Rússia denuncia uso terrorista de drones após ataques na Síria

É uma nova ameaça de "uso terrorista", afirmam os russos, depois das suas forças em duas bases da Síria terem sido atacadas por drones fortemente armados e de fabrico especializado. O Ministério da Defesa da Rússia considerou estes ataques, ocorridos de 5 para 6 de janeiro último, como uma "ameaça real".

Graça Andrade Ramos - RTP /
Um combatente das Forças Livres da Síria lança um drone equipado com uma câmara de vídeo, em Raqqa, em junho de 2017 Rodi Said - Reuters

"Surgiu uma ameaça real com a utilização de drones com fins terroristas não importa onde no mundo", denunciou o general Alexander Novikov, do Estado-Maior russo, em conferência de imprensa esta quinta-feira.

"Até agora, os drones tinham sido utilizados essencialmente pelos combatentes para um reconhecimento aéreo", sublinhou. Contudo, os ataques do início do ano, provam uma mudança de paradigma.

Dez "drones carregados de explosivos" atacaram durante a noite a base aérea russa de Hmeimim, enquanto outros três atacaram a da frota russa em Tartessos, na Síria. Não provocaram vítimas nem estragos, afirma o ministério russo da Defesa.
Intervenção estrangeira
Cada um dos drones que participou no ataque carregava dez engenhos explosivos, de 400 gramas de peso cada um e pleno de pedaços de metal. O explosivo utilizado, o PETN - tetranitrato de pentaeritrina - é um dos mais potentes do mundo, o que indica mão de especialista no fabrico, afirmam ainda os russos.

Apesar das imagens difundidas pelo exército do Kremlin mostrarem engenhos voadores construídos de forma amadora, os drones utilizados não poderiam ter sido fabricados "em condições artesanais", mantêm os responsáveis militares, denunciando uma participação "estrangeira".

"O fato dos combatentes terem recebido as tecnologias de montagem e de programação dos drones a partir do estrangeiros, mostra que a amplitude desta ameaça não se limita as fronteiras da Síria", sublinhou o porta-voz do exército, Igor Konachenkov, para quem é necessária "a maior atenção" internacional "a partir de hoje, para neutralizar estas ameaças".
Combates em Idleb
Quarta-feira, o Ministério da Defesa russa afirmou que todos os engenhos voadores vieram da região síria de Idleb, no noroeste do país e que faz fronteira com a Turquia. Dominada pelo ex-braço sírio da al-Qaida, a região é a única não controlada totalmente por Damasco.

O exército sírio lançou a 25 de dezembro uma ofensiva para recuperar uma base militar estratégica situada no sudoeste da província, provocando uma nova onda de mais de 100 mil refugiados, segundo a ONU, além de tensões com Ancara.

A resistência dos jihadistas ao avanço do exército sírio tem-se revelado "feroz", de acordo com o Observatório sírio dos Direitos do Homem, OSDH, que possui alegadamente contactos por toda a Síria.

Graças ao apoio aéreo sírio e russo, as tropas leais ao Presidente Bashar al-Assad conseguiram nas últimas horas entrar no aeroporto militar de Abou Douhour, primeiro passo para a conquista da base, uma das mais importantes do país e necessária para novas ofensivas. Damasco procura estabelecer uma ligação terrestre segura à segunda cidade do país, Alepo. Perdeu o controlo do aeroporto de Abou Douhour em finais de 2015 e desde então a sua presença na província estava confinada às aldeias de Foua e de Kafraya.

O grupo Hayat Tahrir al-Cham, um grupo armado dominado pelo ex-ramo da al Qaida, e os seus aliados, que controlavam o local, lançaram entretanto uma contra-ofensiva contra as linhas da retaguarda sírias, a dezenas de quilómetros a sul do aeroporto e no nordeste da província vizinha de Hama.

"O obejtivo é aliviar a pressão na frente do aeroporto", refere a direção do OSDH. O contra-taque permitiu aos jihadistas recuperar várias localidades reconquistadas por Damasco no início da ofensiva.
Fúria turca
A ferocidade dos combates esta a provocar a fuga da população. Desde 25 de dezembro morreram quase 100 civis, incluindo 27 crianças, em bombardeamentos aéreos.

O Ocha, organismo da ONU para os assuntos humanitários, estima que 100 mil pessoas tenham já fugido e "muitos estão sem abrigo, o que os pode expor a diversos riscos", sobretudo durante o inverno.

A ONG Comité de Socorro Internacional assinala que muitas destas pessoas se abrigam em tendas ocasionais ou em "casas abandonadas" meio destruídas.Idleb faz fronteira com a Turquia e é uma das quatro zonas de "desescalada" de guerra que abrem caminho a um cessar fogo no país.

A ofensiva síria provocou uma reação firme de Ancara, apoiante de alguns grupos armados que combatem Damasco, que exigiu à Rússia e ao Irão, apoiantes de Bashar al-Assad "que assumam as suas responsabilidades" e detenham o assalto.

As tensões criam um clima de incerteza para a reunião presidida pelo Presidente Vladimir Putin para resolver o conflito e marcada para 29 e 30 de janeiro em Sotchi, na Rússia.
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