Sarampo, cólera e febre-amarela. As doenças vencidas que podem voltar após a pandemia

por Andreia Martins - RTP
Vacinação de crianças durante a campanha de emergência de imunização contra o sarampo na província de Mongala, na República Democrática do Congo, no início de março de 2020. Hereward Holland - Reuters

Os especialistas alertam que milhões de crianças poderão morrer de doenças evitáveis devido à disrupção severa de programas de vacinação causada pela pandemia do novo coronavírus. Pelo menos 68 países foram afetados e em alguns a vacinação parou por completo.

Sarampo, difteria, cólera. Algumas das doenças dadas como vencidas em alguns países podem estar de volta e ceifar a vida a milhões de crianças, cuja morte poderia ser evitada através da vacinação. A diretora executiva da UNICEF, Henrieta Fore, alerta que os ganhos alcançados ao longo de séculos no combate a estas doenças podem ser deitados por terra. 

O perigo é mais elevado sobretudo para bebés com menos de um ano que vivem no Sudeste Asiático (onde se calcula que 34,8 milhões de bebés ficaram sem vacinação de rotina nos últimos meses) e em África (22,9 milhões de bebés sem vacinação).

Neste momento já existem surtos ativos de sarampo, no Nepal e Camboja, e de sarampo, cólera e febre amarela, na Etiópia. Na Nigéria, por exemplo, registaram-se desde fevereiro quatro novos casos de poliomielite.

De acordo com estimativas da Organização Mundial da Saúde, cerca de 80 milhões de bebés em todo o mundo podem ficar sem vacinação contra doenças como a difteria, sarampo ou a poliomielite, devido à disrupção dos serviços de saúde por causa da pandemia de Covid-19.

Uma interrupção desta escala da vacinação contra estas doenças evitáveis poderá resultar na morte de mais de seis mil crianças por dia, de acordo com a estimativa da Escola de Saúde Pública da Universidade Johns Hopkins Bloomberg.

“Temos a certeza que estas doenças vão voltar, e isso significa que vamos ter mortes de crianças em números sem precedentes em relação a anos recentes”, frisou Kate O’Brien, chefe do departamento de imunização e vacinas da Organização Mundial de Saúde. Para tentar evitar a escalada desta situação, os Governos devem agir “de imediato”.

As principais razões e justificações para a disrupção dos serviços de vacinação incluem desde pais que receiam sair de casa e levar os filhos a centros de saúde por receio de contaminação do novo coronavírus, a menor disponibilidade por parte dos profissionais de saúde para a vacinação, perante a necessidade de destacar mais recursos humanos na resposta à pandemia.

Noutros casos, a ausência de vacinação deve-se aos atrasos e interrupções no transporte das vacinas devido às medidas de bloqueio que vigoraram em várias partes do mundo.

A própria Organização Mundial de Saúde ordenou no final de março a suspensão temporária de campanhas de vacinação contra a poliomielite em vários países, por receio que grandes aglomerados de pessoas levassem a uma maior transmissão da Covid-19. Mas agora há preocupação sobre os impactos a longo prazo sobre a morte desnecessária de milhões de crianças com a disrupção dos sistemas de vacinação.
“Ninguém está a salvo até todos estarmos a salvo”

Estes avisos surgem no mesmo dia em que se inicia a Cimeira Global de Vacinação, evento virtual arranca esta quinta-feira no Reino Unido. Países e organizações vão ser chamados a contribuir com quase seis mil milhões de dólares para garantir que a vacinação continua a ser fornecida nos próximos cinco anos junto das comunidades mais pobres do mundo.

“Quando existe uma grande interrupção como esta nos serviços de vacinação, demora-se muito tempo até conseguirmos reconstruir alguns destes sistemas. À medida de avançamos rapidamente rumo à vacina contra a Covid-19, temos de nos lembrar que estes são os mesmos sistemas a que vamos recorrer para administrar também essas vacinas”, salientou Seth Berkley, epidemiologista e diretor da GAVI Alliance, uma parceria público-privada fundada por Bill e Melinda Gates, que tem por objetivo melhorar o acesso à vacinação em países pobres.

A conferência sobre vacinação já estava planeada ainda antes da pandemia do novo coronavírus e deverá atingir o objetivo na angariação de fundos. De acordo com o jornal The Guardian, as doações já anunciadas, ainda antes do evento, alcançam desde logo 75% do objetivo.

Na cimeira deste ano, para além da preocupação com doenças que se pretende erradicar através da imunização nos países mais frágeis e pobres, e das doenças que podem ressurgir com a disrupção da vacinação ao longo dos últimos meses, há uma vacina ainda não existente no centro das atenções.

Uma das discussões centrais do grupo de especialistas será precisamente sobre a distribuição equitativa de uma futura vacina contra o novo coronavírus em todos os países, e não apenas nos países ocidentais que tenham financiado a sua invenção e produção.

“Tudo isto começou em Wuhan e, em três meses, 180 países foram infetados. Ninguém está a salvo até todos estarmos a salvo. Se tivermos reservatórios desse vírus, isso vai afetar a segurança de todos, pelo que temos de pensar nisto de forma global”, frisou Seth Berkley.

Também a organização Médicos Sem Fronteiras apelou esta quinta-feira à criação de um fundo que tenha em vista a compra de vacinas contra a Covid-19 para os países em desenvolvimento e a criação de um mecanismo global que tenha por objetivo garantir a distribuição equitativa da mesma.

“Os Governos devem garantir que quaisquer futuras vacinas contra a Covid-19 serão vendidas a custos universalmente acessíveis em todo o mundo”, sublinhou Kate Elder, consultora sénior de políticas de vacinação para os Médicos Sem Fronteiras. 
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