Síria. ONU denuncia execuções sumárias de natureza sectária no oeste do país

Mais de 100 civis foram assassinados, incluindo casos de execuções sumárias alegadamente por motivos sectários, no oeste da Síria desde 06 de março, declarou hoje o Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos (ACNUDH).

Lusa /
Foto: UN

O porta-voz do ACNUDH, Thameen al-Kheetan, afirmou que a organização "documentou até agora o assassínio de 111 civis" na costa da Síria, embora tenha sublinhado que "o processo de verificação ainda está em curso" e que o número de pessoas mortas possa ser significativamente maior.

A organização não-governamental (ONG) Observatório Sírio para os Direitos Humanos (OSDH) afirmou que mais de 1.000 pessoas já foram mortas.

"Muitos dos casos documentados foram execuções sumárias. Parecem ter sido realizadas por motivos sectários nas províncias de Tartus, Latakia e Hama [oeste], aparentemente por indivíduos armados não identificados, membros de grupos armados que alegadamente apoiavam as forças de segurança do Governo de transição e elementos associados ao antigo Governo" sírio, disse Al-Kheetan.

Numa série de casos considerados extremamente perturbadores, famílias inteiras --- incluindo mulheres, crianças e indivíduos fora de combate --- foram mortas, com cidades e aldeias predominantemente alauitas - grupo étnico que teria desenvolvido laços fortes com o regime do antigo Presidente sírio Bashar al-Assad - a serem alvos em particular, segundo o porta-voz.

De acordo com testemunhos recolhidos pelo Escritório da ONU, os atacantes invadiram casas, perguntando aos residentes se eram alauitas ou sunitas antes de os matarem ou os pouparem. Alguns sobreviventes contaram que muitos homens foram mortos a tiro em frente às suas famílias.

Entre 06 e 07 de março, indivíduos armados alegadamente afiliados às forças de segurança do antigo Governo também invadiram vários hospitais em Latakia, Tartus e Baniyas.

Registaram-se confrontos com forças de segurança das autoridades de transição e grupos armados afiliados, resultando em dezenas de vítimas civis, incluindo doentes, médicos e estudantes de medicina, bem como em danos nos hospitais.

Outras violações e abusos registados nos últimos dias incluem saques generalizados de casas e lojas, principalmente por indivíduos não identificados que parecem ter-se aproveitado da situação caótica na região.

De acordo com o ACNUDH, muitos civis fugiram das suas casas para zonas rurais, enquanto alguns também procuraram refúgio numa base aérea controlada pelas forças russas na zona.

As autoridades de transição anunciaram o fim das operações de segurança nas zonas costeiras na segunda-feira. No entanto, continuam a ser relatados confrontos intermitentes.

"Estamos preocupados que o aumento significativo do discurso de ódio e de desinformação possa inflamar ainda mais as tensões e prejudicar a coesão social na sociedade síria", afirmou Thameen al-Kheetan.

O alto comissário da ONU para os Direitos Humanos, Volker Türk, apelou à responsabilização de todos os culpados por estes crimes. Volker congratulou-se com a criação de um comité de investigação independente pelo Governo de transição sírio, apelando às autoridades para que as investigações sejam rápidas, completas, independentes e imparciais.

"Para garantir que tais violações e abusos angustiantes não se repitam, é imperativo que o processo de seleção e integração de fações armadas nas estruturas militares da Síria esteja em conformidade com as obrigações do país ao abrigo dos direitos humanos internacionais e do direito humanitário, e aborde plenamente a responsabilidade de todos aqueles que estiveram envolvidos em violações passadas ou recentes dos direitos humanos na Síria", sublinhou Al-Kheetan.

O Presidente do Governo de transição e líder da Organização para a Libertação do Levante (Hayat Tahrir al Sham, HTS), Ahmad al Chaara, anunciou no domingo a criação de uma comissão para "preservar a paz civil" que terá três membros, incluindo os governadores de Latakia e Tartus, sublinhando que irá "trabalhar para fortalecer a unidade nacional nesta fase delicada".

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