera do discurso de aceitação, o palco da Convenção foi reconstruído de modo a aproximar o candidato dos delegados. Romney emprestou a voz à estratégia, emocionando-se quando falou da sua vida familiar e dos cinco filhos.

Sem prejuízo do primado económico, boa parte do discurso de Mitt Romney seria dedicada à política externa, um tema que tem sido largamente tratado como uma nota de rodapé na campanha para a eleição presidencial. Também neste plano o candidato do Grand Old Party tentou arrasar a Administração democrata, acusando o Presidente de ter “abandonado os amigos da Polónia” com a revisão dos planos de defesa antimíssil, de se mostrar débil perante a Rússia e de se ter deixado ludibriar pelo Irão. Acusou-o mesmo de ter “atirado aliados como Israel para debaixo do autocarro”.

Contudo, foi para o Presidente russo, Vladimir Putin, que seguiu um dos recados da noite: “Na minha administração, os nossos amigos vão ter mais lealdade e o senhor Putin vai ver um pouco menos de flexibilidade e mais espinha dorsal”.
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