Rússia e Irão cerram fileiras por Assad após ataque de Trump

por Carlos Santos Neves - RTP
Aviões russos estacionados na base síria de Hmeymim Vadim Savitsky - Ministério russo da Defesa/ Reuters

Os chefes das estruturas militares russa e iraniana falaram este sábado ao telefone sobre o bombardeamento norte-americano contra uma base aérea das forças de Bashar al-Assad na Síria, prometendo “continuar o combate” aos “terroristas”. E voltaram a acusar a Administração Trump de ter ordenado “uma agressão contra um país independente”.

Os generais Mohammad Bagheri, chefe das Forças Armadas do Irão, e Valery Gerasimov, responsável pela máquina de guerra russa, “condenaram a operação americana contra uma base aérea síria”, que avaliaram como “uma agressão contra um país independente”, resumiu nas últimas horas a agência estatal iraniana Irna.O ministro russo dos Negócios Estrangeiros conversou igualmente ao telefone com o secretário de Estado norte-americano. Rex Tillerson ouviu de Sergei Lavrov um aviso contra "ameaças adicionais à segurança global". O chefe da diplomacia dos Estados Unidos é esperado na próxima semana em Moscovo.


O ataque desencadeado pelo dispositivo naval dos Estados Unidos, consideraram os dois generais, veio “retardar as vitórias do exército sírio e dos seus aliados e reforçar os grupos terroristas”.

Perante a aparente inflexão de estratégia da nova Administração norte-americana, que até há pouco tempo deixara de encarar o derrube do regime de Assad como uma prioridade, as forças militares russas e iranianas declaram-se dispostas a reforçar a cooperação bilateral em apoio do Presidente sírio: “Até à derrota total dos terroristas e daqueles que os apoiam”.

Pouco antes desta conversa telefónica, também o Presidente iraniano criticara Donald Trump.

“Esse senhor que tomou o poder nos Estados Unidos pretendia querer combater o terrorismo, mas hoje todos os grupos terroristas na Síria fizeram a festa depois do ataque americano”, lançou Hassan Rohani.
Mais bombas sobre Idlib

Este sábado a província de Idlib - que abrange a localidade de Khan Sheikhoun, atingida pelo ataque químico que serviu de justificação ao bombardeamento norte-americano de uma base de Assad -, no noroeste da Síria, terá voltado a ser alvo de um raid aéreo.

Há notícia de pelo menos 15 mortos entre a população civil, segundo o Observatório Sírio dos Direitos Humanos, com sede em Londres.

O ataque químico de terça-feira, amplamente atribuído pelas chancelarias ocidentais à aviação síria, causou as mortes de 87 civis, entre os quais 31 crianças. Com o respaldo da Rússia, o regime continua a negar qualquer responsabilidade.

Os 59 mísseis Tomahawk lançados a partir de dois vasos de guerra norte-americanos no Mediterrâneo - USS Porter e USS Ross - atingiram três dias depois a base aérea de Shayrat, apontada como um local de armazenamento de armas químicas até 2013.
América preparada para novos ataques
Na sexta-feira, perante o Conselho de Segurança das Nações Unidas, a embaixadora norte-americana junto da Organização, Nikki Haley, quis deixar claro que os Estados Unidos estariam “preparados e fazer mais” para contrariar o regime de Bashar al-Assad. “Mas esperamos que isso não seja necessário”, acrescentou.

A diplomata intervinha durante uma reunião de emergência, por impulso russo, dedicada à primeira ação militar direta dos Estados Unidos contra Assad em seis anos de guerra na Síria.

O Pentágono agitou a suspeita de algum tipo de assistência externa à aviação síria no ataque da passada terça-feira. Contudo, o Departamento de Defesa não foi ao ponto de acusar diretamente a Rússia.

Os russos, que previamente bloquearam a aprovação de uma resolução da ONU a condenar o uso de armamento químico, acusam desde sexta-feira os norte-americanos de terem “atacado território soberano da Síria”.

Na mesma reunião do Conselho de Segurança em que encaixou o aviso de Nikki Haley, o embaixador russo Vladimir Safronkov referiu-se ao bombardeamento norte-americano como “uma violação flagrante do Direito Internacional e um ato de agressão”.
Gesto britânico
Quem decidiu anular uma visita a Moscovo prevista para a próxima segunda-feira foi o ministro britânico dos Negócios Estrangeiros. Por causa “dos desenvolvimentos na Síria, que alteraram fundamentalmente a situação”.

“A minha prioridade é agora prosseguir o contacto com os Estados Unidos e outros, na aproximação da cimeira do G7 dos dias 10 e 11 de abril, tendo em vista organizar um apoio internacional coordenado a um cessar-fogo no terreno e intensificar o processo político”, explicou Boris Johnson em comunicado.

“Falei destes projetos, em detalhe, com o secretário de Estado Tillerson. Ele vai deslocar-se a Moscovo como previsto e, após o encontro do G7, poderá fazer passar esta mensagem clara e coordenada aos russos”, sublinhou.

“Lamentamos a defesa contínua, por parte da Rússia, do regime de Assad, mesmo depois do ataque com armas químicas contra civis inocentes”, insistiu Johnson, para em seguida instar o Kremlin “a fazer tudo o que é possível para que haja uma solução política na Síria e a trabalhar com o resto da comunidade internacional para que garantir que os acontecimentos chocantes da semana passada não voltem a ter lugar”, concluiu.

Moscovo reagiu depressa. Maria Zakharova, porta-voz do Ministério russo dos Negócios Estrangeiros, considerou “absurdo” o cancelamento da visita de Boris Johnson e reprovou o que considerou ser a falta “de estabilidade e coerência da política externa” do Ocidente.
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